Expandes meus dedos

Expandes meus dedos

Dos meus dedos escorrem

palavras.

Muitas coisas tantas

e algumas coisas raras.

Minha pele se prolonga em paisagens

Repele pernilongos, atiça miragens.

Não copia.

Única, inaugura viagens

Parte, então, para outras saudades.

Shala Andirá

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Ouvidos silentes…

 

Não impossibilitam
Sinfonias sempiternas.
Música é sentir
E eu sinto muito!
Há sempre um concerto em andamento
Na pele,
Na memória,
Na alma
No coração…
Eliane Morgado
*imagem:Cler Raichuk

 

Por ti

Por ti

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

António Ramos Rosa
*imagem: Dina Bova

Guardei meu amor, bem guardadinho

raquel pellicano
Escondi no meu baú a palavra doce.
guardei-a como as meninas de antigamente guardavam os anéis.
Guardei a aliança de prata também. E os dias vividos com você no meu quintal. Dentro do baú antigo, onde guardo minhas memórias guardei a vida. Deixo lá com todos os instantes de riso que vivemos. Das palavras que precisavam de traduções.
Guardei as fotos que você tirou. Não é bom ver fotografia de flor com essa fome constante de flor. Os poemas escritos com seu nome. As cartas que nunca tive coragem de enviar. Tudo isso faz companhia para a minha solidão.
Lá, tem um papel de bala dado um nó, desses que se você quisesse um abraço mais forte, teria de apertar mais.Também tem junto, dentro do baú, o riso de minha mãe, que ecoou no meu coração em uma noite fria quando senti vontade de comer flor.
Já era bem de antes essa vontade contida. Lembro-me que ela riu quando eu disse: um dia, planto uma flor vermelha só para comer.
Guardei no baú tantas lembranças para quando eu me perder das memórias, abra e dali saia esse sentimento que invento para você. O sentimento da espera.
Todo dia, pego o baú nos braços, passeio com ele pelo quintal e pela milésima vez faço a promessa de só abri-lo quando puder te tocar outra vez. Ou ouvir sua voz, que coloquei ali, num cantinho, para evocar a canção monocórdica que cantou para mim.
Guardei dentro dele as sementes da flor. Plantei uma apenas e converso com ela na delicadeza dos raminhos que crescem e brota a cada dia uma nova folha. Logo, terei uma papoula vermelha na intensidade da fome.
Os vizinhos dizem que estou louca. Os loucos, me chamam de sã e na minha lucidez desvairada, eu, só chamo você.

Mariana Gouveia
* fotografia: Raquel Pellicano

das singularidades dos dias

viu o luto nas memórias das caixas vazias
escreveu histórias que ninguém leu…
Desenhou mecanismo para a rota das formigas.
Não dormiu

sonhou com viagens além dos rios e pisou descalça na grama
comeu o verdume das folhas. era ainda criança quando ousou voar

Tatuou a liberdade em asas
nas costas

viu a cura ao alcance dos olhos
falhou nos abraços dados
coloriu o jardim nas sementes plantadas

e a vida se renovou em germinação.

a vida, por um instante é cíclica.
Afinal de contas, os séculos se repetem em consonância com os verbos do passado…
O ponto só é final quando se chega ao fim.

Mariana Gouveia

6 on 6 – — meus livros!

nenhum abismo me cabe
nessa hora, eu voo

Mariana Gouveia

 

 

Ter um livro publicado era o sonho de criança. Quando em 2015 a Editora Scenarium Plural me fez o convite, a emoção tomou conta de mim e veio a parte mais difícil que era escolher entre infinitos poemas apenas 50 deles para fazer parte do livro.
O livro fazia parte da Série Exemplos e coube a Lunna – minha editora preferida – a fazer a seleção.
Desde então, O Lado de Dentro se tornou o filho do qual cuido com carinho.

 

Em Diário das Quatro Estações – Cadeados Abertos fui fiel ao meu estilo de vida.  Era como me desnudar diante de quem lia:

preciso sobreviver ao encanto
que teus olhos me apresentam em miudezas e rotinas
Dou-te os sentidos plenos no toque
das palavras, invento recantos onde seu amor me ampara
Para isso, basta sentir-me tua.
Adivinho que você nasceu em algum canto do mundo. E os séculos nos pertencem.

Mariana Gouveia – Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
23, Outubro Pág. 93

Os dias foram acontecendo dentro da minha rotina. Entre o trabalho e as previsões, a lucidez das horas e a saudade o diário foi criando vida.
O horóscopo trazendo opções de escolha e a bênção do pai a dirigir sentimentos.
Assim, o diário foi visto pelos olhos do amor.
Um convite e ele virou um livro.
Um livro onde dedico alegria, esperança, momentos lindos e uma história rica de amor.
Em alguns dias, uma palavra bastava. Em outras, vivi todas as estações e ainda assim, era náufraga de um mar que não conheço e de um rio onde bebo na fonte.

 

Entre um livro e outro aconteceram outros projetos onde fui acolhida dentro do amor e da pluralidade e me vi pecadora em Sete Pecados. Na delicadeza do fluir, dentro de um conjunto Plural fui liberta e Coletiva.

 

Mas, em fases de Lua, me transformei juntamente com seis mulheres em Sete Luas. Um trabalho lindo, delicado, minucioso e generoso com as autoras. Serei suspeita se dizer que foi o mais lindo dos trabalhos…
Serei suspeita se dizer que nos transformamos em lunação.

Depois de luas, diários e Plural ganhei a dor e a leveza em Corredores. Foi o que me fez chorar e eu vivi a história na pele e na dor de alguém.
Mas, também vivi a liberdade e a alegria de ser mão ao toque e te convido a passear pelas páginas deles.

 

 

Para você que ficou curioso ainda dá tempo de adquirir qualquer um deles ou de saber mais por outros olhares:
O Lado de Dentro sob o carinho de Adriane Aneli:
https://scenariumplural.wordpress.com/2019/02/18/resenha-o-lado-de-dentro-de-mariana-gouveia/

https://marianameggouveia.wordpress.com/category/o-lado-de-dentro/

https://marianameggouveia.wordpress.com/category/diario-das-quatro-estacoes/

https://scenariumplural.wordpress.com/2018/08/13/corredores-codinome-loucura/

https://marianameggouveia.wordpress.com/category/diario-das-quatro-estacoes/page/1/

https://marianameggouveia.wordpress.com/category/sete-luas/

https://www.facebook.com/seteluas/

https://marianameggouveia.wordpress.com/category/corredores/

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto: Lunna Guedes– Obdúlio Ortega Maria Vitória