49. das palavras das cartas

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Para te escrever eu cumpro um ritual de todo ano, nesse dia.
Eu ajeito as lembranças uma a uma e vou celebrando você na minha vida.
Poderia dizer que é a minha inspiração desde sempre. Lembro-me de que guardava seus cadernos de poesia e desejava muito ter sido eu quem tivesse escrito.
Rastreio na memória você ainda menina – com seu uniforme de normalista – a surgir na estradinha da fazenda nas sextas- feiras e a curiosidade não me permitia dormir para ouvir suas histórias da escola.
Depois, viajo mais adiante quando você se casou e foi viver sua vida. As minhas férias, a partir daí foram com você e seu jipee verde, a vasculhar seus batons com gosto de uva, a experimentar suas roupas e calçados.
O melhor presente foi os meninos… Com eles, aprendi o amor incondicional de tia e a acolher seu olhar de mãe.
A vida foi dura com você… mas ao mesmo tempo foi generosa quando te deu as meninas.
Te vi corajosa diante da perda. Gigante diante da dor… e frágil diante das netas.
Te vejo menina diante da vida, magnânima cuidando do pai e tão generosa com aqueles que te cercam.
Para mim, você será sempre a minha Mia… aquela menina de uniforme, com meia 3/4 e sapatos de verniz.
Uma guerreira que chora mas que todo dia levanta movida pela fé.
Uma artista sem igual, com a magia nas mãos a criar arte em forma de carinho.
A vida nos levou para longe uma da outra, mas estou mais perto do que imagina. Dentro dos dias na poesia que você retrata quando cria, no jeito corajoso ou medroso – de enfrentar a vida.
Na última vez que nos vimos você me levou pelas ruas do seu lugar para conhecer os ipês que douravam a cidade. Essa foto é uma das muitas que encantei de ver sob seu olhar.
Ser sua irmã me torna melhor.
Hoje, te desejo amor além da medida e toda felicidade que alguém pode ter.
Agradeço a maneira como cuida do nosso pai. Te amo muito mais por isso.
Que tudo de bom te aconteça sempre!

Beijo

Te amo

Mariana Gouveia
49. das palavras das cartas
PS: quem quiser conhecer o trabalho dela clica aqui:
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48. das palavras das cartas

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Os corredores me estranham entre suas paredes cruas. O cheiro de mofo a invadir o quintal. O grafite no muro a demarcar limites.
O som da moça de azul a rabiscar em uma prancheta os procedimentos.
Os olhares a observam como se com isso o relógio pudesse acelerar o tempo. Ela repete o mesmo ritual das gotas…A agulha a buscar a veia e o sono que teima em vir…
As dores rasgam a alma e o muro a delimitar vontades. O frio a entrar pelas cortinas escuras… o vazio da parede e o muro…
O grafite a relembrar histórias.
Alguém chama um nome dentro da noite… as paredes cruas a presenciar a dor. As cartas sendo escritas mentalmente e a caneta a contornar o papel. E os corredores me estranham entre as paredes cruas.

Mariana Gouveia
48. das palavras das cartas

47. das palavras das cartas

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Vim aqui dizer que aprendi a absorver as flores do campo e que durante a noite, quando o silêncio grita dentro de mim e a vontade de voltar atrás e abrir a porta que eu mesma fechei é maior do que a saudade, eu volto para um campo imaginário.

É lá que grito seu nome infinita vezes e choro.

Às vezes, ouça uma música lá fora. O homem da reciclagem canta uma canção de amor rua afora… faço comparação entre a voz dele e a sua. Acha que posso confundir?

Busco o baú de lembranças e está lá o sol, a lua e as três graças do poema torto, dos deuses mitológicos que a história nos contou.

Há também na caixinha ao lado meus comprimidos coloridos que parecem bijuterias – tiram as dores,aliviam a alma – fazem com que eu te conte as histórias que não viveremos, levam meus braços aos ventos como se fossem abraços.

Aprendi a olhar a noite como se fosse um campo de flores e lá no fim da paisagem, você, dentro do meu amor.

Mariana Gouveia
47. das palavras das cartas

46. das palavras das cartas

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Hoje choveu de verdade aqui. Daquelas chuvas que duram o dia inteiro e as ipomeias azuis beberam da água que caíam.

Fiquei a desenhar a cor dentro do seu nome enquanto as luzes sobre a cidade ofuscam entre os pingos das janelas embaçadas.

O vento cruza o espaço da casa e as flores do mamão forra uma parte do quintal.

Troco a solidão pela canção de Gadu. Ensaio mais uma vez as palavras da carta que escrevo.

Apago várias vezes algumas frases que reedito, reescrevo e desenho corações na janela.

A previsão do tempo assusta, já que o rio que corta a cidade avança próximo das casas ribeirinhas. O tempo lá fora não permite que eu veja a lua e a solidão grita dentro da noite.

 

Mariana Gouveia
46. das palavras das cartas

O grito…

o-grito
ecoou na noite embateu contra a parede quebrou o silêncio, sem perdão O homem, enlouquecido, vira-se de costas para não ver o vazio deixado Para evitar o murro na parede do quarto perdido, despojado. Inutilmente, fica na penumbra, à espera do que sabe não ter retorno.

Lia Branco
*Fotografia: Fidalgo Pedrosa

45. das palavras das cartas

Querida Luci,
Hoje eu vim responder seu puxado de assunto sobre árvores.
Aqui choveu o dia inteiro… aliás, desde ontem chove e o rio que corta minha cidade ao meio está a ponto de esparramar água ruas afora. São quase doze horas de chuva ininterrupta.
As árvores do meu lugar fazem festa… tem até pé de manga dando flor. Da porta da sala onde trabalho vejo as manguinhas se formando. São temporãs, eu sei…Mas essa água benta que cai favorece algumas a se manter em pé, florir, dar frutos e outras até cair, Luci.
Nos meus arredores não caiu nenhuma… mas foram derrubadas. – e isso é pior do que cair porque já cumpriu sua missão de árvore –

Aqui, derrubaram em nome de um progresso que nem veio. Falaram que iam construir o VLT, Luci e levaram centenas dos meus ipês que coloriam as ruas com suas cores para o lixo. 
As ruas hoje, estão peladas de árvores. E não há também o tal vlt.
Mas ainda há alguns lugares onde elas exalam a singeleza pura da natureza. 
Ali, eu me faço descalça e peço a permissão para o abraço. 
Há o ipê rosa, o branco e o amarelo dourado… além do roxinho do araçá e a magnitude dos flamboyants.
Não sei se o tempo de uma figueira para renascer de novo. Sei que o cedro demora anos. Lembro até a canção que meu pai cantava quando ia campear o gado. 
As árvores cumprem uma missão, Luci…A sua também teve. E assim, vamos seguindo catando sombras que tão gentilmente nos dão. As flores e algumas, a cura em forma de folhas e raízes.
Todos os dias, quando o ônibus me leva rumo a mais um dia de trabalho, eu ainda busco as que existiam por aqui. E faço como você, olho para o canto e as vejo – ou imagino – e ali, acato o céu em seu rumor de asas e sigo.

Dia após dia.

Beijo, Luci

Mariana Gouveia
45. das palavras das cartas