E o negativo em preto e branco derramando flor.

E o negativo em preto e branco derramando flor.
Havia um riso estranho no homem da esquina.
Perguntou meu nome duas vezes e quis saber das horas.
Recolhi as folhas que caíram do outono passado. E molhei as flores na estação delas.
Preparei o chá das frutas amargas para aliviar a tensão.
Alguém na casa do lado canta uma canção em alto e bom som. E a dor desafina em La Maior.
Uma voz entalada no grito enquanto eu recordo das promessas.
Ela me prometeu um corpo branco onde eu brincaria texturas e registraria nele minhas digitais. Tatuou em minha boca seus lábios e desceu pele adentro, flor em mim.
Me prometeu na febre, o abraço como conforto onde me amaria nas manhãs mornas e se possível me traria a chuva.
Uma praia de espuma onde só há rio – foi promessa cantada em poemas – e uma polaroide para fotos noturnas. Me deu a lua quantas vezes e o sol todo dia. Depois, tomou de volta.
Prometendo trazer de novo quando a maresia acontecesse por lá.
Para reviver minhas lembranças mandou-me o mar derramado em conchas e quando não havia mais nada para prometer, me prometeu amor que hoje escolho nas palavras escritas onde o abandono é maior.
Eu a vi dentro de um brinquedo onde ela dirige para o riso. Eu vi o riso e não era eu atrás da polaroide que não veio. E o negativo em preto e branco derramando flor.
Nem era primavera ainda e o sol lá fora desaba folhas no meu quintal.
E quando eu já nem pensava mais ela me deu um quase fado e então eu morri no jardim.

Mariana Gouveia

*fotografia: Anna O.

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