110. dos aleatórios de Abril

Havia roteiros de lua no quintal. Um vaga lume invadiu a sala e chamou a atenção do cão – logo ele que gosta de correr atrás da luz da lanterninha vendida nos ônibus – foi um achado! Teve de contê-lo e socorrer aquela luz que voava.

Procurava no céu alguma coisa que estivesse escrito nas estrelas. Elas desenham o caminho de Santiago – alguém disse um dia – desde então, lembra-se disso quando olha para o céu em noite de lua e estrelas. Depois disso, sonha em fazer o caminho de Santiago e já desenhou o mapa quinhentas vezes mentalmente e outras quinhentas vezes no papel. De tão lindo que ficou, pensou em bordar.

Olha para o Cruzeiro do Sul e vê Vênus quase na ponta da Lua – um piercing ou um riso disfarçado de Lua –  no quadrante leste do céu.

Relembra coisas da infância. Das regras que seguia em relação à lua. O cabelo – sob recomendação séria da mãe – só poderia ser cortado na lua cheia. Era assim que os cabelos das índias ficavam fortes e bonitos. As pontas poderiam ser tiradas na lua crescente.

As rosas brancas deveriam ser replantadas na lua nova. O feijão, colhido durante a minguante de Maio – evitava perdas, o pai dizia –  e fazia o feijão não carunchar. A macela, colhida na lua cheia específica da sexta-feira da Paixão para fazer chás potencializava a cura.

Tudo na vida dela fora um ritual de datas lunares e solares.

De cores e de sabores. De magia e expectativas.
Quando deita no chão do seu quintal, refazendo o mapa das estrelas que indicam o caminho para Santiago, revê esses instantes que fez de sua infância uma riqueza só.

Os rituais ficaram marcados – segue até hoje – Deus a livre apontar o dedo para uma estrela. Apesar de ter ficado lá atrás a lenda de que se fizesse isso, nasceria uma verruga na ponta do dele.

Fica horas ali, todas as noites. É um momento único de lembranças que vão e se recriam no doce modo de espiar o céu.

Sabe desenhar cada coisa sentidas nas fases que a lua inventa em seu caminho no céu.
É o ritual que segue quase místico na essência de viver.

Mariana Gouveia
110. dos dias aleatórios de Abril

Anúncios

2 comentários em “110. dos aleatórios de Abril

  1. Lunna Guedes disse:

    Quando criança, subia no telhado de madrugada (C., fingia que não sabia que eu fazia essa arte e eu acreditava ser um segredo meu e das estrelas). Ficava lá a nomear as estrelas porque não gostava dos nomes dados pelos homens. Havia uma Mariana lá porque esse nome surgiu em mim aos sete anos. Não eras tu, mas era estrela, então imagino que se conheçam e naveguem por um mesmo céu. Havia outra Ana também, perto a lua, que era a Don´Anna, nome de minha nona que me ensinou que as estrelas quando morrem, caem apagadas em algum lugar e não se deve fazer pedido, apenas calar-se.
    Enfim, cada céu nos alcança em uma parte nossa de mundo e a gente celebra a nossa maneira. Se eu fechar os olhos, eu também sou cadente… aqui dentro.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s