228. das impressões do dia seguinte

 

Vi o coração rabiscado no muro. Desenhei um na folha de papel para o menino que eu achava que fazia anos.
A flor cabia na docilidade do dia. Na vitrine uma floresta falsa com sonhos de mentira.

A torre da cidade-luz exposta como se fosse logo ali, o ponto para a passagem. L’a hamorny no salão da Esquina – tudo isso tinha coração em cada coisa – até a flor imitava no jardim. A semente do amor-agarradinho se derreteu pela asa com amor em dobro. Deixava a vida de cabeça para baixo esse tal de amor. Cabia saudade em cada grito. A alma responde em ecos onde nem o coração escuta.
Tem dia que o coração se desfaz feito reflexo de lua na piscina quando a luz se apaga.
Mariana Gouveia
228. das impressões do dia seguinte

227. das impressões do dia seguinte

Visitava a sala
depois de olhar cada canto
aposento abandonado pela saudade
precisava aspirar ela no quintal.

Olhou céu
o dia coloria as flores
dentro dela
germinava asas
pariu borboleta
em um idioma que não era o seu.

De noite, a situação era de sonho
o céu gemia dentro dela e as estrelas
agitava seu interior
calma aparente de quem ama.

depois que amanhece
asa feita

retrato na parede
e ali, todo dia,
quando ainda era madrugada
fazia reza pra ela
Ave, borboleta!

Mariana Gouveia
227. das impressões do dia seguinte

226. das impressões do dia seguinte

 

A história foi gravada em fita cassete. Usou a palavra vintage para relembrar o sentido das coisas.
Estava tudo em conserto e o painel em obras piscava sem neon.
Tomei nota mental de como tudo era antes, ali.
O filtro dos ventos ainda era o mesmo – feito de tsurus e origamis – e balançava como se dançasse.
Depois da chuva – que a meteorologia acertou dessa vez – o sol abraçou a rotina das manhãs, venceu a neblina que se aconchegava aos prédios e o vento noroeste amenizou o ar seco.
A metamorfose acontecia no meu quintal. Criava asas, a borboleta esvoaçante.
A mudança do corredor não muda a cor das paredes… O estuque mostra as várias etapas do contorno de algo que simulava cor.
A metamorfose acontecia em mim. É preciso seguir em frente depois do ciclo se encerrar após os séculos e ficou ali, gravada em fita cassete a história do amor que fez voar.

Mariana Gouveia
226. das impressões do dia seguinte

225. das impressões do dia seguinte

Ao meu pai,

Pai, colho impressões do dia seguinte e mais uma vez escrevo essa carta para ganhar seu colo dentro das palavras.
O instante é tão ligeiro e volto lá na minha infância.

Não sei se  vida se restringe ao que se pode tocar – e nessa hora busco a palavra abraço.- o longe não afeta o que é tátil para respirar. Fecho os olhos e posso te tocar, embora a gente seja mais de ler, ouvir no rádio a canção que mais nos toca.

Hoje você é muito mais silêncio que se acomoda em um vão onde ninguém alcança. Talvez você viaje pelos campos a sentir o orvalho. Ou junto com sua fé, o verbo seja confiar.

Lembro-me dos meus medos alados e ganhei a delicadeza de asas quando você me jogava para cima e com sua coragem, fui vencendo o infinito e ganhei sede de viver…  a vida é simples assim e hoje, pai, no seu dia, eu relembro os anos todos de você sendo pai.
Hoje, é quase um menino de riso brando. É mais afeto. De natureza indomável. De mata. E o  que é da mata é ser livre. Nem mesmo uma cadeira de rodas consegue prender, porque a gente voa…
Te amo!

Feliz dia dos Pais!

Mariana Gouveia
225. das impressões do dia seguinte

224. das impressões do dia seguinte

224. das impressões do dia seguinte.

Calculava a rota dos meteoros.
o céu é imenso dentro da noite escura enquanto o vento inventava floreios na cortina.

Os barulhos da noite trazem o canto dos grilos na varanda. A vida é esse reprisar de ciclos.
O tempo todo, o eco lá fora e no céu, a chuva de estrelas cadentes – tão rápido e fugaz – desenhando dourado no céu.
As fotografias rasgadas e espalhadas no vento. O pedido feito de última hora. A previsão do tempo promete chuva amanhã.
Aprendi a contar o tique taque do relógio e acordo antes que o despertador toque e a descobri sabores de mar no rio.
Não há por onde escapar quando os ventos chegam em todos os portais. É necessário coragem para voar.
Mariana Gouveia
224. das impressões do dia seguinte

 

 

223. das impressões do dia seguinte

Contei a história para menina de agora.
O bordado desenhou uma noite de estrelas. O céu tinha uma nuvem laranja. Alguém falou do fogo a invadir o cerrado. A meteorologia não teve previsão de chuvas, a não ser de meteoros. Um avião quase atravessou a lua.

O céu, em infinitas vezes faz seu show de imagens – uma ave, o voo – a nuvem formando desenhos que me lembram a infância…
A mulher de coragem enfrentou a dor. Inventou risos entre a palavra Posso e Consigo. Usou a palavra Força quando bebeu água com os comprimidos. Esperou a noite cair mansamente.
Tem noite que parece criada dentro de um livro de história. Tem noite que o dia não é para qualquer um… só para quem é guerreira.
Mariana Gouveia
223. das impressões do dia seguinte

222. das impressões do dia seguinte

222. das impressões do dia seguinte.

I

Havia papéis rasgados
Corações que alguém descolou

– o lado certo virado para o negrume da noite –

O avesso.

II
Junto ao chão
A poeira dos dias

– o vento a rastejar enquanto deseja voo –

O espaço.

III
Era apenas a palavra poesia
Que findou.

– outro dia seria assim, se desejasse –

Não quis.

Mariana Gouveia
222. das impressões do dia seguinte