18. dos rituais das chuvas

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O céu mudava as suas cores. Abraçava a rajada de vento que levantava a saia dela e mudava o ritmo do dia.
A chuva chegava com o som dos trovões na frente e a tarde corria mansa dentro do verbo estar.

Podia sentir a água acariciar a mão com o pacto da liquidez.

O instante se tornando único dentro de outros. O olhar acompanhava o vai e vem das gotas. O tecido fino da cortina a dançar canções que a magia da chuva trazia, enquanto o pássaro de todo dia entoava seu canto. A luz quase repetindo refrão da canção cantada e a solidão dos mitos vazios.
Mariana Gouveia
18. dos Rituais das chuvas

 

signos de bem-querer.

signos-de-bem-querer

Divirto-me em teus olhos com signos de bem-querer.
Estou insensato deste amor que é teu.
Assumo todas as formas e brinco de sempre.
Os verbos dos dias estão em delírio. Acho que bebi todos os sonhos.

Dan Cezar
*imagem: Mira Nedyalkova

17. dos rituais da noite

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Conhecia os barulhos da noite e seus silêncios também.
Ouvia os pássaros noturnos como presságios de insônia.
A noite tão curta dentro das horas.
As horas tão longas dentro da noite.
Sabia das rotinas do relógio… o tic tac inconstante fora dos minutos.
O ocaso dourando o céu como se pintura fosse. A arte expressa no que os meus olhos veem…
Conhecia os gestos, o barulho da TV
em algum lugar perto.
Conhecia o caminho das horas até o amanhecer.

Mariana Gouveia
17. dos Rituais da noite

16. dos rituais das cartas

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Escreveu quatro cartas para endereços diferentes. Falava do passado, presente e futuro. Desenhou estradas que talvez nunca passaria. Retratou a cidade com seus cheiros, suas calçadas floridas pelos ipês de várias cores.

Tentou passar o perfume das ruas através das frases.

Imaginou o riso e a emoção de cada um ao abrir o envelope colorido. Contou das nuvens e as manhãs de verão.

Explicou os sonhos, detalhou a esperança e cumpriu o rito da promessa.

Falou da menina que recusou o livro por desconfiança – afinal, o mundo anda estranho – e perdeu a vontade de oferecer de novo.

Escrever não precisa de explicações.

Beijou um a um os acontecimentos e fechou o envelope.
Mariana Gouveia
16. dos Rituais das Cartas

enquanto a noite não chega

enquanto-a-noite-nao-chega
.
não quero teus olhos
boquiabertos
tentando me engolir

prefiro que beijes meu sorriso
e te invadas
com o que meu sexo te oferece

(enquanto dou-me
antecipada
ao teu cheiro em mim)

Lourença Lou
*imagem: Tommy Cavalera

15. dos rituais das partidas

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Costura a morte na calçada em pontos miúdos. A vida é essa eterna troca de lugares. Cabia vontade nas decisões das coisas. Um coração marcava a luta de quem sofria. Era apenas a simbologia do toque.
Sabia que podia ser diferente e ainda assim, amada. O sol dourava a cortina das folhas. Tudo era branco no olho de quem chora. O riso do moço nunca mais será visto. Mas esteja onde estiver, ainda que diferente, rirá. – disso eu tenho certeza –
Ele compreendia a certeza do sorriso e cabia em motivos do abraço.
Carregava a vitória no nome e venceu a vida.

Mariana Gouveia
15. dos rituais das partidas