O silêncio aumentou tanto que o relógio parou

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“Mil anos que escrevas”, disse, “não saberás a quem”

  Maria Gabriela Llansol

 

Querida Ana,

Eu já li em algum lugar o quanto é difícil escrever em primeira pessoa. Falar até eu falo – Eu falo comigo mesma e quase que o tempo todo e no fim, vem a ser você – mas escrever é mais complicado. Por isso, terei cuidado em escrever para mim e falo com você.
Escrevo essa carta na solidão do agora. Volto aos corredores quando eu não estava contigo. As paredes vazias de cores.
Você distrai nas palavras antigas. Escreve poemas na mente enquanto as pessoas de branco, anônimas, quase, passam e desviam o olhar. Não querem ver a solidão dos seus olhos. Abrigam-se em seus jalecos como se procurassem no bolso a fórmula de ser invisíveis.
Eu não estava ai e nem sabia que os corredores nos ligavam e que a palavra cura viria em minha boca quando você nem sabia das promessas de beijo que  dedicaríamos através dos séculos.
Hoje, atravessamos juntas os corredores do tempo. Transpiramos emoções.
Hoje, o relógio para dentro da solidão desse silêncio. Aqui também as pessoas desviam o olhar enquanto medem a pressão, temperatura e procuram a veia melhor para o procedimento. Já vivi isso antes e parece que tudo está se repetindo – os mesmos gestos, os mesmos olhares e a mesma resignação de antes – e ainda assim é tudo diferente.
A sala está vazia e a moça que está sempre por aqui antes de mim não veio. Ela melhora o ambiente com o lenço vermelho que eu sempre brinco que ela roubou de mim. Contou-me coisas da vida dela. Meu deu risos de confiança e durante um momento difícil segurou minha mão e cantou canções para eu dormir.
No fim de semana as coisas acontecem devagar. Em algum lugar, toca uma canção do momento. Um celular dá o bip de alguma notificação e eu conto os minutos. Queria que tudo fosse rápido e passo a vigiar o relógio diminuindo o tempo que falta.
Não queria falar sobre isso, nem com você nem com ninguém…mas sinto que te tranquilizo quando repito que a esperança fica aqui do lado da porta e sai comigo de mãos dadas quando tudo isso acaba e daí, durante a semana me faz companhia todos os dias, exceto quando atravessa o oceano e vai até você.
A moça de branco repete os rituais e parece indiferente ao meu olhar. Volta os olhos para suas anotações em uma ficha que tem meu nome e um código que não define o que tenho. Confesso que isso, todas as vezes, me lembra Clarice e seu poema : “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome” e como eu não sei o nome posso dar o nome que eu quiser.
Agora, preciso ir…a esperança, às vezes, é impaciente e serelepe igual criança.
A vida é esse bem precioso que se torna muito melhor quando temos a certeza da presença de alguém que amamos, mesmo tão longe.

Beijo,

Mariana

Participam do projeto Missivas de primavera, os autores:
Adriana Aneli: www.adrianaanelicosta.com
Lunna Guedes: https://catarinavoltouaescrever.wordpress.com
Tatiana Kielberman: https://meusabismosfaceis.wordpress.com/
Chris Herrmann: http://www.christinaherrmann.com/
Mariana Gouveia: https://marianameggouveia.wordpress.com
Manogon Manoel Gonçalves: http://coisasdemanogon.blogspot.com
Emerson Braga: http://embusteiroviajante.jimdo.com/
Ingrid Morandian: https://www.facebook.com/ingrid.morandian?ref=ts&fref=ts

5 comentários em “O silêncio aumentou tanto que o relógio parou

  1. mariel disse:

    Já desejei muitas vezes ser invisível. É um sentimento estranho, seria um poder extraordinário. Sobre este outro aspecto, o de pessoas tentando ser invisíveis, é bem estranho e elas conseguem como tu capturaste

    Curtido por 1 pessoa

  2. Lunna Guedes disse:

    Fiquei aqui em suspenso, como se fosse a Ana… nome de minha nona, a quem chamou ‘don´Anna’. Fui participando de sua realidade e de repente, me ocorreu que aqui choveu no meio da tarde de ontem e eu não ouvi trovões. Pensei imediatamente se a previsão se cumpriu por aí. Disseram que não haveria chuva nessa semana, mas a segunda contrariou a tudo e todos, para variar.
    bacio en tuo cuore

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    • Mariana Gouveia disse:

      Houve trovões e vento, bambina e eu chamei teu nome. Mas a chuva, essa foi levada em direção ao Sul.
      De certa forma, as previsões aqui nunca se cumprem – ou quase nunca – com exceção do calor intenso.
      bacio mille

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