Fazia frio nos olhos dela

e eu pensei em ajudar, mas havia frio também nos meus olhos
As velhas senhoras dos meus poemas sempre veem conversar,
Ainda há tanta beleza nos olhos delas,
E elas aprenderam a sorrir das tristezas,
As faces com velhas pinturas, algum ouro antigo nas molduras, 
Uma forma madura de iluminar os problemas,
Os caminhos nos mapas a dizerem do mundo
Coisas que não precisam voltar,
Mas me contento em me aquecer nos olhos delas

Charles Burck
* imagem: Marta Bevacqua

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6 on 6 — meus ingredientes!

“Minha mãe cozinhava exatamente:
Arroz, feijão roxinho, molho de batatinhas.
Mas cantava”.
Adélia Prado

 

Minha mãe dizia que a casa começa com as xícaras e o coador de café. Foi dela que herdei esse amor pelo grão que nós mesmos colhíamos e o pai torrava para depois moer e coar.
Falar disso é como abrir a janela e respirar o tempero da memória. É como abrir a toalha de mesa e espalhar aqui meus ingredientes.

– O alimento é a poesia para o corpo! – minha mãe dizia enquanto ao redor do fogão a lenha preparava os ingredientes para fazer os biscoitos – o que se tornava um ritual, quase festa.
Depois da massa feita, passávamos eu e meus irmãos a enrolar e fazer figuras com a massa, enquanto ela fritava. Lembro-me que haviam cavalos, estrelas, letras com a iniciais de cada um dos nomes dos filhos.

O polvilho, nós mesmo fazíamos, logo depois da colheita da mandioca tudo marcado por rituais para não desandar a massa, para não azedar o pão, para ficar na memória o rito da mandioca sendo ralada, lavada, espremida e daquela água branca da cor de leite, ficava no fundo das bacias o pó branco que serviria para fazer quase tudo nos próximos meses.

Desde o pão de queijo ao mingau. O jirau montado no quintal para secar o polvilho. O tempo certo para o polvilho doce e o azedo.

Repetir a receita e com o chá de erva doce merendar em volta dela.
Descrever isso é como voltar no tempo… preparar os ingredientes, sovar a massa.
A memória se volta para o passado e o tempero se chama saudade.


Não tínhamos o fogão a gás e preparar o forno de barro para assar um bolo era desperdício de tempo e de lenha. Minha mãe colocava a massa em uma panela e tampava com um prato cheio de brasas. O tempo de assadura era o mesmo do forno e o cheiro era a fragrância do amor a exalar na cozinha toda.

Das coisas que me lembro é minha mãe de cócoras – talvez para chegar à altura da minha irmã caçula – comendo com a mão. A cozinha rescendendo especiarias das mais diversas ou as ervas frescas que ela colhia na “hortinha” próxima da janela.

A memória busca as lembranças dentro da cozinha. Os temperos a traduzir a saudade. Minha mãe sempre figura central da cozinha. A mesa sempre larga e grande para caber os sete filhos e a turma do trabalho da fazenda. Tenho isso tudo vivo em minha memória e com certeza foram esses instantes que me fizeram o que sou.

O momento da partilha dos pães, o fogo a crepitar no fogão. O cheiro do leite a ferver enquanto queima os dedos na ânsia de não deixar derramar sobre a chapa quente.
A lembrança presa nas coisas e o cheiro a invadir as lembranças e a saudade a ecoar ingredientes.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto: Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega  Maria Vitória

Projeto 6 missivas — uma carta a um amigo

O Homem cansa-se;
o espírito não.
O Homem rende-se;
o espírito nunca.
O Homem arrasta-se;
o espírito voa.
O espírito vive
quando o Homem morre.

 

O Homem parece;
o espírito é.
O Homem sonha;
o espírito vive

O Homem está amarrado;
o espírito é livre.

O que o espírito é…

o Homem pode ser
Mike Scot
(Waterboys)

Já faz tempo que não falo com você e hoje, quando passei na rua que tem seu nome fiquei imaginando como se sentiria sabendo que você tem uma rua toda sua.
Lembrei-me do dia em que colocaram a primeira placa e de como seu irmão segurou minha mão bem forte.

