Sagrada e profana – Por Mariana Gouveia

Postado originalmente em Retratos da Alma:

Era a décima vez que ia àquela igreja. Levava o terço na mão. Não pedia milagre. Queria apenas que a sensação de fogo desaparecesse dentro dela cada vez que pensava na outra.

Fechava os olhos e via o riso dela tão perto, que parecia que, se os abrisse, podia vê-la ali, com seu jeito terno de ser. E, quando isso acontecia, além do riso, pensava na singeleza do olhar. Na doçura do toque das mãos. Na saia florida que dançava quando ela andava pela cozinha, na mesa…

Espantava o pensamento se lembrando de onde estava. Pelo menos ali, naquele lugar sagrado, não queria pensar nela. O padre que a conhecia desde menina estranhou as visitas, que só eram frequentes quando fizera a crisma. Perguntou se estava tudo bem. Respondeu que sim. Que só precisava rezar.

Lembrou as palavras da outra, dizendo – não é pecado amar. Pecado é outra coisa!…

Ver original 77 mais palavras

Com uma esferográfica cravada no coração

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É apenas um pequeno buraco no meu peito

 mas sopra nele um vento terrível.

  Henri Michaux
 

A ansiedade chegava antes das cartas. Por causa do lugar, as cartas chegavam com atraso de 15 dias. A maior dificuldade dela era fazer as contas do dia em que as palavras foram escritas.

As palavras vinham adoçadas. Recheadas de saudades. – “ontem fez frio”. “anteontem choveu”. ” hoje amanheceu nublado”. “sonhei com você” ” queria ser eu a estar em suas mãos”.

Descrevia em cada letra tudo que vivia para que ela soubesse o momento exato em que as letras saiam da caneta para ganhar vivacidade na boca que lia.
Quando o carteiro virava a estradinha, que fazia a curva perto do velho ipê, ela já saía em disparada e com o coração na mão.

Devorava cada instante antes de abrir o envelope. Aspirava o perfume que só mais tarde descobriu ser um perfume de ervas verdes, com nome estranho que ela nunca havia visto falar.
Aquela carta ganhava vida na boca dela. E deitava sobre a grama molhada, lia e relia como se fazendo isso, as palavras ganhasse vida e o beijo acontecia.

O dia em que as palavras ganharam realidade foi uma magia! Era como se as letras ao simples toque de falar, estavam ali um frente ao outro. E o carteiro, antes personagem principal, ficava tão distante de tudo que acontecia. Fechava os olhos e aspirava o mesmo perfume que as cartas traziam. E as tintas que manchavam o papel fazendo o encontro acontecer já não tinham mais sentido.

Era toque, cheiro, e o coração que sangrava as palavras ditas. E havia festa naquele lugar tão distante da civilização, que parecia que o mundo todo festejava. A pequena aldeia fazia festa porque o primeiro amor, acontecia.

Um dia, não sei se por guerra ou por paz, as cartas pararam de vir.
E o físico deixou de acontecer.

O carteiro já nem aparecia com a mesma regularidade. Trazia apenas as apostilas do Instituto Universal Brasileiro. Minha irmã aprendia corte e costura, o outro irmão, pintura artística e eu bordava tudo que via. Desde as palavras que saiam das cartas até o jardim de flores que minha mãe plantava. Virou história bordada a minha história de amor.

O primeiro amor se foi. As palavras não. Ficaram ali, como se a esferográfica tivesse ficado cravada no coração.

 

Mariana Gouveia*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras Aurea Cristina, Claudia CostaFernanda FarturettoLunna GuedesMaria CininhaMariana Gouveia e Tatiana Kielbeman

E era por dois.

E era por dois.

Há o teu rosto dentro do teu rosto: único e múltiplo.
As tuas mãos de outrora nas tuas mãos de agora
Há o primeiro amor que é sempre o último
antes do tempo ou só depois da hora.

E vinhas de tão longe. E era tão fundo.
Eu conheço-te. E era por mim. E era por ti. E era por dois.
E havia na tua voz o princípio do mundo.
E era antes da Terra. E era depois.

