Sem ti

4.jpgElena Sariñena*imagem: Elena Sariñena

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E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem lua.

Só nas minhas mãos
oiço a música das tuas.

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Eugénio de Andrade

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Fazes-me falta

Fazes-me Falta

(…) O teu cheiro surpreendeu-me pela delicadeza e pela névoa erótica. Encostei o meu braço ao teu e comecei a transpirar. Sentia uma vontade violenta de me desmoronar em ti.

Não, não era fazer amor. Fazer amor não existe, porra, o amor não se faz. O amor desaba sobre nós já feito, não o controlamos – por isso o sistema se cansa tanto a substituí-lo pelo sexo, coisa gráfica, aparentemente moldável. Também não era foder, fornicar, copular – essas palavras violentas com que tentamos rebentar o amor.

Como se fosse possível. Como se o amor não fosse exactamente essa fornicação metafísica que não nos diz respeito – sofremos-lhe apenas os estilhaços, que nos roubam vida e vontade.

Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu. Para que me fizesses desaparecer nos teus ossos. (…)

in Fazes-me Falta

Inês Pedrosa

Expectadora

expectadora

olhos meus, ávidos

de voyeur que desenham teus gestos na rotina da manhã

e repetem instantes já vividos.

Desejos meus,todos de quem ama

que insinua as vontades entre letras

e justifica a risada mais gostosa.

Corpo teu,que desperta fome,sede

e fantasias

e que pelos olhos simples de expecatdora

te vigia.

te faz bela,terna.Minha.

Amor meu,esse que dedico

e que é a substância que eu bebo todo dia.

E assim,me sentir viva e tua.

Mariana Gouveia

Se você quiser eu danço com você

Anouk Lacasse  flores vento cabelos

no pó da estrada
pó, poeira, ventania
se você soltar o pé na estrada
pó, poeira
eu danço com você o que você dançar

 

se você deixar o sol bater
nos seus cabelos verdes
sol, sereno, ouro e prata
sai e vem comigo
sol, semente, madrugada
eu vivo em qualquer parte de seu coração

 

se você quiser eu danço com você
meu nome é nuvem
pó, poeira, movimento
o meu nome é nuvem
ventania, flor de vento
eu danço com você o que você dançar

 

se você deixar o coração bater sem medo

 

 

Lô Borges e Ronaldo Bastos

*imagem Anouk Lacasse

Pego na tua mão…

JAPARIDZEMAIN MAIN*imagem: Nick Japaridze


e beijo-a. Pego na tua mão e danço.
Pego na tua mão e apresso o movimento da terra à volta de nós dois.
Pegar na tua mão é viver de novo a vida de uma forma inteira.
Inspiro-te. Respiro-te. O cansaço é doce, estupendo, para sempre.
À nossa volta tudo arde no fogo verde desta primavera, e a inquietação é um fruto excitante, por colher. Não pares.
Continua a dançar comigo. Como se fizéssemos amor.

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Joaquim Pessoa

À Gilka Machado,

Das cartas

Scenarium livros artesanais

Por Mariana Gouveia

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Mariana Gouveia, autora

Querida Gilka

Talvez eu fale mais de mim nessa carta do que propriamente de você. Nessa semana, minha previsão de tempo saiu dos trilhos – não o tempo mesmo, de clima, que continua insuportável por aqui – mas o tempo de relógio, que foge daquilo que a gente traça.
Passou por mim, dias inteiros de lenda viva, de mitos e de comemorações de vida. Sobrevivi a algo que nem sabia e me perdi na rotina dos dias. Pinto um retrato que não se revela – como seu poema que mais gosto – e de fato, vivi uma semana em uma realidade que não é minha.
A aldeia indígena pegou fogo, e vi a alma da floresta fugir como pássaros em migração para escapar do calor. Vi pessoas perderem tudo que tinham construídos e ainda assim, vi a esperança nos olhos delas e foi isso que me…

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Inquietação pelas borboletas

mira nedyalkova 2
*imagem: Mira Nedyalkova

Sentei de novo na poltrona cinza, voltada para a janela.
Depois dos cumprimentos banais a visão de uma borboleta voando rente a janela me tirou a atenção.
Eu sabia decifrar os sinais. Ri.

Ela percebeu meu olhar distraído e seguiu para onde eu olhava.
– A distração das borboletas – ela disse.
– Ah, não sei por que, onde estou sempre aparece uma – falei.
– É coincidência…
Percebi que ela procurava as palavras certas para dizer. Evitou o assunto borboletas.
– Vamos aos trâmites convencionais – ela continuou.
– Não acredito em ninguém convencional. Essa hipocrisia boba do comum.

Pediu que eu decifrasse o incomum. Qual o objetivo do imaginário.
– Eu disse comum.
– Algumas pessoas gostam de imaginar que tem um lado secreto. Ajuda a enfrentar a realidade.
– Eu gosto de imaginar que tenho um lado real. Me ajuda e enfrentar o meu lado secreto.

a borboleta voltou.
Ela me conta sobre sua infância e sua inquietação pelas borboletas.

Mariana Gouveia – do Divã