Partidas – Por Mariana Gouveia

Mariana Gouveia:

Eu, no Retratos da Alma…

Postado originalmente em Retratos da Alma:

A primeira vez que ela me falou sobre partidas foi durante uma colheita de cogumelos.

Eu já não demonstrava todo aquele jeito de menina e ela nem parecia mais a fadameiobruxameioflor, mas tinha jeito de .

Enquanto eu mordia o lado mole do capim e limpava o suor do rosto – que teimava em cair –, ela começou a falar de um certo lugar. Um local lindo, que todos iriam conhecer… e era para onde a gente ia depois que partisse.

Senti uma dor na alma com a palavra “partisse”… e imaginei uma viagem. Perguntei se ela ia viajar e, suavemente, ela disse que logo teria de ir.

– Quando você volta? – indaguei, já imaginando estar sem ela por mais de um dia. Eu nunca havia ficado tanto tempo sem sua figura… a todo o tempo, ela era presença certa na minha vida.

– Talvez eu não…

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A garota de scarpin vermelho – Por Mariana Gouveia

Mariana Gouveia:

eu, no Retratos da Alma.

Postado originalmente em Retratos da Alma:

“na outra margem da noite
o amor é possível
leva-me
leva-me entre as doces substâncias
que morrem a cada dia em tua memória”

- Alejandra Pizarnik -

Trazia a delicadeza na pele. Cheirava a algum perfume novo que não consegui desvendar.

Os olhos me acompanhavam por onde eu ia. Entre as prateleiras dos livros, entre um exemplar e outro, estávamos frente a frente. Passou de leve por mim e senti a curiosidade de olhar as mãos. O anel acentuava ainda mais o esmalte vermelho. Paramos no caixa, ela em minha frente e eu ali, a espiar a nuca, onde os cabelos caíam discretos em ondas.

Enquanto pagava sua compra, olhou para mim e sorriu:

- Não, as palavras não fazem amor. Fazem ausência. Se digo água, beberei? Se digo pão, comerei?

Busquei pela memória onde já tinha ouvido essas mesmas palavras, e sorri de volta:

- Alejandra Pizarnik?

Concordou com…

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Carta à minha bambina aos cuidados de Outubro.

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O Outubro aqui é rosa e eu aspiro Exemplos em palavras tuas. O calor não me permite o café, é quase como estar em um forno e ainda assim a brisa morna me leva até você.
A palavra missivas me cai como música. Cheiro o envelope pardo e pinto ele com a cor do seu sorriso. O meu vestido florido canta a primavera que ainda passeia no meu quintal.
As papoulas, vindas como sementes ganham folhinhas verde esperança em um vaso que cultivo, reverencio e “faço chover” nele todos os dias.
Meu tempo, tão contado em minutos nesses dias loucos, avesso às minhas poesias, reverbera em mim vontades, que planto e amadureço em mim.
Vontade plantada de ver esse riso solto, de lamber focinho do cão…de pular as poças d’ água e de ficar apenas em silêncio…é impossível eu ficar em silêncio diante de tantas impossibilidades. Flor de viagem plantada no meu quintal.
Exemplos antecipando desejos de abraçar e conhecer o riso largo.
De estender conversa sobre o personagem principal de amar.
Exemplos contando histórias que acontecia. Ainda hoje o noticiário falou algo sobre isso – lembrei -
Mas o movimento de ter nas mãos a fita que ela costurou e ler as palavras que ela escreveu e a frase dedicada a mim – sonhos vão além de sonhos, seu pai falou um dia.
Realizá-los é a meta. Seja a amora no quintal, o boldo que floriu lilás ( e eu só sentia o gosto amargo pela boca adentro) e o carteiro que já me conhece e sabe que nunca vou estar na hora da entrega e que ele amorosamente faz a gentileza de voltar na hora em que tem alguém em casa.
Não fosse isso, hoje, eu não escreveria essa carta. E a mágica de uma lua enorme invadindo a sala e eu, dignificada no olhar não cantaria Bocelli o hino que me leva até você.
A melodia interrompe os gritos da noite, o latido do meu cão, o cri-cri dos grilos debaixo da pedra de amolar, que tem a minha idade – Sim! Eu tenho uma pedra de amolar facas que já era antes de mim, e quando meu pai mudou me confiou a herança única de levar comigo a pedra que ele buscou em uma aventura que escrevo em outra carta.
Amanhã, amanheço com o dia o calor, que segundo a meteorologia muda o tempo em quase todos os outros estados, mas que aqui, continuará esse mesmo calor que aquece a pele, a alma, a vida.

