Quase fado

quase fado

Eu agora já não a espero mais pela noite. De noite, eu a tenho.
Dentro de mim.

De noite, enquanto uma lua ligeiramente mais do que meia lua se insinua num céu estrelado,
eu a guardo no sagrado do meu coração.

Eu a espero pela manhã, diante de uma tela que se abre trazendo o sol e o cheiro do café invade a casa toda.
Eu a espero cheia de aromas. Das frutas frescas que colho contando a espera.

Eu a espero ouvindo os pássaros invadir o quintal e o beija-flor revoar na esperança de que eu fale dela.
Eu a espero enquanto a vida espera para ser cuidada e no rádio toca a canção que ela mandou um dia.
Viro quase fado na tentativa da espera.
Viro quase dança, na incerteza do vento que levemente afasta a cortina e me mostra que lá fora, o dia já nasceu.
Eu a espero e guardo as coisas para contar para ela.
Chego a murmurar seu nome. Chego a ouvir sua voz.
E quando o dia vai se arrastando em instantes longos, eu vou dando conta de será um dia a mais e ela não vem.
De noite, desisto de esperar.
Mas, os dias que virão – todos os outros amanheceres que eu viver – serão feitos de espera.
A espera de que ela volte para mim.

Mariana Gouveia
*fotografia: Omerika

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