Manuel Alegre

Desde que o mundo começou a ser mundo

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“Tomaste o caminho do vento e por lá te demoras”
–  Isabel Mendes Ferreira-

 

Havia pouco tempo que eu morava ali. Mudamos dias depois que minha mãe morreu. Não sei se para meu pai ficar livre das lembranças e do cheiro dela na casa, nas coisas. O fato é que a casa nova tinha mais coisas dela do que a antiga. Ao arrumar os móveis, tudo era dela e tinha o seu jeito. Tudo foi arrumado, até inconscientemente, da maneira como ela gostava e o jardim, no fundo da casa, parecia haver sido plantado por ela.

Casa nova, novos vizinhos e foi ali, duas casas depois da nossa, para onde elas também haviam mudado recentemente. Um dia depois de nós. E pelo mesmo motivo. A perda da mãe. Elas eram Ana e Cristina. Gostei logo de Ana – tipo amor à primeira vista. Mas, foi Cristina quem ocupou espaço em minha vida. Era tipo aventureira, corajosa e nos empurrava para as experiências dela.

A casa delas tinha um sobrado com um quarto, mas que permanecia trancado desde que se mudaram. Na divisão da herança, elas ficaram com a casa, em que o tio havia morado a vida toda. A chave permanecia debaixo do tapete, antes da escada. E Cris, na sua impetuosidade, obrigou-nos a abrir a porta. Além da poeira em todos os móveis, que um dia retratarei com mais detalhes, havia um baú enorme e é claro que abrimos.

Entre roupas, pequenos bibelôs e livros, havia ali um diário, que as meninas interessadas em tesouro nem deram atenção. Logo começaram a dividir os objetos e, em meio a eles, um sapato de verniz roxo, que Ana calçou como se fosse uma princesa e, então, colocaram o diário em minha mão como presente. Foi ali que desejei ser escritora. Foi ali que desejei conhecer o amor que surgia à minha frente com uma história emocionante de Anna Lee e que retrato agora, em pequenas nuances, em um relato diário de amor:

“1º de abril de 1958 – o dia amanheceu nublado e frio. Nas ruas quase não havia ninguém. Foi quando ele surgiu não sei de onde. Vinha cabisbaixo como que procurando algo. Eu havia ido à janela abrir a cortina. Nossos olhares se encontraram e meu corpo reagiu ao encontro. Não sei o que senti, mas sei que foi algo que não poderia escrever sobre. O vento cantava a melodia das folhas das árvores e meu coração cantou junto. Desde que o mundo começou a ser mundo eu já te amava e te conhecia antes mesmo de ver-te. Ele seguiu rua abaixo olhando para trás de vez em quando, abraçando o próprio corpo, como para se aquecer. Aquele gesto mexeu comigo. Meus olhos seguiram e no buscar ele aonde a rua sumia, bati a cabeça na janela. Ele riu. Pude ver isso. Foi a maior certeza que tive em toda a vida. Eu já o amava.

2 de abril de 1958 – Ouvi um barulho na janela, como se fosse uma pedra. Não sabia o que era. Mas, já tinha a sensação plena dele correndo em meu sangue. O coração acelerado, e as mãos suavam, apesar do frio. Quando cheguei à janela, lá estava ele… O sorriso que eu imaginara no dia anterior agora tomava seu rosto e os olhos me desenhavam um horizonte em que eu queria morar a vida inteira. Se possível, morrer dentro deles”.

O diário relatou aos meus olhos uma história de amor. Que descrevi e que vai virar livro. Ana e Cristina foram frutos desse amor. Embora só tivessem descoberto mais tarde. E nós descobrimos um tesouro. A vida nos distanciou nas lembranças, nas histórias livres de cada uma. Ana se tornou enfermeira, profissão que a mãe teria, se não fosse tudo que aconteceu pelos dias dela. Cristina cumpriu a sina de aventureira e perseguiu seu sonho de conquistar o vento.

Quando me chegou o tema do Caderno de Notas desta quarta edição, tive a certeza de que teria de falar sobre isso. Porque o assunto era exatamente o tema do diário escrito por uma mão que já amava alguém antes de o mundo ser mundo.

Mariana Gouveia

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras Aurea Cristina, Claudia CostaFernanda FarturettoLunna GuedesMaria CininhaMariana Gouveia e Tatiana Kielbeman