Diário das quatro estações · Mariana Gouveia · Scenarium Plural

Ser escritor — o confronto das emoções

Escrever é esse roubar de almas que o escritor se atreve. Vê o personagem, imagina, cria e dá-lhe voz e movimentos… Ou não!

Eu, por exemplo, no Lado de dentro – meu primeiro livro – me senti como se tivesse aberto o caderno de infância, da adolescência e expus as poesias guardadas no coração, sem deixar de ser a mulher que era e sou.

Já, no Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações, foi como tirar aquele cadeadinho do diário, onde os segredos são revelados – Foi libertador – e deixasse ali, ao alcance de quem quisesse folhear. E pode apostar que muita gente quis. Se você quiser adquirir, é aqui que tem a chave.

Corredores foi falta de respirar. A história chegou, caiu em meu colo e mesmo que eu não quisesse falar, Maria gritava. Não me deixava dormir. Queria escancarar a verdade e revelar seus medos, angústias e sua história. Não resisti. Aceitei as regras e Maria ganhou voz através de minhas palavras. Foi doido, doído e emocionante. Em alguns dias, eu chorei, em outros, sorri e respirei liberdade.

Portas Abertas, foi o grito no abismo a espera do eco e o afago de mão no amor de Maria. Ainda respiro a liberdade dela e o alívio das páginas encerradas dentro do que chamo de resiliência. Nada seria mais compensador.

Mas, a emoção de quem escreve está na derme, à flor da pele e grita. Você vê a moça no banco da praça e já dá nome, lugar, morada e amores. O moço da reciclagem ganha trilha sonora e vestimenta em uma madrugada feita de silêncios. O confronto das emoções é diário e compensador.

E você? Quais emoções te confrontam dentro do que escreve?

Mariana Gouveia
Scenarium Plural Editora

João Morgado

E se o céu fosse só isto…?

As nuvens dos teus lábios
O infindável azul da tua boca…
e eu feito ave louca
a sobrevoar-te num beijo
a embebedar-te de desejo
a morar no teu sorriso…
Ai, se o céu fosse só isto
e nada mais fosse preciso!

João Morgado
*imagem: Tumblr

Lunna Guedes · Scenarium Plural

chamada aberta | mask

E você, qual é a máscara que te veste?

Scenarium

Na batalha contra a sars-covid-19, o uso de máscaras se tornou uma das formas eficazes para evitar a contaminação. Fomos todos convidados para um baile a céu aberto… e nos tornamos os mascarados desse século.

Falar de máscaras como símbolo é bastante simbólico… muitas culturas fizeram e fazem uso desse elemento para resignificar a persona que somos. A máscara representa algo… para alguém, epode ser lida mais corretamente por pessoas de uma mesma cultura.
Aqui, no Brasil… a palavra máscara geralmente está associada a fantasia… ao carnaval. É um objeto cerimonial, típico das festas. Há pouco tempo, no entanto, estive nas ruas… escondendo-protegendo o rosto de manifestantes.
Os povos indígenas usavam em suas cerimônias, que simbolizavam animais, pássaros e insetos. Já os gregos antigos usavam em festas dionisíacas, regadas a dança, música, cantos, bebidas e orgias. E quando o ritual a Dionísio foi proibido — por ser considerado pagão…

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ahcravo · Els Vanospstal

O teu nome nas paredes a cal

Lembro o branco
sobre o branco
o sol a escrever o teu
nome nas paredes
a cal
nos lábios
a sede das palavras

bebia-te as sílabas
o silêncio enchia-se
de cores

o sol cresce sobre a noite
dos dias
em que já não morarás

todos os dias me deito
num colchão de palavras
e acordo
carregado de silêncio

ah cravo
*Imagem: Els Vanopstal

Mariana Gouveia

Ipê

O céu iluminou-se de sol que se misturou com o dourado da flor do ipê, que aqui, antecipou-se em florescer. Na minha memória, os ipês floresciam em agosto, e tem até trilha musical na voz de @andreeandradeoficial – meus ídolos da infância: “eu nasci no mês de agosto, no mês da flor do ipê. Os campos ficam floridos que dá gosto a gente vê…”
Mas, como no meu quintal cada coisa tem vida própria e até vontade, o ipê floriu e pintou meu quintal de amarelo. Embora, a alegria seja minha, Chiquinho faz a festa e promove aos meus olhos a dança de flor em flor. Dentro das sonoridades dos dias, o bater das asas, a poesia do momento me faz apenas louvar pelos instantes, que muitas vezes a máquina não registra, mas o coração perpetua.

Mariana Gouveia
No bico do beija-flor beija a flor.

Se desejar acompanhar essa série: No bico do beija-flor beija a flor, me siga lá no Instagram, que diariamente tem fotos de Chiquinho.

Diário das quatro estações · Mariana Gouveia · Scenarium Plural

Havia um jeito de ave no meu peito.

O voo cego. O pouso em qualquer canto.
A gaiola dentro das entranhas, prendendo a liberdade de respirar.
A falta não respeitando lembranças.
Objetos que são marcas que ela deixou.
O sentido da vida na posição morta.
O mapa sem rotas certas.
Apenas a falta.
Havia um jeito de ave no meu peito.
O voo cego. Sem ninho para pousar.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das quatro estações.
Scenarium Plural Editora

Mariana Gouveia

Resposta

 

 

eu me pergunto onde você anda
você lamenta as horas que são tantas
e o dia demora a passar
eu fico em silêncio, pensamento longe
você responde com olhar distante
quero segunda no meu amanhã.
quero a maçã
da música do Almir

quero você aqui.
Eu me pergunto onde estaria
quase fim do dia tomo um café
a melancia tão gelada, doce
fico pensando, antes que aqui fosse
o doce beijo desse seu beijar
cotidiano já virou rotina
você improvisar me chamando menina
e eu pensando em te abraçar
todos os dias eu quero a resposta
de perguntar ao meu coração
se ele te gosta
e ele diz que sempre vai te amar.