– Cara, ele agora é dono de uma rua inteira! A rua em que ele soltou pipa e brincou de bola de gude. A rua em que ele caiu e ralou todo o joelho e namorou com a menina mais linda da cidade naquele canto.

A gente riu e chorou e mais uma vez repeti como te conheci e como fomos parceiros no rádio uma vida inteira. Uma vida que durou o tempo de uma curva e um sopro te levou. Os intervalos eram tão caros para o cliente e tão baratos para nós e você conseguia o meio termo. A roupa da loja de tecido, o tênis que você desejou a vida toda… o cartão transporte gratuito – infiniiiito para uma vida toda – e seu grito ecoava nos corredores.

Ali, não tinha um que não tivesse uma história com você e depois que tudo passou fiquei eu, só, na sua rua. Relembrei cada instante dourado de nossas vidas. O dia em que sua mão me ofereceu parceria e nem meu nome você sabia. A marmita com ovo frito e a parte maior oferecida sua para mim com ombro de amigo.

Isso foi bem antes de você ganhar uma rua com seu nome…

O ônibus que pego passa todos os dias por ela e nas madrugadas as placas com seu nome escrito me levam para além do rádio – nossa paixão – e como nossa parceria era divertida. E de como a vida ficou vazia sem você.

A compota de laranja que o pote escondia e você dividia na delicadeza do abraço. O microfone dividido, as canções escolhidas e o riso que era seu companheiro rotineiro. E a reciclagem que você fazia no caminho a pé com as latinhas – e que virou seu apelido. E se pudesse te chamaria a vida toda de Divisão. Você era pura divisão de amor.

Nunca te vi triste e essa leveza você carregava e fazia leve quem te tocava.

O rádio nos ligou e quantas vezes dessas janelas – da foto – a gente ria de qualquer bobagem. Dávamos apelidos para quem passava lá embaixo, na calçada.
Eu, a menina caipira que escrevia as coragens que você narrava e você o menino do girassol e dos cabelos ao vento que trazia a magia na voz. Uma voz que ecoava estado afora.

Um vento te levou para além das ondas do rádio e hoje você foi saudade no meu coração. Te senti de leve quando meus olhos avistaram seu nome na placa de rua.

Moço, moço!

Mais do que duas janelas você tem uma rua que é só sua.

Saudades!

Beijo molhado de carinho (frase nossa ao terminar o programa Todo sábado é de festa – Radio A Voz do Oeste)

*minha homenagem ao meu amigo de um infiniiito inteiro Edson Luís da Silva. Radialista que foi soprado pelo vento em um acidente de carro ocasionado por um motorista embriagado.  A rua com nome dele citada fica na avenida principal do bairro Tijucal, Cuiabá – MT

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Editora Scenarium Plural Editora — uma carta a um amigo
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

6 on 6 – Nós dois

Procura-se…. Pessoa feita triste por verbos pretéritos e palavras ouvidas.
Alguém que seja capaz de se surpreender com gestos incompletos e actos falhados.
Pede-se o favor de responder através de um sorriso vago que possa ser tudo.
Nuno Camarneiro  

 
Parecia tão distante a palavra nós dois. Eu, tão acostumada a ser só e resolver tudo só, de repente, vejo uma mão estendida me indicando caminhos.  

Em alguns horizontes você me mostrava a direção. Era como se ali, tão cúmplice e parceiro estava o amor.
Tão sombra e tão presente. Nós dois! Quase um em meio a tantos.

A realidade sendo constante na sonoridade dos dias. A imagem registrada, era você e sua amizade mais atuante junto ao amor.

 

Com o passar dos anos, os olhos complacentes diante de minhas aventuras e de como os poemas faziam parte do espaço onde existimos… o poema é sempre sua mão estendida e seu ombro de amparo.

 

Basta saber de você ali… onde seu riso é parte principal de minhas rotinas. 

