uma porta que me leva a outro lugar

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E eu digo: “abraça-me”. E os teus braços fazem-se.
E eu digo: “abrasa-me”. E tu fazes-te em braços.
Joana Serrado

Ana de Marte, da vida, do céu, do mundo…

Mais uma vez volto ao seu lugar e refaço instantes que vivemos. Os dias perderam a noção de tempo desde que você se foi.
“O infinito é logo ali, Maryann…” – repito a frase dita tantas vezes por você diante do céu, olhando as estrelas, diante do vento a rodopiar redemoinhos dentro do seu cabelo.
Às vezes, perco a noção do ano de sua partida e ao mesmo tempo parece que foi ontem e muitas vezes parece que ouço sua voz a gritar do outro lado da rua e seu riso ecoa nos seus quintais.
“ Meu quintal é o mundo, Maryann… passeio pelo mundo afora dentro das coisas…” e falando isso, desenhava no ar os corações que te marcou em vida.
Era coração em tudo quanto é lado. Na rua, nas folhas, nas coisas. Hoje, seu quintal ganhou mais mudas. O novo inquilino resolveu decorar de vida sua casa. Pintou de azul turquesa as paredes e a janela que dá para a rua está branquinha e tem gerânios em vasinhos coloridos e quando venta a cortina lilás balança. Ele diz que cuida da casa como se ainda fosse sua e ele tem certeza de que é e por isso, de vez em quando me deixa entrar. Deixa também a chave no mesmo lugar. Debaixo do tapete onde a vida dá as boas vindas ao dia.
A goiabeira deu frutos e os pássaros fizeram um ninho no pé de jabuticaba. Tão frágeis os fios enrolhados no galho mais fino e ao mesmo tempo tão visceral. Ver vidas nascendo ali, onde você esparramava amor em cada fruto. Tem você aqui em cada canto. Parece que a música que toca na casa da vizinha é a mesma que você cantarolava nas noites de estrelas.
Sabe aquele vão entre o galho da amoreira e o pé de goiaba, que abria espaço justamente para quando a lua nascia além dos muros? Pois é, continua nesse vácuo esse espaço.
E parece uma porta que me leva a outro lugar.
A vida apronta algumas coisas com a gente. É como se eu repetisse a sua história…mas lembra-se da parte que eu sempre disse sobre mudar os finais? Eu acredito muito.
Tenho que te contar que voltei ao cerrado. Vi o Universo do ponto onde os ventos uivam e de lá, enviei-te o abraço que envolve todos esses dias e é dentro dele que cabe minha saudade.
Marte mora logo ali, em um ponto focal do céu e é nesse ponto que mora minha esperança.

Beijo

Maryann

Esse post é parte integrante do projeto ‘missivas de primavera’, que conta também com os autores:

Adriana Aneli: http://www.adrianaanelicosta.com/
Lunna Guedes: http://catarinavoltouaescrever.wordpress.com/
Chris Herrmann: http://www.christinaherrmann.com/
Tatiana Kielbermann: https://meusabismosfaceis.wordpress.com/
Manogon Manoel Gonçalves: http://coisasdemanogon.blogspot.com/
Emerson Braga: http://embusteiroviajante.jimdo.com/
Ingrid Morandian: http://www.facebook.com/ingrid.morandian/

 

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