Imaginário

irotoridori

Repete a história mais uma vez. E outra. Ela anota.
Tem detalhes que sempre esquece.
O poema da camiseta. O gosto da boca.

Fecha os olhos e desenha a cena.
Rápido, a água que caia. O cheiro do sabonete líquido.
A cor da
pele. As pintinhas no corpo dela.
A mão que toca e o olho que mapeia tudo.

Respira.
Sente vontade de chuva.
Pensa em pouso. Fala em pouso. Ela anota.
– Pouso reflete segurança – ela diz.
– Não acredito nisso. Se fosse assim, não haveria desassossego na alma.
Vai até a cortina.
Abre a janela.
O olho vasculha pontos além do pode enxergar. Enquanto ela anota.
Pergunta se não quero sentar.
Não respondo.
Em meu braço pousa pássaros coloridos.
– São imaginários – ela diz – não existem.
Mais uma vez eu repito minha frase mágica:
– Às vezes, é preciso enfrentar o imaginário.
Respiro.
Conto mais uma vez a história.
Dessa vez falo sobre a canção que ela cantou.
Ri de mim.
E começa a falar de saudades.

Mariana Gouveia
* art: Jun Kumaori

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