Eu me pergunto onde você anda
se pode vir aqui me encantar
a borboleta aparece de maneira santa,
beija a flor, me deixa tonta
e a resposta pronta
você pensa em mim, ela veio me contar

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Mariana Gouveia

o que me inspira?

Essa pergunta muitas vezes me leva por caminhos variados. Seriam muitas as coisas e os fatores que me inspiram. Ao escrever, a ideia principal do tema, às vezes foge e ganha outro rumo devido a inspiração do momento.

O meu quintal me inspira com as nuances que me entrega todos os dias. Além das cores, das árvores e plantas, os muros e a dimensão da terra são pontos chaves em minha inspiração. As aves em suas mais variadas espécies e as borboletas funcionam como um pincel onde minha memória busca no cotidiano extrair para palavras, o sentimento.

As ruas do meu lugar com suas personagens e histórias mil também são grandes influenciadores em minha escrita.

Assim como a noite com seus sons, silêncios, e solidão… Porém, de todas as palavras, gestos ou motivos a palavra Carta que embebeda e me leva sobre lugares, caminhos, encontros e paixões.

E você, o que te inspira a escrever?

Mariana Gouveia

6 on 6 · Mariana Gouveia

6 on 6 | calendário particular.

Nossa, você reparou que já estamos em Julho e que os seis primeiros meses viraram folhinhas arrancadas do calendário? Talvez você diria: Ainda bem! Mas, os dias voaram e em meu calendário particular os meses se desenharam em instantes que vou tentar mostrar aqui em fotos.

1Janeiro e o iluminar das lanternas chinesas.
Meu pé de lanternas chinesas brotou com as chuvas de janeiro e floresceu trazendo ao meu quintal o colorido das flores.

2- Fevereiro e a viagem ao mundo do circo.
Com alguns dias de folga viajei para uma cidade próxima – Tangará da Serra – para rever meu irmão, sobrinhos e cunhada que trabalham em um circo. A alegria de estar junto deles, a arte circense apresentada por eles e a viagem deliciosa tornou o mês bem especial.

3 – Março – os encontros que não couberam em uma foto só.
Como se adivinhasse o tempo que viria a ficar sem abraços, Março foi o mês dos encontros e reencontros, onde o amor foi firmado entre risos, colos e amizade.

4 – Abril – susto, vírus e pandemia.
Abril foi um devorador de paz. O mundo estava parado, o tempo era outro e por motivos pessoais, fui obrigada a viajar para meu estado de origem. Os dias em hospital, máscaras, noites sem dormir e a sensação de que estava vivendo em um livro de terror.

5 – Maio e suas nuances da quarentena.
Maio não coube em uma só fotos e teriam outras tantas diante dos momentos difíceis e o isolamento me fez mais dentro dos muros, a vasculhar o quintal e aspirar o vento, embora com o coração cheio de dor pelas vidas – já de quem amava, gostava e de pessoas próximas – fui lua, aves e flores, como uma forma de acreditar que tudo isso passará e novos dias virão.

6 – Junho e perdas e ganhos.
A vida brotou em toques, nascimentos e também de partidas duras. Junho foi presságio de comemoração, de lamento, de faltas e de aproximação. Ainda é tudo tão duvidoso e as palavras que ganham espaço aqui é lock down, isolamento social, números, voos, pousos, onde o aconchego do coração é o instante leve pela manhã. De meu lugar, vejo que aqui em minha cidade o medo impera, mas em alguns, a impressão é de que não existe pandemia.
Se puder, fique em casa e se tiver que sair, use máscara, lave bem as mãos e aspire o ar. A vida é tão fugaz que nem percebemos os dias que passam.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora
Participam desse projeto:
Alê Helga— Darlene Regina — Obdulio Nunes Ortega
Isabelle Brum — Lunna Guedes

Mariana Gouveia

As pequenas coisas

as pequenas coisas
Guardava as pequenas coisas como joias.
Tinha ali, na caixinha que ela mesma fizera um único pé de sapato de boneca, um botão da primeira camisa do filho.
uma mini mesa com cadeira e tudo.
Havia pequenas coisas espalhadas na casa.
Quadrinhos com ideogramas japoneses que tinha uma simbologia de paz, harmonia.
Eram pequenos, mas de uma imensidão sem tamanho.

Volto às miudezas.
Essas que sempre guardava na caixinha que ela mesma fizera.
Adora as micro-coisas. As pequenas coisas que via no caminho.
A florzinha miúda no canteiro e tinha de abaixar para ver melhor, de tão pequena que era.
E foi a flor pequena que a encantou.
Primeiro a cor que tomou proporção de magia.
Como algo tão pequeno continha a imensidão das cores.
Sublimes.
Depois falou de definição.
Não consigo me definir sem ela. Tão imensa em mim.
Agiganta-se em detalhes de sabor na minha vida.
Só é maior a saudade.

Mariana Gouveia