A minha mãe costurava.

A minha mãe costurava
*

Fazia colchas de retalhos que, normalmente iriam pro lixo.

Daqueles pedacinhos de pano saiam mantas que quase parecia as páginas do livro que quero um dia escrever, de tão bonitas que eram.

Eu ficava horas ao lado dela vendo-a emendar os retalhos e eles se transformarem em figuras feito retrato costurado.

Lembro-me que ela dizia que costurar era como fazer amor com a máquina. Isso a preenchia…minha mãe vivia plena de tudo, quase tudo a preenchia. Ouvi muitas vezes ela dizer isso ao costurar, ao cozinhar, ao bordar, ao cuidar da horta…

Pegava um pano simples e bordava ali, sonhos…

Para mim, um dos momentos mais lindos era a hora de colocar óleo nos pedais. Ela calava a máquina do choro de ranger correias besuntando as dobradiças que haviam e a máquina se calava…

Enquanto costurava ela cantava. Era quase um mantra a canção na boca dela.

Eu, do meu cantinho de filha ficava desenhando na mente aquele momento para que durasse feito retrato. Nem respirava.

Quando ela não estava costurando estava sendo plena de qualquer outra coisa. Sendo mãe.

A máquina, ficava ali, parecendo sentir saudades do amor que fazia com ela, com seus pedais quietos que parecia gritar. Com seus apetrechos descansando em cima, a tesoura, o ferro de passar cheirando a carvão e a canção de ser plena em qualquer lugar.

Mariana Gouveia

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21 comentários em “A minha mãe costurava.

  1. Este seu post emocionou-me. Gostei muito. 🙂

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  2. ana de castro disse:

    ” amei isso…mto meigo .

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  3. Cris Campos disse:

    Nossa Mariana, que coisa mais linda isso… esse estado de estar-ser pleno em tudo é algo pra poucos, pra sábios. Coisa mais linda e boa senti ao ler Mari! Bjo!

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  4. mariel disse:

    Sua mãe, então, deve estar desenhando nuvens!

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  5. Mariana Gouveia disse:

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  6. Dulce Morais disse:

    Mariana,
    A minha mãe – avó fazia crochê e costumava dizer-me que fazia nós para nós… A sua publicação relembrou-me momentos ao lado dela…
    Obrigada!
    Um abraço!

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  7. Lunna Guedes disse:

    Nossa amore, essas suas linhas falaram ao mio cuore… viajei no tempo e espaço, para longe e perto. Fui até você, te abracei e conversamos sobres linhas e agulhas, sobre você e eu, nós duas e todas as pessoas que trazemos juntas… amo-tu cada vez mais e mais e mais…

    Grata por tocar-me assim

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    • Mariana Gouveia disse:

      Ah, bambina. Tão bom esse sentir. te levo pela mão dentro do meu dia.
      Amo mais. Tu sabes.
      A gratidão é minha. Sempre. ❤

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      • Lunna Guedes disse:

        Ah, minha cara… aproveitei a segunda para por em dia as leituras dos blogues. Andei sem tempo – você sabe – para essa “brincadeira singular” que tanto gosto.
        Catarina está lá em silêncio… não nos falamos faz algum tempo. Ela se recusou a escrever… ou fui eu?
        Enfim… quero voltar, mas não será hoje porque hoje meus olhos querem esse sentir alheio. Vestir-me de ti, é como estar aí, ao seu lado, nesse seu dia aquecido de verão…

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  8. Mariana Gouveia disse:

    Estarei te esperando sempre ❤

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  9. Postagem linda. Despretensiosamente densa. Vou considerá-la um poema (por gostar de pensar nela como um poema). Abraços.

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  10. Minha mãe cozinha (dom que eu herdei dela), mas não costura (e consequentemente eu também não, o que é uma pena). Adorei teu texto!

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