Elegia

Elegia


Há um vestígio mineral
na sua ausência: algo
que sem estar ainda
fica: fatia de cristal

que não se vê e brilha:
solidez em transparência
elegância de pedra, luz
do que é perda e não.

Há um vestígio musical
na sua ausência: algo
que é sigilo e ressonância:

sintonia de cristais
sílabas de sim no
silêncio do som e do aqui.


Maria Esther Maciel
*imagem: Tumblr

Sede…

jorge-ferrufino

aquela moça
tinha sede de infinitos
.
eu via
em seus olhos
.
uma sede sem fim!
.
uma sede
de oceanos

.
(Eduardo Ramos)
*imagem: Jorge Ferrufino

Delírio

Carrie Vielle - Tutt'Art@ (2)

No parque morno, um perfumista oculto
ordenha heliotrópios…
Deixa aberta a janela…

Minhas mãos sabem de cor o teu corpo,
e a alcova é morna…
Apaguemos a luz…

Não sentes na tua boca
um gosto de papoulas?…
 
Passa o lenço de seda de tuas mãos
sobre minha fronte,
e não me digas nada:
a febre está, baixinho, ao meu ouvido,

falando de ti…

João Guimarães Rosa

 

* Art: Carrie  Vielle

Era como escrever poemas na pele dela.

ivailo petrov (2)

Era como escrever poemas na pele dela.
Usar os dedos como tinta e amanhecer lilás depois da madrugada intensa.
Pintar devaneios entre a nuca e o cabelo.
Caçar a solidão que existe na menina daquele olhar.
Tatear a pele, esculpir vontades e ir decorando textos obscenos que ela diria se estivesse aqui.
Citaria Anaïs Nin, se não misturasse os poemas, ou apenas ficaria em silencio para ouvir a respiração.
Olhou a mesa com as coisas banais. A panela preta que era da mãe. Virou objeto de decoração, ali, no mesmo lugar onde a amou. A bandeja com os medicamentos que toma. Isso a fez lembrar que era dia – hoje – de ir buscar mais.
O pacote de pão.
Riu ao se lembrar do pão e do quanto isso foi motivo de discussão entre as duas. – Vocês não tem pão. ela dizia – e aquilo gerava uma longa conversa entre o pão daqui e o pão de lá.
Tudo isso ocupa agora lugar na mesa.
Veio a vontade absurda de jogar tudo fora. Fazer aquelas cenas de filme.
Conteve-se.
Voltou a desenhar rotinas no corpo dela. Sabia de cor os caminhos todos. A textura, o convite da boca. O olho de fome e essas vontades todas.
Era como escrever poemas na pele dela. Era apenas a cadeira na solidão vazia.
E no silêncio de minhas palavras ela quis ir.

Mariana Gouveia
*imagem: Ivailo Petrov

Amor…

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.

se me chamas de amor
se me deixas te amar
eu caminho contigo nas nuvens
roubo manhãs encantadas,
roubo noite estreladas
faço florir as estradas
para nossos caminhos enfeitar.
Amor…
se me chamas de amor…
caminharemos juntinhos nas nuvens…

La Nina
*imagem: Tami Bone

no teu ombro de afrodite

yarek godfrey

Abri as janelas

que havia dentro de ti

e entrei abandonado

nos teus braços generosos.

Senti dentro de mim

o tempo a criar silêncio

para te beber altiva e plena.

Mil vezes

repeti teu nome,

mil vezes,

de forma aveludada

e era a chave

que se expunha

e fecundava dentro de mim.

Já não se sonha,

deixei de sonhar,

o sonho é poeira dos tempos

é a voz da extensão

é a voz da pureza

que dardejava na nossa doçura.

Quando abri as tuas janelas

e despi teus braços

perdi a vaidade

e a pressa,

amei a partida

e em silêncio abri,

(sem saber que abria)

uma noite húmida

em combustão secreta

desmaiado no teu ombro

de afrodite.

Carlos Melo Santos

 *Art: yarek godfrey