83. da estação das águas

As chuvas iam diminuindo a medida que a estação caminhava. Era uma preparação da natureza para o equilíbrio das coisas.

O sol demorava mais tempo no dia e às vezes, nem chovia.

O chão molhado enfeitava a singeleza do capim… O cogumelo era o adorno que a vida oferecia. Parecia o sorvete decorado que a gente via na propaganda da Revista e a gente comparava com o sabor do bolo de coco que a mãe fazia para o chá da tarde.

“Cuidado com as vontades tolas – a mãe dizia, ou mesmo a bá – elas podem envenenar o corpo ou a alma..”

Aprendi a reconhecer aos poucos os venenosos e me recordava sempre da frase repetida infinitas vezes – o que cura também pode matar – e isso me livrou de algumas enrascadas…

Aconteceu de uma vez cortar o pé em um pedaço de vidro jogado contra uma árvore por um dos irmãos. O corte imenso foi estancado, limpo e nele foi colocado o pó do cogumelo colhido logo além do quintal… No dia seguinte, já não havia resquícios de dores, nem de infecção.

Mas a lição ficara para a vida toda sobre o poder da cura e de como a natureza nos envolvia dentro de sua oferta.

Mariana Gouveia

83. da estação das águas

 

82. da estação das águas

82. da estação das águas.JPG

O rádio era nosso elo com o mundo lá fora. Ele nos trazia notícias, diversão, conhecimento e informações. Foi ali, a beira da cantoneira que amparava ele – objeto venerado por pai, mãe e todos nós – que me apaixonei por ele e qualquer coisa na mão funcionava como microfone para uma narração em tempo real do que acontecia ao redor. Fazia a previsão do tempo e em tom de brincadeira narrava a chuva que caia do lado direito enquanto do esquerdo um arco-íris fazia aliança com o céu e o rio.

Minha mãe gostava da rádio novela e os personagens se desenhavam em nossas imaginações. O direito de Nascer marcou presença nessa época. Maria Helena, Albertinho Limonta e a história dramática era acompanhada diariamente.

O rádio nos trazia a magia para dentro da cozinha e nos jargões de cada locutor e sua programação…

” Oiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, geeeeente!!!”

“Acorda, Dona Maria!”

“Banheeeeira!”

Desde o futebol ao riso… do horóscopo à piada…Das canções do Roberto ao programa de correspondência para onde mandávamos nossas cartas e ganhamos amigos para a vida toda.

Esperar as cartas era a mesma coisa que esperar que o locutor falasse nossos nomes e tocava a canção que pedíamos. Um olhava para o outro e ria como se aquele momento tivesse eternizado dentro do mundo… e estava.

Para nós, o mundo cabia num Semp autêntico   ou se em momentos de chuvas mais fortes, o velho Motor Rádio que pegava até pensamento. Com isso, aprendi o ZYK 963… e ali jurei que um dia caberia dentro das ondas Médias do rádio e coube… Mas isso é uma outra história…

Mariana Gouveia

82. da estação das águas

Quero

Fabrizia Milia 2*imagem: Fabrizia Milia

eu quero a tua boca perfeita

quero cama feita

debaixo dos lençóis

.

nós

Quero a transparência que adivinha

tua mão na minha

.

e a voz

a deliciar palavras e gemidos,

bem ao pé do ouvido

.

desejo no olhar

O amor entre o macio da cama

diga que me ama

.

deixa eu delirar…

no macio do sussurrar, no toque

mesmo que eu provoque

.

como se fosse meu doce

como se você fosse

.

deixa eu te provar

e pra repetir o instante lindo

quero dizer que amo até não sei

com isso não sei se senti dor

nem se falei de amor

.

só sei que eu te amei…

Mariana Gouveia

81. da estação das águas


Minha mãe adorava fotonovelas. Ficava horas a ler e a explicar o que significava as histórias de amor… Lembro – me que a atriz principal era Claudia Ravelli – italiana – e seu par romântico Franco Gaspari…

Minha história preferida era de uma órfã que trabalhava de vender melancia na beira da estrada para sustentar os irmãos menores e a avó.

Ali, na beira da estrada, ela conheceu o amor de sua vida, um príncipe rico… Da história, o que ficou na memória foi a melancia cortada aos cubinhos para as pessoas experimentarem. O amor aconteceu em um dia chuvoso…

Minha mãe aproveitava os dias de chuva para dar ênfase no tempo – chovia forte como agora – e dentro da leitura vinha junto relatos de sabedoria, respeito e amor.

Quando aprendi a ler, descobri que grande parte do que me lembrava das histórias lidas não era igual ao que eu lia. Só depois compreendi que na verdade, minha mãe usava apenas as imagens para ilustrar o que ela nos queria passar.

A fruta era apenas o pretexto de nos falar de como a natureza era generosa com aqueles que plantavam – e sobre a liberdade de plantar e a obrigação de colher – e de como a sorte podia morar em um dia chuvoso.

Ainda guardei por um tempo as fotonovelas. Perdi a maioria emprestando para amigas. Outras, nas mudanças perderam – se em caixas que molharam em dias de chuva, por causa de goteiras. 

As histórias que minha mãe lia ficaram gravadas em mim. Poderia descrever cada frase, cada ensinamento e de como ela nos ensinou o amor.

Mariana Gouveia

81. da estação das águas

Ave, flor!

Ave, flor.jpg
Desenha em todo lugar
lembranças que ela deixou.
Um farelo de pão sobre a mesa serve para criar corações nas rotinas.
Uma linha que o pano de chão deixou, traz a inicial dela.
escreve ela em todo lugar.
Desenha corações nos muros.
Escreve o nome dela nas janelas dos ônibus
por onde vai a leva, dentro, fora, além.
Vê a vida com os olhos dela.
Vê ela dentro dos olhos
e ri quando imagina fantasias que ela
diria,
teria.
Vontades surgem e o respirar é ela.
Dentro, funda. Imensa. Aqui.
Coleciono pétala no olhar. Invoco o nome dela como prece.
Bem a quero. Eu bem quis.
Ave,flor!

Mariana Gouveia
*imagem: Marta Orlowska

80. da estação das águas

Frutas.jpgTeve um dia desse tempo que não choveu. Tiramos os paletós de flanela para ensolarar e fomos todos ver as margens do rio por onde a enchente passou.
O cerrado apresentava-se em festa e estava em plena gestação de frutos. O murici carregadinho e as cores eram das mais variadas. O pé de mangaba quase beijava o chão. Enchíamos as nossas cestas enquanto meu pai repetia da generosidade da natureza, erguendo o chapéu para nos lembrar que a natureza era Deus.

O cheiro chamava a atenção das abelhas e o cajuzinho do cerrado, apesar de ser mais azedo era muito bom para o suco. A marmelada nos lembrava a música do Sítio do Pica Pau Amarelo e entoávamos a canção enquanto descobríamos uma planta nova que nascia.
No banhado, as araras faziam a algazarra de quem estava há um tempo longo sem bater as asas. Era tempo de sol e dia de catar os frutos enquanto a gente podia.
A colheita no fim do dia era imensa e dali saía doces em compotas que minha mãe fazia tão bem para adoçar as nossas vidas.

Mariana Gouveia
80. da estação das águas