A garota de scarpin vermelho – Por Mariana Gouveia

A garota de scarpin vermelho

“na outra margem da noite
o amor é possível
leva-me
leva-me entre as doces substâncias
que morrem a cada dia em tua memória”
Alejandra Pizarnik

 

Trazia a delicadeza na pele. Cheirava a algum perfume novo que não consegui desvendar.
Os olhos me acompanhavam por onde eu ia. Entre as prateleiras dos livros, entre um exemplar e outro, estávamos frente a frente. Passou de leve por mim e senti a curiosidade de olhar as mãos. O anel acentuava ainda mais o esmalte vermelho. Paramos no caixa, ela em minha frente e eu ali, a espiar a nuca, onde os cabelos caiam discretos em ondas.
Enquanto pagava sua compra olhou para mim e sorriu:
-Não, as palavras não fazem amor. Fazem ausência. Se digo água, beberei? Se digo pão, comerei?
Busquei pela memória onde já tinha ouvido essas mesmas palavras e sorri de volta:
-Alejandra Pizarnik?
Concordou com os olhos e perguntou se eu gostava dela.
– Ah, muito! Adoro o estilo!
-Tenho sede quando leio. – riu de suas próprias palavras.
Na minha vez de pagar, meus olhos a acompanhava e ela rapidamente saiu porta afora.

Não vi nenhum sinal dela na rua. Pensei nos olhos, no perfume e senti uma leve saudade bater o peito. Não sei nada sobre ela. Apenas que sente sede quando lê Pizarnik.

Sentei em um banco da praça e folheei o livro recém comprado. Os olhos enxergavam sonhos nas letras quando senti um movimento leve nas minhas costas e duas mãos tapavam meus olhos. Na memória, no toque das mãos que acariciavam meus olhos, não consegui reconhecer a dona delas.
– Adivinha quem é? – nem a voz me parecia conhecida – Tenho sede quando leio.
Acho que te segui, tive curiosidade em conhecer quem lê Alejandra, como eu.

Sentou ao meu lado, com uma intimidade que não tínhamos. Falou-me sobre sua vida, seus desejos e seu riso encheu minha tarde de improviso.
Falei pouco. O que não é normal, no meu caso, e a hora começou a me cobrar urgência no dia. Era para o riso dela ter o nome de alguém e ter a mesma alegria que os olhos dela tem. Falei de ir, já me levantando.

-Ah, não! Mas, já? Nem falou sobre você e nem respondeu sobre o pic-nic de amanhã…
-Pic nic? Que pic nic?
– O que faremos amanhã, ali, naquele canto da praça e pode deixar que venho com meu scarpin vermelho! Me faz sentir mais chic.
Saiu em disparada sem deixar eu dizer nada. Mas deixou comigo a certeza de que adorarei ver ela amanhã de scarpin vermelho.

Mariana Gouveia
Série Diálogos

Retratos da Alma

“na outra margem da noite
o amor é possível
leva-me
leva-me entre as doces substâncias
que morrem a cada dia em tua memória”

– Alejandra Pizarnik –

Trazia a delicadeza na pele. Cheirava a algum perfume novo que não consegui desvendar.

Os olhos me acompanhavam por onde eu ia. Entre as prateleiras dos livros, entre um exemplar e outro, estávamos frente a frente. Passou de leve por mim e senti a curiosidade de olhar as mãos. O anel acentuava ainda mais o esmalte vermelho. Paramos no caixa, ela em minha frente e eu ali, a espiar a nuca, onde os cabelos caíam discretos em ondas.

Enquanto pagava sua compra, olhou para mim e sorriu:

– Não, as palavras não fazem amor. Fazem ausência. Se digo água, beberei? Se digo pão, comerei?

Busquei pela memória onde já tinha ouvido essas mesmas palavras, e sorri de volta:

– Alejandra Pizarnik?

Concordou com…

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