Havia resquicios da tarde na manhã.

Havia resquicios da tarde na manhã.

O rio acolhe a teia como colo.
A vida acontece ali, onde o olho alcança.
O traçado traz lembranças vividas
e ocorre o pensamento da saudade.
Calculo as horas que faltam.
Logo ali, na curva, mora o horizonte de esperança e é para lá que vou.

Mariana Gouveia

E a solidão vagueia seu nome

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Os corredores mudam na passagem do sol.
Há flores de plástico penduradas no acaso.
Um pássaro bebe da flor.
Os bancos vazios antecipa esperas.
O número indica a senha de estar.
A luz vermelha pisca. Passos apressados para o elevador.
Havia poesia para a solidão do nada.
Ela gosta do que lê de outra pessoa enquanto vasculho a insônia diária.
A dor que dói por dentro é pior que a dor física.
Há rumos perdidos no nada.

E a solidão vagueia seu nome.

Nunca me senti tão só.

Mariana Gouveia

A imaginação flutua:

A imaginação flutua

uma garça no vento-superfície,
pétala do rio.
A imaginação sem peso
busca penetrar a palavra rocha
com suas porosidades blindadas.
É preciso mirá-la multifacetada
com seus brilhos e odores possíveis.
Conquistá-la é que demora
no empenho natural do poeta.
Escutar, auscultar, tentar
uma invasão aos poucos permitida
(tua entrega relutante, doce amada).
Talvez ela se abra, talvez não.
Mas, vivê-la é uma aventura,
adorada sensação.

Charlie Schalk

Colhe-se leveza nos caminhos percorridos.

Colhe-se leveza nos caminhos percorridos.
Uma brancura se estende e o infinito é logo ali.
Me surpreende a vida do lugar. A maciez do toque, as cores misturadas e um horizonte todo para percorrer.
Onde o olho alcança há colheita ou plantação.
O dia ao nascer reserva sementes para logo se tornar frutos e os frutos, logo serão matéria-prima de algo para se construir.
E assim, construo pontes rumo à minha história.

Mariana Gouveia
*Campo de algodão depois da colheita – Interior de Mato Grosso

Sob o signo da borboleta

sob o signo da borboleta

A neblina avisa os rumores do dia. Há estações de flores no quintal da vizinha.
No horóscopo o signo oscila entre o voar e o pouso.
Sente falta da flor. Busca abrigo de pele nas lembranças. Sofre influência sob o signo da borboleta. A lua em Sagitário possibilita essa viagem vazia. O acúmulo de emoções me entorpece.
Rabisca os mapas que sempre me leva de encontro a ela. Saqueia todas as vontades do peito. Hoje, o sol, pareceu a lua pela manhã. Cantos matinais parecem mantras. Repete a canção e repete.
Faz chover sobre o jardim criado. O cheiro das folhas do tomateiro se banham de fragrância.
De novo, quase sofro uma recaida. Retomo as vontades da sede. Esvazio a saudade nas lembranças.
Pego a roupa esquecida e falo com ela como se estivesse aqui.
E está. Dentro. De mim.

Mariana Gouveia

Nascimento

Nascimento

Vi a vida nascer do lado da cerca. Era uma explosão de amor nos olhos de quem paria.
Lembrei de quantas vidas vi nascer assim, ao pé dos olhos.
Bicho de asa, de voo, de bico, bicho que ama.
Era quase uma magia pura ver nascer as coisas.
A flor que brota, o milho plantado. O bebê esperado.
Vi a graça de um sol que nascia. A lua que surge enchendo o céu com sua beleza.
Sou uma parteira de nascimento. De pegar na mão e chorar pela dom da vida de quem nasce. Seja gente, seja bicho, seja planta. Tudo que nasce me toca.
Nesse instante, Deus me faz carinho na alma.

Mariana Gouveia