Era como escrever poemas na pele dela.

ivailo petrov (2)

Era como escrever poemas na pele dela.
Usar os dedos como tinta e amanhecer lilás depois da madrugada intensa.
Pintar devaneios entre a nuca e o cabelo.
Caçar a solidão que existe na menina daquele olhar.
Tatear a pele, esculpir vontades e ir decorando textos obscenos que ela diria se estivesse aqui.
Citaria Anaïs Nin, se não misturasse os poemas, ou apenas ficaria em silencio para ouvir a respiração.
Olhou a mesa com as coisas banais. A panela preta que era da mãe. Virou objeto de decoração, ali, no mesmo lugar onde a amou. A bandeja com os medicamentos que toma. Isso a fez lembrar que era dia – hoje – de ir buscar mais.
O pacote de pão.
Riu ao se lembrar do pão e do quanto isso foi motivo de discussão entre as duas. – Vocês não tem pão. ela dizia – e aquilo gerava uma longa conversa entre o pão daqui e o pão de lá.
Tudo isso ocupa agora lugar na mesa.
Veio a vontade absurda de jogar tudo fora. Fazer aquelas cenas de filme.
Conteve-se.
Voltou a desenhar rotinas no corpo dela. Sabia de cor os caminhos todos. A textura, o convite da boca. O olho de fome e essas vontades todas.
Era como escrever poemas na pele dela. Era apenas a cadeira na solidão vazia.
E no silêncio de minhas palavras ela quis ir.

Mariana Gouveia
*imagem: Ivailo Petrov

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