Caminho… E atrás de mim caminham as estrelas até seu próximo amanhã…

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O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas.
Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X.
Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia.
Comeu em meus livros de prosa as citações em verso.
Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
João Cabral de Melo Neto.

 

Querida M.

Hoje, somente hoje, eu resolvi cumprir aquela promessa antiga de te escrever pelo menos uma vez a cada mês…

Devo dizer que aquela canção que você gostava toca em alguma casa por perto e a sensação de cheiro de cravo invade meu lugar… tudo parece tão igual e tudo está diferente – essa era uma frase que dizíamos entre risos e gargalhadas – igual nós, você diria…

Você deve se perguntar por que só agora resolvi escrever e sei que também vai dizer as mesmas coisas de sempre – “ainda bem que escreveu… Podia ser nunca. Hum”! – e vai beijar o envelope colorido muitas vezes…
Talvez seja essa mudança interna que avança em mim… talvez antes não tenha sido o tempo. Talvez tenhamos falado demais nesses últimos dias… o fato é que a promessa está sendo cumprida e ponto.

Nesses dias de ajuste de alma passei a relembrar nossas vidas, nossos encontros e toda alegria que levávamos vida afora. Lembra-se daquele tempo em que saíamos na rua a tocar campainhas e descíamos a ladeira da Rua dos Cravos entre risadas ofegantes e sentávamos na calçada alta onde chupávamos o picolé colorido da D. Lídia? Vi um picolezeiro hoje e não há mais aquele picolé multicolorido… ele riu da minha indagação e tive de contar nossa pequena história e de como o sabor era diferente dos de hoje.

Contei das gargalhadas que espalhávamos pelas ruas do bairro e de como fomos obrigadas a ajudar o moço árabe a cuidar do jardim dele por alguns meses – forçadas – e alguns deles por puro amor ensinado.
Já revivi aquele dia que sempre me pareceu surreal umas mil vezes. Você descia a rua em direção ao centro e chegava sempre no lugar marcado com um cravo chinês na mão. Fazia reverência à palavra “chinês” como se a flor não tivesse sido furtada do jardim imenso do “seu” Abdo até o dia em que foi pega e para não te deixar ir só, arrastada pelo braço até a delegacia do bairro assumi ser a ladra dos cravos… como odiei aquela flor, ali, quase murcha em sua mão e seu olho de súplica até meu pai chegar e nos tirar daquela encrenca perante os “olhos raivosos” do árabe, que ria disfarçadamente quando nos perguntaram  para que roubávamos os cravos e entre dentes eu disse: para comer…

A gente comia tudo… “Já comeu o amarelo das flores? Faz com que a gente nunca envelheça…”
E depois da bronca fingida do meu pai ficamos de castigo e tivemos de ajudá-lo a cuidar do jardim durante longos meses e o incorporamos em nossas risadas, depois de dias intensos de aula de jardinagem.
Talvez daí tenha surgido minha paixão pela terra, pelas sementes e pelos árabes.

Como a vida era simples no seu gargalhar e como era lindo sua ida, já tarde, depois do jantar para sua casa. Você levava luz por onde andava. Eu ficava na ponta dos pés, na calçada alta, vendo-a virar a esquina da Rua dos Vaga-lumes… você deixava seu rastro dentro dos meus caminhos e hoje ainda sinto tua presença por onde ando.
O caminho que faço tem a mesma leveza de antes… e atrás de mim caminham as estrelas até seu próximo amanhã…

Beijo meu

Mariana

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