The end

The end

“The end” – foi isso que sobrou.

Resta em mim essa ternura, essa vontade de começar tudo de novo…
e o seu silêncio a ecoar canções dentro de mim.

Resta essa vontade de chorar e essa raiva… não sei do que e nem de quem.
Mas principalmente de mim.

Resta esse conhecer absurdo do que é sonhar e esse medo estranho de que a palavra esperança suma de vez da minha memória e da minha vida.

A canção que você gostava repete e repete e de tanto ouvir, já sei de cor as palavras, o ritmo…
Me proponho a ouvir pela última vez a sinfonia, e de tantas vezes ouvir e outras tantas acompanhar, eu já sabia de cor as suas palavras, e ia repetindo dentro de mim, antecipando a última, que seria o fim, sabendo que tudo o que é lindo precisa terminar.

Ah, eu fiz tudo que eu nunca fiz… eu cantei, eu dancei, eu teimei, eu… eu… eu te amei.
Não!
Eu te amo! Eu te amo com todos aqueles exageros de poetas em poemas de amor.
Te amo com a melodia soando no meu íntimo… Eu te amo com esse exagero louco do signo, com todos os desígnios doidos do destino.
Eu te amo com a melodia na pele a gritar claves na tatuagem de voos e sons em mim.

A música é bela porque a vida é rápida e não dura mais que o tempo da melodia… e você repete e você repete até saber de cor a hora que ela se encerra. E a memória te grita. E a memória me queima e me dá raiva.

Até o beijo… Dá raiva dos beijos que dei, dos que nem cheguei a dar e dos que não darei. Porque já é o fim.
Um dia te disse que te beijaria para sempre e você me recitou uma parte de um poema lido em algum lugar que não me lembro de onde:
“Que amante suportaria um beijo que não terminasse nunca?”
Que amante ia querer eternamente esse queimar, esse molhar, esse afago, esse voar de borboletas na barriga?
Que amor iria querer durar até o fim sem viver outro amor?
Que ouvidos iriam querer ouvir só uma voz e uma única canção?
E eu não soube te responder.
Daí, você muda a palavra para saudade. E muda a canção e vê na melodia a saudade. Chega a mastigar. Chega a doer… (ou você achou que podia ser feliz pra sempre, sua boba?)
Finais felizes só existem no cinema, em novelas e em livros e você não vive livros, nem novelas, nem histórias. Você vive ilusão.
Te vendem ilusão. E você compra. E de repente você se vê só, em meio à solidão e descobre o que é sentir falta. A saudade só floresce na ausência.

Floresce e você vive com medo de que morra. De que essa sensação te sufoque e ao mesmo tempo deseja que isso aconteça. E que a vida seja flor e que você seja flor sempre na minha vida.
É na saudade que nascem os poemas mais bonitos – um dia você me disse isso – É como a melodia que ecoa em voz e som… e nessa hora te vejo em tudo que toco.
Um dia te verei de novo?
A pergunta explode dentro de mim e me lembro de que te disse sobre isso uma vez em um poema que escrevi. Divino é o reencontro. É como o céu que se abre e aos poucos oferece todas as estrelas.

Porque eu desejo viver tudo isso de novo. Até mesmo essa saudade.

Então, diante de tudo isso o que me resta é esse monólogo dizendo tudo que sinto e queimando as últimas palavras que não me disse, fazendo de conta que nunca foi embora. Abrindo a porta para que a cada rumor de barulho pudesse entrar mais uma vez e tomar posse de mim e do meu amor.

E eu, na minha cabeça de vento declamando em silêncio o último verso: the end…

Foi então que, no último momento, o imprevisto aconteceu: parece que a música recomeça e eu acredito que o repeat errou… talvez tenha achado tudo tão bonito e tenha encontrado inspiração e era tudo um teste para ver o tamanho do meu amor e ali ficou a voz de Bethânia cantando Drama, repetindo palavras:

“Eu minto, mas minha voz não mente
Minha voz soa exatamente
De onde no corpo da alma de uma pessoa”.

E eu vou lá e desligo tudo. Apago todo resto que pode me ligar a isso…
Depois disso foi o silêncio.

É bem possível que o último verso tenha sido o primeiro…
mas eu quero tudo isso de volta…

Mariana Gouveia

 

*fotografia: Adam Klaus

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2 comentários em “The end

  1. Cláudia disse:

    “A saudade só floresce na ausência” Saudade de quem sou porque de tanto me ausentar sinto uma dor de saudade de não sei o que.

    Curtido por 1 pessoa

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