235. das impressões do dia seguinte


Bambina mia

O dia amanheceu amarelo. O sol, logo pela manhã, rompeu a barreira da névoa e veio radiante. Lembrei-me da moça do tempo com sua simpatia dizendo que os paulistanos viram o sol e citou até os minutos que o sol deu as caras ai.
Confesso que achei engraçado e logo pensei em tu – tão cheia de sol – que nem precisa dele para se sentir plena.
Mas, estávamos falando de amarelo. Dourou tudo aqui. Precisava ver! As gérberas do meu quintal antecipou a primavera por aqui e quando chovi sobre elas, com meu regador, me trouxeram um frescor de alma.
Na avenida principal, os ipês derramaram suas pétalas de ouro pela calçada. Cedi a tentação de descer do 609 – a linha de ônibus que me leva ao trabalho – e deitar sobre as flores.
Em cada esquina eu lembrei-me de Van Gogh – dizem que adorava o amarelo – e de uma carta/poema que fiz para minha mãe, onde a vida dourava nossa existência dentro da cor.
Agosto sempre me traz ela com seu vestido amarelo de florzinhas miúdas. Ela irradiava cor. O chapéu feito – por ela – com capim dourado fazia com que ela parecesse um personagem desses de fotonovelas, que ela adorava.
Enquanto anotava mentalmente essa missiva pensando em você, e já no fim do dia, a cor desenha a vitrine da esquina francesa por onde volto para casa. Uma escada toda com frases em francês – que julgo ser um poema – e que prometo fotografar, amarelava no meu fim de tarde. A vitrine onde a torre se ergue minúscula, mas imponente e os detalhes desde o manequim às garrafas coloridas me ofereciam a cor.
Em casa, o amarelo rompe os aposentos com envelopes amarelos que chegaram do lado de lá do oceano. Trouxeram-me esperança de carinho sentido na pele e sob a luz amarela da luz difusa te abraço e agradeço a pluralidade que me oferece todos os dias.
Amo mais!
Grazie
Mariana Gouveia
235. das impressões do dia seguinte

234. das impressões do dia seguinte

 

Guardou a mão para o vento da tarde. A carícia rondava a alma, a pele.

O elemento água me pertencia com jeito de mar. Naufragou nas esquinas todas. Doida de pedra mergulhou em um rio rasante. Engoliu a mudança das marés. Cavou com a própria mão a areia e sentiu-a dentro da pele, couro rasgando sendo tocado. Maresia a saber na boca e o eco das ondas a bater no muro.
O rio é esse abismo de mar e o peixe a voar para além das muralhas… as conchas contando histórias dos búzios que vieram pelo correio e trouxe o cheiro de mar e nunca mais deixou de ser marítima. A anatomia na pele de vida marinha. Quase ser úmida de tanto amar. Soubesse nadar, voaria.

 

Mariana Gouveia
234. das impressões do dia seguinte

233. das impressões do dia seguinte

 

Guardou-me dentro das fotografias. Pendurou-me no lado esquerdo da porta. A chave, de cores variadas lembrava a conversa sobre os séculos habitados de ausências.
Eu só queria dizer que choveu e que as cartas que  foram esquecidas no baú, ganharam atenção em cada palavra. Os desenhos feito à mão e o eco do mar a desafiar minha lembranças das coisas. As poesias escritas por suas mãos cabem na minha saudade.

Enquanto revirava o baú, fiquei ali confinada nas tuas fotografias de vento. Cabelo preso em alguma folha que lembrava um coração. A frase que você descobriu em um muro, era apenas motivo de quebrar regras.
Quase ganhei asas nas tuas cores e sua voz ecoa feito onda do mar.
Quando a janela se fechou, virei quadro caído na parede, inseto parado na mão e história para ser contada depois, como se o pretérito imperfeito fosse o ponto principal de um século inteiro que passou.
A ave ecoa o silêncio na árvore seca. Tudo era solidão dentro da tarde onde as cartas viraram asas de papel ao vento.

 

Mariana Gouveia
233. das impressões do dia seguinte

232. das impressões do dia seguinte

Choveu e aspirei a saudade no ar. Esqueço a nomenclatura dos dias.
Eu sou solar e a chuva invade esse dia lento.
Já não sei dizer o sol e a meteorologia prevê a estação de fato, onde moro.

Entre o silêncio e o vento, trovoa. O eco do céu ruge feito um animal bravio.
Salvo as delicadezas do quintal uma a uma e a metamorfose acontece diante do dia.
E eu a esperei como se espera o dia que amanhece depois de uma noite longa de insônia.
Eu a esperei como o jardim espera a flor nascer e como o inseto espera a mão que o acolhe.
Talvez amanhã, o cotidiano aconteça nas rotinas da espera.

Mariana Gouveia
232. das impressões do dia seguinte

231. das impressões do dia seguinte

De frente para o medo, os corredores vasculham a alma de madrugada. A floresta é logo atrás da janela fechada.
O mar bate nas ondas com fúria das pedras.
A lucidez foge e as alucinações são os dias sem novidades e tudo sempre a mesma coisa quando se conta os segundos dentro das horas.
Citei mil vezes as cores dos olhos dela. O calor da noite a invadir o quintal. As violetas brancas a parir as flores na certeza da semente.

Na rádio, o sinal sonoro das horas. E a maresia fazendo sinal de saudade com a boca a sal.
O café servido para a turma da noite e os bules fazendo barulho em qualquer canto.

Trinava a ave de todo dia. O vento bate na janela fechada e a busca do nome a ecoar saudades do que nem foi vivido.
Essa loucura – dizem que pega – é mal de quem mente que não ama amando.

Do outro lado, as regras são quebradas em fotografias com canções dedicadas.
Desse lado, toda a noite, a lua é parda.

 

Mariana Gouveia
231. das impressões do dia seguinte

230. das impressões do dia seguinte


Quase uma semana que a janela não abre – perdeu o significado de espera – perdi a sonoridade do vento que não invade mais os corredores e nem dança com a cortina.

O tempo mudou duas vezes dentro do mesmo dia.
A ave, sozinha, acatou a possibilidade do voo, sem incentivo de asa.
As paredes mudaram a cor diante do espelho.
A noite é um ensaio longo sobre a dor. Conta-se quantas linhas entre os ladrilhos. Quantas telhas ocupam o teto e seus ninhais.
As flores se derramam entre as estações e ficou apenas o vazio da palavra fazendo eco no nunca mais.

Mariana Gouveia
230. das impressões do dia seguinte

 

 

229. das impressões do dia seguinte

Floresceu tudo de vez na rua do meio. A calçada coube cheiro de flor em todo canto e a primavera antecipou as estações dentro do olho.
O mundo ficou cor de rosa por onde pisava. Era como se a menina da infância criasse poder de colorir a sua volta. Coloria o riso da menina que gostava de sorvete. Coloria o muro do outro lado da esquina.
Os ipês ganhavam cor de quando a vida era andar descalça pelo capim dourado do campo e a fileira da árvore que o pai plantou, floria assim no mês de Agosto e a canção sertaneja ressaltava um mês onde era denominado o mês do ipê.
E no fim de tarde, quando o vento vindo dos lados do sul arrastava cheiro de flor por toda rua, ouvia um farfalhar de flores como se a saudade tivesse voz dentro dela.

Mariana Gouveia
229. das impressões do dia seguinte