Pé de vento

Pé de vento

Minha mãe dizia que o vento era leve – como paina que vira travesseiro para os sonhos – e que carregava os medos e os sonhos maus.
Era coisa para se apaixonar esse tal de vento.
Um dia, eu quis aprisioná-lo. Só para mim…Leveza era bom ter guardada para as horas difíceis.
Peguei uma garrafa e coloquei no meu quintal – no meu quintal, tinha um pé de vento – e fiquei horas ali a esperar que o vento entrasse garrafa adentro.
Foi quando minha mãe percebeu minha intenção e disse que vento era para ser livre. Tinha de percorrer lugares, levantar saias das meninas e só assim o vento tinha razão de ser.
Minha mãe, em seu estado de fé, me disse que o vento era o Espírito Santo e quando eu quisesse que ele aparecesse, bastava assoviar.
Era uma mandinga para fazer ventar. E ainda por cima, cultivar a fé na leveza da alma.
tem sido assim meus dias.
Todos os dias, quando acordo, a primeira coisa que faço é ir ao meu pé de vento. Assovio e o dia ganha a magia da leveza, por mais que as coisas aconteçam contrário ao que tenho vontade, quando vejo as folhas dançando ao som do vento, percebo ali uma força maior.
Que ganha imensidão, viaja e chega até a mim como cisco voador.
Nas janelas, os mensageiros do vento diz que é impossível controlar o que é livre e se um dia quiser controlar a liberdade vá ao centro do quintal, assovie e achará o caminho do paraíso.

Mariana Gouveia
*imagem: Karrah Kobus

Encontro

encontro
*imagem: Nadja Berberovic

Não venhas a cheirar a almofada ou
vou ficar cativa,
vou ficar perdida com o teu cheiro a lençóis,
desnortear-me nos vincos
que trazes na cara,
que inveja me faz essa almofada,
que te marca dessa maneira
e sabe de todos os teus gemidos…

Estelle Vargas

Aqui eu bebo abismos.

Aqui eu bebo abismos.

Digo dos mergulhos líquidos ao infinito medular
em busca do fundo que não há.
Aqui eu engulo temporais. Digo dos verbos necessários,
como as lágrimas dos ventos a me fazer tempestade
na alma.

Eu ontem chupei beijos de laranja
espremida na boca. Empurrei de leve
o teu peito pra tocar o coração e vazei o invisível.
Digo das mãos o imprescindível, o inacessível
da alma sorvida no oco
das digitais da língua, no tato da palma.

Eu ontem me afiei na lâmina da tua luz para ser aguda e furar o abismo inalcançável onde o amor descansa na véspera do humano.

No fundo talvez seja só isso. Essa vontade de ser eterno dentro.

A morte é um vento grávido e morno que não tem pressa de parir. Quando finalmente ferve, derrete dentes, nervos e aspas. Então sorri.

Shala Andirá
*imagem: Lauren Treece

espera o ardor do vento para ser ave

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A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo
cintila,

 a boca espera
que pode uma boca
esperar

senão outra boca?

espera o ardor
do vento
para ser ave,
e cantar.

 

Eugénio de Andrade
* Imagem: Tumblr

É o paraíso, a moça!

Anna & Elena BALBUSSO*imagem: Anna & Elena Balsusso

 

Se lança no infinito e nem me conta nada
Vira hippie na banca da esquina.
Sorri em dias despencados
quer morar dentro de um livro de Bukowski
e ainda reza.
Chove quando acorda, acorda sol maior no lado B da vida.
É o paraíso, a moça!
ri das minhas bobagens,
é corruptivel em seu ideal ecológico. Mas, só quando o professor pede.
Perdeu tudo quando a casa virou flor. Nem tinha seguro.
Mas, no caminho até ela eu descubro o Paraíso. É.

 

Mariana Gouveia