Na pele da minha memória

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Às quatro horas da manhã despertei de um sono sem sonho, daquele sono em que a alma esquece que existe e parece sumir completamente; não habita o corpo, nem viaja pelas criações e recriações da mente. Num instante, levantei para me situar e me vi ao teu lado. Passei a te observar. Observei tudo. Caminhei com o olhar pelas linhas do teu corpo. O teu jeito descompassado de respirar, a tua nudez, as tuas pernas e as tuas mãos, sempre tão combativas, permaneciam rendidas como os teus olhos. E como eu te amei.

Amei te ver dormir entregue a mim, abandonado dos cansaços dos dias e dos pensamentos. Amei estar ali, naquela cama de lençol revirado, num quarto à meia luz, abarrotado de objetos e, enquanto o sono não retornava, resolvi viver duplamente aquela hora: na pele e na memória. Ao mesmo tempo em que te observava, eu te guardava para os dias que viriam.

Você, andarilho de minha alma, até dormindo me encontra em meus pensamentos e me dá lições de amor. Percebo que, além das presenças, das apreensivas esperas e dos compassos e descompassos sentimentais, o amor também nasce, e cresce, nos gestos inconscientes, na inocência do sono…

Tudo isso eu pensava enquanto você dormia, tudo isso eu sentia enquanto delineava o teu corpo com os meus olhos, enquanto você tocava a pele de minha memória.

Emiliana Carvalho – http://www.escritica.com/
*fotografia: Anka Zhuravleva

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