Na previsão do dia há poesia.

Na previsão do dia há poesia.

Redigiu o horóscopo do dia. Alternou a imensidão das coisas. No alinhamento dos astros, chove hoje.
A moça do tempo avisa: leve seu guarda-chuva.
Júpiter causa uma mudança interestelar. Pode se apaixonar de novo. Prefiro não dizer a palavra cuidado. Qual seria seu signo no horóscopo chinês?
O período da tarde pode haver mudanças. Realinho os astros no papel. A carta da lua teima em sair. Mistérios no ar. Ciclos. A vida não é feita apenas daquilo que podemos tocar. Nem ouvir. Nem ver. Há dimensões de estrelas na minha mesa. Números rodeiam meu destino de hoje. Ontem presenciei a queda de um mito. Já não há heróis para se espelhar.
A menina da mesa ao lado me pressiona com verdades que ela mesma não aceita. Recorta a parte que fala de seu signo e guarda. O dia de hoje é para ficar marcado. Relembro que há uma coisa chamada esperança.
Na previsão do dia há poesia. A voz dela lembra qualquer coisa de fada.
A lua em Peixes enfeita o dia.
Alguém compra o jornal e lê. Suspira e conhece a palavra vontade.

Mariana Gouveia

O vidro revela sua aparência de ave.

O vidro revela sua aparência de ave.As histórias se repetem no instante. Era ontem e eu ouvi uma igual.
Um homem me olha através do óculos
O diagnóstico de cura abre o riso da moça. Ela me olha com olho de abraço.
Já não há mais medo no gesto.
O elevador a leva mais leve.
Um pássaro canta na janela. O vidro revela sua aparência de ave.
Vozes ecoam entre os andares. E era dia de silêncio e não havia conexão.
Me distraí com confusões mentais. A chuva tinha cheiro de jardim.
E eu era só espera

Mariana Gouveia

Carta para Teresa

DSCF4844Linda T.

Acontece mudanças no meu jardim. Migrações de formigas entre os canteiros me lembram as palavras do meu pai: formigas mudando é sinal de chuva.
E não é que aconteceu? Caiu a maior tempestade aqui. Tive de mudar as coisas todas do lugar. O pé de amora perdeu seus frutos – ou quase todos – o vento não foi companheiro dessa vez. Até um ninho que havia lá, caiu. Sorte que os filhotes haviam ganhado asas dias atrás.
Mas como sempre depois da tempestade, vem a bonança o sol amanheceu radiante. Não veio o frio anunciado pela meteorologia. Está o mesmo sol de sempre e os quase 38º às 10 da manhã.
A vida acontece ali fora. Um céu azulinho que vira poesia só de olhar e as nuvens que passeiam por ele como se fosse um desfile.
Vejo nelas figuras estranhas e algumas que parecem coisas, animais. Já brincou de descobrir desenhos em nuvem?
Faço isso sempre – confesso – e descubro algumas engraçadas. Em sua maioria, vejo corações. Aliás, há coração em quase tudo que vejo. Desde uma folha seca que voa, ou alguma flor que brota no jardim. Também nos grafites dos muros.
Vejo corações por ai. Até em nossas conversas, na despedida, sempre me envia aquele coraçãozinho rosa que arranca sempre um riso de mim, depois do beijo e na despedida.
Hoje, lembrei da história do teu nome. Quantas histórias podem encerrar um nome e percebo que a sua tem a docilidade de avó bordada nela. E como leva o nome da padroeira das flores é assim que te rendo homenagem.
Flor colhida no jardim. Um gesto que viaja através das letras e atravessa o oceano na acolhida doce da amizade.
Que ao ler seu sorriso seja de ternura e que sinta nas palavras meu carinho.

Beijo meu

Mariana Gouveia

Tempestade para uma bambina aos cuidados de Maio

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Eu rejeito a tristeza
Soberba e vã
Sobressaio entre muralhas
Engano raios
Adormeço trovões

Renas Barreto

Hoje amanheceu aqui com seus trovões, bambina.

Maio veio tempestade quente de um céu rugindo e ventos nervosos.
Raios cortam o céu como se partisse ele com um golpe só, o cinza – que você adora, toma conta do dia.

Acordei assustada com um barulho nas janelas. Era uma libélula que ficou presa dentro da sala, por um descuido meu. Sempre faço a vistoria antes de deitar. Vago nos quartos procurando algum vestígio de bichos alados que insistem em povoar meu lugar.

Foi quando maio – o seu – veio passear por aqui mudando a rotina das histórias.
Não sei porque essa palavra tempestade vem ocupando  assombrosamente minha vida.
Muitas vezes, num bom sentido. Outras, nem tanto.

Gosto das palavras úmidas, dos cheiros que elas me trazem. Seja chuva, seja orvalho, gota e esse mar imenso que cai agora. Embora, a palavra chuva me banha mais na alma do que nos pulos que dou de braços abertos, como se essa chuva de hoje, enquanto penso em você me benze, me lava e me prepara para uma imensidão de coisas que virão.

Gosto de ver meu beija-flor no seu banho de chuva. É a vida úmida acontecendo aqui, dentro do meu quintal.
Tudo soa diferente dos costumes rotineiros. Não molho o jardim. Ele todo respinga alegria e a terra já exala o cheiro que tanto gosto.

Parece gosto de infância, de paletó de flanela xadrez, de leite fervido com eucalipto que minha mãe fazia no fogão a lenha que aquecia a mim e aos meus irmãos enquanto lia para nós.

Sempre fiquei com a impressão de que ela inventava algumas das histórias. Lembro de cada uma como se fosse hoje. Os cheiros nos leva para esse passeio insistente da alma em visitar passados, e nas lembranças minhas, o cheiro, tem o maior elemento.

Cheiro das folhas molhadas, cheiro do leite fervido. Do café. Da fumaça do cigarro do meu pai, que olhava a chuva da janela.
Essa mesma janela que trago sempre na lembrança que é de onde te espio. Chego a empurrar a chuva para você. Imagino sua cidade cinza e o seu cão no sofá de sempre, em seu silêncio puro e acolhedor.

Hoje, trago-te essa tempestade. Ela desaba aqui. Também guardo-a em palavras nas histórias que escrevo, que leio para um dia, num abraço poder derramar sobre você meu carinho.

De alguma forma, mesmo que não possa ouvir, o céu ruge aqui como se nos ligasse no mesmo ponto das vontades de chuva.

Dizem que o tempo mudará e que o inverno antecipará seus dias por aqui. Confesso que não acredito muito na meteorologia. Porém, se tudo isso acontecer, teremos um frio histórico aqui. Um lugar que chega aos 40º em sua maioria dos dias, qualquer 20º já dá para pensar nos cachecóis – esses que você adora e que para mim, tem sua marca registrada – e nos paletós.

O dia pede urgência. Fervo o latte para o cappuccino. Canto “Luna, tu. Tu rischiari il cielo e la sua imensità” e deixo meu bacio envolvido pelo barulho do céu que desaba aqui. Hoje, sua alma morou em mim.
Mariana