Dos dias de saudade

Dos dias de saudade

Morri nas gavetas sangrentas da memória.
Havia ali uma faca cortando minha pele e a respiração para e a vontade extrema de gritar seu nome. O quintal é pouco para a loucura que antecede milimetricamente dentro de mim.
Rabisco seus nomes – todos aqueles que eu te chamava – nos muros.
Desenho corações tortos e o céu cai em uma canção que entoa sem parar.
Não é o dia, não é o dia – eu repito – e as crianças riem de mim.
Alguém desavisado de minha loucura pede ajuda. E meu olho segue o pássaro sem asa. Sou levada e não canso de falar.
Todos os dias eu aconteço nas memórias dela. Todos os dias ela me mata na memória dela.
Toda manhã eu recomeço a rotina de reviver dentro do que eu lembro.
Há um corredor extenso e a moça vestida de azul me aplica algo que aplaca a fúria da alma.
Ela diz isso rindo e dou meu braço para o líquido que alivia a dor física. E a alma apenas quer o riso amoroso que um dia ela me dedicou.
Perguntam-me o nome. Tão vago, tão distante, por pura burocracia já que todo mundo me conhece e sabe de minhas loucuras plenas.
– Me chamo flor – eu falo – o que atrai o riso na moça vestida de azul e que repete comigo o nome pelo qual me chamam.
Não, seu nome é esse. Flor é a que mora dentro do seu coração.
E canção repete:

“Pode ter meu número
Pode tirar meu nome
Mas você nunca terá meu coração”…

e eu repito: porque meu coração é dela. Morro outra vez nas gavetas vazias das lembranças dela.

*art: Christian Schloe
Mariana Gouveia

 
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