Há uma mulher dentro de mim

Há uma mulher dentro de mim

que não é gramática decomposta nem acento circunflexo.
Não é metáfora exagerada, nem vegetação espessa no limite da vírgula.
Não é anáfora suada, nem rigor maiúsculo no recuo do parágrafo.
Há uma mulher dentro de mim que não é periferia nem superfície transversal.
Essa mulher que não outra mulher, esmaga-me as telhas no tecto da boca.
Tenho-a calada e encavalitada debaixo das palavras mais fáceis de carcomer.
Tenho-a cansada e regrada por cima das feridas menos custosas de sarar.
Mas essa mulher que dentro de mim não me permite outra habitação que não esta,
não me serena a vontade áspera de romper a madeira dos braços,
de moer do úmero a lasca e da acha articular outro galho maior.
Há uma mulher dentro de mim que não me reconhece como sua.
Há uma mulher dentro de mim que míngua encolhida no cavo do medo.
Há uma mulher dentro de mim que ama uma mulher insuficiente de si mesma. 

 Alice Turvo
*imagem: Tumblr

As minhas mãos…

As minhas mãos

nasceram para desenhar em tua pele minhas digitais…
Os meus dedos,
para aninhar em teus dedos
como se parte deles fosse
o meu toque.
Vasculha você mesmo sem presença,
porque assim sou eu em você.
Leitura de quem não vê
mas entende.
Teu toque em mim
desperta superfície plena
de supremo desejo e prazer
Você,minha leitura cega
que leio e saboreio fome e prazer.

Mariana Gouveia

Vem…

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em meu sexo cresce um desejo súbito de mil florestas por
nascer. Vem.

Nos meus braços ardem fogueiras com milhões de séculos
e estremece-os essa longa ternura que jamais alguém herdou do feno,
das uvas e do vento.
 
 
Joaquim Pessoa
*imagem: Christophe Gilbert

Dei-lhe o nome de flor

Dei-lhe o nome de flor*imagem: Anna O.

Chamava ela pelo nome e docemente ela respondia.
Trazia sorrisos, às vezes, quando me atendia.
Quase nunca o coração.
Não sabia extrapolar as coisas – dizia –
era feita de matéria perene, ela – a que eu criei.
Nos meus sonhos vinha feito névoa.
Me tocava com a maciez das nuvens e eu era etérea. A felicidade cabia tudo dentro de mim.
Dei-lhe o perfume do nome. O toque das pétalas. Dormia sobre ela. Por ela
e quando amanhecia eu dançava para ela, chovesse ou fizesse sol e regava as sementes que enviou para o jardim.
Um dia, chamei seu nome. E não veio riso, nem coração. Não veio nada.
O eco vagou pelos quartos todos. Visitou gavetas. Bateu janelas e ela não estava.
A montanha onde venta ecoou em resposta do meu grito.
Procurei-a nos lugares, e feito névoa se dissipou.
Eu, que buscava minha lucidez perdi de vez.
Endoideci. Ainda assim a chamava. Ora com a calma do amor,
ora com a tirania dos amantes. Com a raiva de quem endoideceu de amor.
Não veio mais. Nem em sonho.
Desde então, nas madrugadas vazias vago pelas ruas, nua. Coberta apenas com a flor que ela me plantou, com o riso de doida no olhar, cantando o nome dela como se fosse canção.

Quando o sol sai. Volto ao normal. Se bem, que sem ela nunca sei o que é normal.

Mariana Gouveia

A vida não é para quem tem pressa…

A vida não é para quem tem pressa
Todos os dias eu a via por ali. Como se medisse passos, como se medisse a vida.
Como se dissesse:
– A vida não é para quem tem pressa, moça.
A vida é para acontecer no instante do agora.
E assim, os dias seguiam seu destino de ser dia.
O diário das rotinas. A fala improvisada no programa de rádio.
A canção que ela mais gostava e seu lugar. Era ali que a vida podia ser medida vagarosamente para viver.
Era só respirar e viver e esperar o momento da transformação.
Para amanhã, asas.

Mariana Gouveia

Diplomacia

Bec winell

 

Cada vez que nossos corpos se encontram,
diferentes na forma,
no tom e na textura,
o desejo é semelhante,
idêntica a procura…
Somos estrangeiros um no outro,
exilados por escolha na mesma fantasia
onde o antigo prazer se faz desconhecido…
Na primeira vértebra, sinto sua boca
e na última vibra o arrepio do perigo,
mas, se conquistada eu me rendo ao invasor,
refugiado, você me pede asilo
e eu dou…

 

Maria Borges

* Imagem: Bec Winnel

beija-me,

amber ortolano*imagem: Amber Ortolano

beija-me o primeiro beijo uma vez mais.
fecha os olhos em antecipação
do frémito do corpo que amaste um dia,
desenha-lhe agora hálitos confusos,
serpentinas no tempo,
espirais de vontade.
cala-me os lábios com um sorriso
e depois, calmamente, com cuidado,
descola-te de mim sem adeus.
ou façamos um beijo desesperado,
desalmado.
só corpos
suemos cascatas de prazer sentido
no limite da consciência,
ou percamo-la, até.
beija-me
como se a memória fosse a última das derrotas,
beija-me no presente,
por quem sou.
beija-me então sem sentido,
sem rectidão, dá-me o beijo imoral.
beija-me ao engano,
perde-te por mim fora e oferece-me aos deuses da morte
se quiseres.
mas beija-me o primeiro beijo.
e esse, por favor,
guarda-o só para mim.

Carlos José Teixeira