Que tempos são esses que estamos vivendo?

Amélia Fletcher 1

Tempos que me tiram de ti,
Nos quais tento vislumbrar no fundo do binóculo,
Nas lentes das minhas expectativas,
Algo de novo, algo de bom…
Alguma coisa de nosso que parece distante.
Mas,tem tempo e espaço demais entre nós!
Talvez use um telescópio…
Talvez observando o espaço eu descubra
Que os anos-luz serão nossos…

Sibila De Andrade
*fotografia: Amanda Fletcher

Não sou capaz de estranhas paixões…

e amo, como muitos, o vento forte
que agita a roupa estendida nas cordas,
as bicicletas ferrugentas
de pneus furados
esquecidas em garagens e arrecadações,
a água fresca que mata a sede
ao mais miserável dos homens.
Mas se, como outros, amo os dias de intensa luz
e o descuido dos pássaros no ar,
ninguém ama como eu
as estrias do teu ventre,
a primeira casa de dois filhos.
de todas as coisas prodigiosas que conheço
são elas o que mais se parece
com os rasgos abertos por um arado
na terra crua deste mundo.

Luís Filipe Parrado
*imagem: Marta Orlowska

Três poemas de Mariana Gouveia

Três poemas meus na Scenarium Plural!

[o lado de dentro]

Havia qualquer coisa de Santa,
mas havia, também,
qualquer coisa de louca
não sei se o jeito de olhar.
O atrever-se com as mãos
ou o recato do decote, tão íntimo.
Havia qualquer coisa de tímida,
mas, também havia
qualquer coisa de exibicionista.
Não sei se o riso solto
ou a voz quase rindo, quase suspiro.
Havia qualquer coisa de pecado,
de sagrado também…
e profanava em mim
nas mãos que
me descobria a alma


[ és ]

A asa secreta do meu voo
o pouso que aconchega minha alma
A calma que contorna minha paz.
A solidão que acompanha meu espaço.
És.

Não sei se é ninho
se é vento — miragem nos olhos
que te alcança.
És

Corpo que habita a essência
e a esperança livre das manhãs.
Junto de ti, o espaço infinito de voar.


[urgências]

A solidão vagueia em meu silêncio
e…

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Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinicius de Moraes
*imagem: Michael Färber