 

Esvazia os meus dias da solidão dos poetas e é silêncio quando minha alma grita nas solidões tantas. 
Não é só de amizade que falo, nem de companheirismo – esse tanto de espelho refletido no peito – onde o jardineiro do jardim cuida dos arredores dos quintais. Onde o dedo aponta o céu e os passos me seguem para além das cartas e de outros amores.

 

Mais do que as infinitas possibilidades nós dois somos o amor.

 

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019 Participam também desse projeto: Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega  Maria Vitória

a vida por um instante, é agridoce

a vida por um instante é agridoce

Delírios derretem dentro de mim

o olho que espera o beijo

a boca que beija a fruta

 

é muito desejo para um corpo só

(era a saudade batendo ponto no meu quintal)

 

a vida por um instante é agridoce

 

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Projeto 6 missivas — uma carta para seu autor favorito

“Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo”.
Manoel de Barros

 

Fico imaginando como começo essa carta e escrevo mil vezes – dentro do meu exagero conhecido – bom dia, mestre! Ou seria boa tarde? Também tentei o Querido Manoel, Caríssimo e achei que ficou um tanto quanto comum. Como se começam as cartas para quem a gente se dobra e reverencia sem ser muito igual?

Vi que Drummond em uma das cartas que te escreveu usou simplesmente seu nome e me encoraja apenas a dizer:
Manoel,

Hoje venta muito no meu quintal e desde cedo penso nas palavras que quero te dizer. Talvez você gostaria de saber que aquela menina que chorou ao te entrevistar, cresceu. Ganhou poesias vida afora e abre os braços para dançar com o vento.
Ah, é, eu falava do vento no meu quintal e a leveza das folhas correm para um canto do muro. Olhando de perto não tem tanta folha seca no pé de algodão. Mas como cai!!

Quero te contar dos calangos que vivem aqui, entre meu muro e a parede da casa vizinha… já vi muitos e até fotografei eles e seus olhinhos assustados. Sempre os salvo dos cães que por vezes, são mais rápidos do que eles. Cada vez que vejo um, lembro de você e de seu poema que fala da lagartixa. Tem até a Rabicó, que perdeu parte de seu rabo em uma dessas fugas desastradas da Lolla e Yoshi.

Aqui, a vida me parece ensaiada dentro de poemas seus. Quando as borboletas enfeitam meu pé de Maria Sem Vergonha e cismam de brincarem nas minhas mãos, quando a nuvem chacoalham dentro da bacia de água e a lua banha dentro do balde e arranca meu riso, quando os insetos vem morar no meu pé de boldo – hoje surgiu a lagartinha que mede os centímetros – e eu carrego a ilusão de que seus poemas foram desenhados aqui… bem no meu quintal.

Tenho sorte de ter olho para o encanto. De ver imagens nos estuques das paredes do muro. De ver o portal que dá lugar para minhas emoções esparramadas na grama verde e de poder viver o lambeijo dos meus cães quando deito no chão. De enxergar coração em tudo que é coisa.

Tenho sorte porque lá fora, para além dos instantes de encanto, o mundo está de ponta cabeça e não sei se você gostaria de vê-lo como se apresenta hoje. Talvez, aqui, no meu lugar seja um daqueles achadouros que você criava em seu mundo.

O meu quintal é desabitado de realidade e levo ele na bolsa sempre que saio calçadas afora para viver o mundo real e lá, quando o baque vem em grau maior eu retiro um pequeno bocado para sobreviver.

O mundo está moderno demais e atravessado. Então, eu busco como escape essa inteireza de criança que meu pai ainda acha que sou e com isso tento dar verbo às coisas que me rodeiam e bem ali, no cantinho do espaço imaginário, perto das lanternas chinesas eu te abraço e agradeço pela inspiração que me ofereceu diante da palavra e tentando entender a cor dos pássaros faço o verbo esperançar renascer cada vez mais dentro de mim.

Um abraço,

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Editora Scenarium Plural Editora — uma carta para seu autor favorito
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega