Maria

Maria

Revirou o baú e encontrou lá perdida sua boneca de pano. Lembrou das coisas da infância. De tudo que viveu – ou quase tudo – com ela.
Onde quer que fosse, lá ia a pobre boneca debaixo do braço.
Dentro dela batia um coração imaginário. A mãe o colou lá, quando fez ela. Enquanto a linha dava vida à sua boneca, a mãe lhe contava histórias de amor.
Aprendeu desde pequena o sentimento das coisas.
Depois dela feita teria de por um nome. A chamou de Maria. E com isso podia rimar o nome com o que quisesse ou fizesse a mãe sorrir.
A irmã mais velha que tinha o nome de Maria não gostou. Depois teve de acostumar.
Quando a esquecia em algum lugar, o nome gritado e repetido gerava confusão, porque Maria sempre respondia e a boneca Maria não.
A batizou mesmo com as broncas do pai, que sempre levou a sério as rezas e orações.
O tempo passou e a companheira foi ficando de lado, na cabeceira da cama,depois foi ocupando espaços aqui e ali.
Até ontem, quando falou com ela sobre bonecas – de pano, ela também teve – Essas coisas marcam pra sempre.
– A minha está em algum baú das lembranças.
– A minha foi destruída pela cachorrinha do meu filho.
Ela anota.
Eu coloco em cima da mesa e a olho.
Juntas vivemos a mesma história.

Mariana Gouveia
*imagem: Pinterest

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