143. dos dias diferentes dos outros dias

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É noite já.
O rádio lembra o tempo passado.
E o locutor detalha a programação do dia que passou – recordo a novela antiga que minha mãe gostava – e a previsão do tempo muda constantemente e eu espero a moça do tempo anunciar a mudança da estação. Júpiter hoje esteve próximo daqui. Consegui vê-lo logo além da linha do horizonte. Contei a miudeza das coisas e falei da árvore seca, vazia também de folhas e com jeito de ave a desenhar a noite em um inverno fingido. Preciso de uma noite menos fria em que não sinta a agonia de um dia a mais que morreu. O calendário que não tenho me apressa na rotina no silêncio das horas. É preciso dizer que as lembranças são marcas na pele e os minutos inventa o sono para eu atravessar a noite mais depressa.
A insônia povoa noites vazias… e a solidão acontece a céu aberto.

Havia aquela cidade famosa onde eu desenhava nas paredes os poemas e as flores tortas que a gente ia dividir na estação e os cheiros a invadir a noite. Era sempre noite quando eu viajava. As luzes a derramar as cores pelas ruas e as pessoas estranhas a cruzarem a avenida imaginária no meu quintal. Ouvia Bruna Carlile todas as noites, a janela aberta como agora, e o cruzar os pés um sobre o outro para que a noite voasse só para eu te encontrar em mais uma carta na manhã seguinte. Começavam então, precisamente aí, as noites menos escuras e as cartas escritas em noites vazias.

(Porque elas, as tais noites vazias é a forma das menos escuras e das cartas escritas em vão…e a tal música que ecoa é essa vontade de fugir para onde todas as coisas são possíveis]

Mariana Gouveia
143. dos dias diferentes dos outros dias

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2 comentários em “143. dos dias diferentes dos outros dias

  1. Uma coisa, besta e boba, mas uma coisa: minha mãe ouvia e aguardava as novelas radiofônicas, onde ela desenhava as feições das personagens a seu feitio e tenção. Tá, também eu, que era cúmplice dela. O único talvez. E tá, quer saber outra coisa? Eu também espreitava os céus esperando por Marte no verão, vermelhiço, pela Estrela D´Alva que depois me contaram que era Vênus, que os gregos chamavam Calixto: a mais bela. E também as Três Marias, que meu tio Pedro ( que era feito de pedra e era doido) me contou que pertenciam a Órion. E Sirius, a mais brilhante do céu depois de Vênus. Agora, Bruna Carlile, essa você ficou me devendo. Indique, explique, mostre! Perceba que a intimei. Por fim, a joia, a gema que eu garimpei: “a solidão acontece a céu aberto”. Você tem verve, moça!

    Curtido por 1 pessoa

    • Mariana Gouveia disse:

      Fiquei dias a mastigar seu comentário. Engolindo as palavras e delirando com as coincidências…
      Falar de sua mãe foi como trazer sua casa para minha casa…Essa semana, a Estrela D’Alva esteve radiante na madrugada. Foi de suspirar. E mais uma vez, a coincidência… Meu sobrinho se chama Pedro e é doido de tacar pedra em sapo…
      Já Brandi Carlile é muito mais do que voz…

      Já a ouvi e cantarolei em suavidade, em alto e bom som (coitado dos vizinhos) e é o toque do meu celular.
      Intimação aceita!
      Ah, moço… isso de solidão mexe comigo sempre.

      Grata infinitamente!

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