Mariana Gouveia.

 

SOBRE TODAS AS COISAS QUE EU…

Mariana Gouveia:

Quando algumas coisas nos atinge de verdade. É isso…

Postado originalmente em EU SOU STONEHENGE:

Eu apaguei tuas fotos, sei que saber disso te deixaria um pouco feliz, mas, não me deixa. Aquelas imagens, muitas de má qualidade, eram tudo o que eu tinha de você, era ainda tê-la a comigo.

Sabe quando você sente sono o dia inteiro e a noite, quando finalmente o mundo se acalma para que possa dormir, o sono simplesmente desaparece, a cabeça as vezes pesa e a angústia faz companhia? Você me fazia dormir em noites assim. Sabe quando você acorda algumas horas ou minutos mais cedo e não tem nada pra fazer? Você costumava levar embora o tédio do meu peito. Aquelas fotos me levavam embora daqui. Eu costumava criar diálogos mentais entre nós e sorria, tão só. Não te ter nem ao menos em fotografias significa que lhe perdi de vez, lhe perder de vez significa que eu não me tenho e não mais me encontrarei.

O…

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Das cartas que escrevi…

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Querida L
Abro o dia de amanhã e é como se um envelope fosse aberto. Adoro o cheiro. Trazem histórias dentro dele.

Somos o contrário – Eu possuo os dias, com seus voos rasantes de beija-flor anunciando o normal do milagre que me acontece todo dia – enquanto você adora os silêncios gritantes da noite que te rodeia.

Às vezes, as coisas me acontecem como milagres. Ei-lo hoje, em forma de cheiros de envelopes rondando meu lugar. Acho que essa sensação dentro de mim se chama felicidade. E foi você quem trouxe. A primavera irrompe o muro do quintal e traz a delicadeza da flor do hibisco onde uma borboleta pousa.

Trovões fazem sua festa no céu anunciando uma tempestade. O vento sacode as folhas do pé de canela e o cheiro invade as  salas do escritório e eu aspiro vontades.

Vontade de chá, de silêncios, de sair sem rumo sentindo a chegada da chuva. O céu muda sua cor e eu fico apenas a espiar da janela esse dia que cheira primavera.

Quase que para além, das palavras eu ouço o vento que o menino grava para sua mãe e envia feito mensageiro em um vídeo só para dizer que lá pelas bandas da casa deles choveu também.

Contou as poças d’água no quintal. Do ninho que algum pássaro perdeu por causa do vento, das mangas ainda verdes e que frágeis vão virar comida de pássaro no chão. Finaliza dizendo que lá para os lados do meu lugar um sol fraquinho vence a chuva da primavera e faz presença onde meus cães sentem minha falta.

Falta pouco para o dia findar. Tão pouco, que quase sinto que é amanhã, onde começará tudo outra vez.

Mariana Gouveia

Feliz Primavera! – Por Mariana Gouveia

Mariana Gouveia:

Eu, no Retratos da Alma.

Postado originalmente em Retratos da Alma:

Andamos lado a lado, enquanto eu ia em direção ao ponto de ônibus. Percebi como cresceu… senti que ele queria falar, e começou a dizer:

- Eu não entendo algumas coisas.

- Para te falar a verdade, eu não entendo muita coisa também. – tentei buscar uma explicação mais plausível, para que a conversa fluísse normalmente – Eu, por exemplo, não entendia por que meu filho adorava ouvir Linkin Park. Hoje, eu entendo.

- Entende Linkin Park?

- Entendo a poesia através dos instantes em que meu filho ouvia Linkin Park.

- Não entendo poesia.

- Não é para entender. É para absorver.

Silêncio…

- Como se absorve poesias?

- Sei lá. Fecha os olhos, respira… inspira. Solta o ar… e você acabou de comer poemas.

- Humm… Acho que sei como é.

Silêncio…

- Esse silêncio é poesia?

- Pode ser. Depende da maneira como você vê.

- Então…

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