Oceânica

OceânicaEla de terra firme
conservadora
Eu, de devaneios
lunática, aérea
Conta-me coisas de oceano.
Eu, recebo coisas do mar e mergulho entre corais,
estrelas e ouço as ondas que vieram pelo ar,
em conchas que traduzem para mim, a voz do Índico.
Ali, no meu quintal, o mar bradou silêncio. Calou maresia. Sufocou grito.
Lá no céu dela, a vida passeia no azul em asas.
Eu, tão lá e ela tão aqui.
Eu tão dentro dela e um oceano imenso de possibilidades.

Ela, mistura de ansiedade, contraditória.
Eu, infinitos delírios, às vezes.

Mariana Gouveia

Das cartas que não foram entregues

is life 068-1Bambina mia,

Eu escrevi uma carta. Nela tinha corações e florzinhas miúdas. Era quase um poema.

Peguei essência do meu jardim e biografei ali o que sentia.

Descrevi no papel, com minha letra quase treinada em caderno de caligrafias, meu dia.

Falei de como me atrevi a olhar tua janela, entreabrir as cortinas  e ser espectadora do teu mundo.

Quase bordei a carta. Era de sentimentos intensos, de admirar momentos e diferenciar instantes para que você os vivesse. Tive medo dela amarelar e com o tempo desbotasse entre os teus guardados.

Depois do beijo no papel dobrado guardei-a dentro do envelope comprado para a ocasião e confiei aos Correios do meu lugar a missão de te entregar aquelas palavras escritas em uma manhã de outono.

Lembro-me que falei do sol, do céu e das nuvens que pareciam algodão doce.

Falei do canto dos pássaros que faziam festa no meu quintal.

Mas, ou carteiro não deve entender de cartas – logo ele, que tem a função de entregá-las – ou a perdeu no meio das correspondências todas.

Já não entregam cartas como antes. Na minha caixa de correspondências encontro folhetos de propagandas, faturas de contas a pagar. Até mesmo mensagens de igrejas evangélicas, mas carta mesmo, não vem. E não chegou a que enviei. Não foi entregue, porque carteiros não entregam poesias – minha mãe já dizia – carteiros entregam papéis. Poesia quem entrega é o vento e o coração.

Por isso, usando meu coração em poesia, te entrego essa carta que não foi entregue.

Sinta nela a vontade do abraço, da alegria de saber que teus olhos passeiam por essas mesmas letras que escrevi e que não ganhou cor diante de você.

Mas, que ainda assim, escrevi teu nome na delicadeza dos meus instantes.

Bacio

Mariana Gouveia

Há de ser…

Há de serpele
essa parte sensível do toque
essa rima
essa gíria que a língua exprime ao sentir
há de ser grito
esse silencio que habita
quando o suspiro te eterniza em mim
há de ser vontade
esse desejo absurdo de te ter.

Mariana Gouveia

– da leveza da manhã

- da leveza da manhã

O destino te toca uma vez.
E esse leve toque sacode tua alma na leveza da manhã.
A vida te toca uma vez.
E esse toque te faz acordar para o dia.
A natureza te toca e depois disso, todos os outros toques são carinhos.

Mariana Gouveia.
– da leveza da manhã

Procurava

ProcuravaProcurava o rastro do gafanhoto no fio da toalha.
A casa da libélula embaixo do travesseiro.
Procurava na Biblioteca o livro com o alfabeto dos flamingos.
Procurava no amante ruivo a semente do sol.
Procurava. Procurava.

Bárbara Lia