4 – Conduz-me ao precipício onde hibernou a alma

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“Havia duas maneiras de partir: uma era ir embora, outra era enlouquecer”.
Mia Couto

                                                                                                                                     Querido abismo,

Hoje, mais uma vez estou de frente para você, na tentativa do pulo ou da coragem de enfrentá-lo. Você tão desafiador, mais uma vez me oferece colo, espaço e eu, tão cheia de liberdade arrisco essa carta como se pudesse voltar atrás, recontar histórias, recriar recomeços, mudar rumos – sei que não posso – mas posso modificar caminhos a partir daqui.
Você já conhece os telhados por onde em noites seguidas encarei para vigiar o céu e as estrelas – você estava sempre ali, à frente da escada – enquanto eu, fascinada olhava o espaço infinito.

Também já sabe das montanhas que avistei… longas horas a ver sua imensidão e sua cor disfarçadas nas cores das árvores e o verde a convidar para o abraço.

Já te enfrentei algumas vezes… atravessei vales inteiros, desci colinas e senti seu toque a me abraçar. Devo confessar que você é tentador.

Nas noites de insônia, você surgia absoluto, incógnito e tolerante… Única opção madrugada inteira, vigia constante das minhas dores e fraquezas.

Hoje te encaro, olho no olho… sem vacilo, chego mais perto daquilo que me oferece e estendo a mão… quase um toque em seu vento oscilante e convidativo.

Você não sabe, mas me fortalece, com sua presença intrigante, sempre a me entregar a amplitude pela qual sempre lutei e seu nome muitas vezes, vem disfarçado de liberdade.

Você me enxerga normal, com medo e me faz ter coragem sempre que te enfrento. Me lembra todas as vezes que o medo rouba sonhos e me instiga ao pulo…

Me instiga diante de sua presença – você tão gigante – e me oferece a opção de escolher. Posso ir embora e reconhecer meu ponto fraco diante de sua magnitude… Devo dizer que você é o precipício e que a loucura seria minha companheira, se eu permitisse… Que minha alma se esconde dentro de sua palavra, como se buscasse acalanto.

Mas eu não permito e não aceito seu chamado voraz em cada instante que me aproximo de seu espaço, mesmo porque o espaço é meu e sou eu a dona das minhas vontades. Você é apenas uma das coisas que tenho de enfrentar e encarar nesse mundo de cão.

Eu aceito sua presença infinita em mim e nessa hora, me permito ao voo.

Mariana Gouveia
Projeto Missivas de Abril
Scenarium Plural Editora

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6 comentários em “4 – Conduz-me ao precipício onde hibernou a alma

  1. Maria de sa disse:

    Um momento de grande reflexão

    Adorei

    Maria

    Curtido por 1 pessoa

  2. Se eu amei? Nem tenho palavras pra descrever o quanto… ❤

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  3. 0819claudiacap disse:

    Republicou isso em Título do site.

    Curtido por 1 pessoa

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