71. da estação das águas

Com o tempo das águas acontecendo os animais se aproximavam mais das casas.

Um dos mais mansos era o joão de barro, que ao aparecer arrancava de meu pai a lembrança da música que falava sobre o pássaro:

“O João de Barro pra ser feliz como eu
Certo dia resolveu
Arranjar uma companheira

No vai e vem com o barro da biquinha
Ele fez uma casinha
Lá no galho da Paineira

Toda manhã o pedreiro da floresta
Cantava fazendo festa
Pra’quela que tanto amava

Mas quando ele ia buscar o raminho
Para construir seu ninho
O seu amor lhe enganava

Mas nesse mundo o mal feito é descoberto
João de Barro viu de perto
Sua esperança perdida

Cego de dor trancou a porta da morada
Deixando lá sua amada
Presa pro resto da vida

Que semelhança entre o nosso fadário
Só que eu fiz o contrário
Do que o João de Barro fez

Nosso Senhor me deu calma nessa hora
A ingrata eu pus pra fora
Onde anda eu não sei”

Lembro-me que ao terminar a canção ele se emocionava, como se a própria história do pássaro fosse parte da dele – o que nem era o caso.

Uma das coisas que nos ligavam à ave era onde ele fazia a porta da casinha e segundo meu pai, as tempestades viriam do lado contrário – o joão de barro tinha a ciência de saber de onde viria os ventos naquele ano – assim, ele reforçava o paiol, o telhado ganhava um cuidado especial e a porta amarrada com mais força.

Em alguns anos, o vento era mais forte e a tempestade violenta. Em outros, a chuva chegava espaçada e mansa… o joão de barro construía aleatoriamente casas em vários galhos da paineira na frente da casa e nesse ano, meu pai sabia que seria instável a estação, podendo chover menos ou mais, já que sempre media a estação pela maneira que o engenheiro da floresta construía sua casa.

Mariana Gouveia
71. da estação das águas
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12 comentários em “71. da estação das águas

  1. Maria de sa disse:

    Mais um momento de recordações com o seu encantamento

    Maria

    Curtir

  2. Lunna Guedes disse:

    Em viagem pelo interior, no tempo das pesquisas para ter um ‘lugar-casa’ para Alexandra, cheguei a Monte Mor. E lá, ao atravessar uma estrada entre plantações de tomates, me deparei com uma árvore lindíssima e em um de seus galhos, uma casinha de barro. Tão linda. Tão incrível. Parecia tão improvável. Foi mágico. Adoro lembrar coisas minhas e misturar as suas. rs

    Bacio

    Curtido por 1 pessoa

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