Ensaios sobre envelopes rosa e coração

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“Uma voz falou vindo de não sei onde, perto do meu coração”
José Mauro de Vasconcelos

Querida T

Desde manhã eu recorro aos envelopes rosa com corações espalhados e às figurinhas do Amar é…, que permeou minha infância/adolescência para falar de você.
Na verdade, derramo carinho aqui e te escrever tornou-se essencial.

Me olho no espelho com seus olhos, através do que escreve e seu olhar me encanta.
A maneira carinhosa como me enxerga e a sensibilidade com que me abraça me faz pensar nos ensinamentos que tive. Tudo que enxerga através de mim, é seu reflexo no espelho e é radiante a cena que vejo agora. O coração generoso e a alma sensível vão de encontro ao que sinto por você.

Eu poderia desenhar sua alma em retratos, mas o que vejo é só coração. Sabe quando você sente que já conhece a pessoa desde sempre e que embora nunca a tenha visto, sabe que já viu e que já esteve em vários momentos do lado dela e segurou sua mão? Sinto assim com você. É como se já te conhecesse de antes, de sempre e quando abro algo seu para ler uma essência de amor me preenche e capto seu cheiro, como se já tivesse sentido.
Pode parecer estranho, mas é assim que sinto.

Enquanto com outras pessoas a presença grita ou silencia e palavras reverbera em mim, com você é diferente. Uma ternura infinita me abraça. O silêncio com você é aspirador de ar. Mostra o que há de bom em mim. Uma aura de irmandade me envolve quando penso em você. Nessa hora, seu colo – nos seus espaços – é o que me recompõe em alguns momentos. E essa sensação me faz confirmar que já vivi isso antes.

Hoje, em busca de qual envelope te escreveria e como tatearia seu espaço e assim chegar ao seu coração, descobri que a palavra era essa – coração – tão imenso e generoso que cabe meu mundo dentro dele. Um mundo que crio pra você e pegando em sua mão te mostro aos poucos. Às vezes, em silêncio, outras, num grito exagerado e na maioria das vezes, apenas te olhando através desse espelho que me vê.

Não tenho palavras para agradecer sua presença, sua generosidade, sua essência em minha vida e esse coração que me envolve no mais repleto carinho. Apenas te reverencio e te coloco no retrato da alma, onde meu coração te abraça.

Beijos,

Mariana Gouveia

Carta em Vermelhos Tons

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Bambina mia

“Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café”
Lunna Guedes

 
A tarde surge com prenúncio de mais um temporal e pensei em você. Os Vermelhos Tons me traz uma certa nostalgia.
Caminho com você pelas estações e cruzo as calçadas contigo.
Em silêncio. Gritante, às vezes, como uma menina travessa que solta da mão do responsável e corre adiante, pela rua.
Vou aos poucos descobrindo lugares, visitando seus caminhos antigos e posso até detalhar os matos que crescem nos fios desgastados das calçadas.
Os tons de cinza das ruas me atinge. Mas, sinto paz aqui, quase uma redenção para uma alma em burburinho nos últimos dias.
Dentro de uma sexta-feira a promessa se cumpre e aqui estou eu, sendo apresentada ao espelho de seus tons rubros, com toda paixão que a cor causa em mim.
Tropeço na possibilidade de ser. De poemar Cecília para você rir. Sim! Imagino você rindo com meu jeito moleca – dizem sempre que sou assim – moleca.
Atravessar as ruas e saborear no ar o cheiro delas, os aromas das suas feiras e a cor dos tomates que escolhe para o molho, que já antevejo, e posso sentir o gosto na boca.
E no fim do passeio, bambina, abro o pacote de vento que trouxe. Desses que levanta as saias, assanha os cabelos e faz arrancar risos. Te convido para abrir os braços e saborear a dança do vento.
É aqui, nesse cenário inventado que visito o seu. Que abraça a minha alma e me acolhe como uma flor acolhe a borboleta.
Encerro essa carta com as suas palavras em Junho, para seu menino amor.
Lá onde os lilases de Junho floreiam amor e foi onde te descobri. Quase como gestar de novo essa amizade que em mim, floresce sempre como se fosse desde sempre.O cheiro do chá me convida para mais uma lembrança e ainda bem que não perdemos o hábito de escrever missivas.

Bacio
Mariana Gouveia

Às vezes, quando fecho meus olhos…

Às vezes, quando fecho meus olhos...

vejo o seu contorno,
feito tatuagem que a pele guarda por uma vida inteira…
te guardei pra mim, num lugar seguro – a minha memória – onde posso tocá-lo sempre que a sua ausência for mais que um segundo inteiro!

- Lunna Guedes, in: ” era uma vez outono”

Eterna

eterna
nas manhãs nubladas
nas tardes ensolaradas
Nas noites de inverno
te faço eterna

Te invento nas primaveras tardias
nas flores que havia
nos outonos loucos
que não foram poucos…

Te invento nos verões noturnos
pra você existir
te invento pra mim

por toda eternidade
em felicidade,
te invento
e tento…

te planto um jardim
Te invento em mim…

Eu te invento nas noites de lua
e daí, sou tua

te invento na mão
e no coração

um lugar pra pousar tua asa
e nesse dia de alegria
te invento poesia e a gente casa…

Mariana Gouveia