167. da geografia das coisas

o que eu conto de mim tem a parte daquela rua, onde o rio se dobra e o chuá chuá sopra ao ouvido enquanto durmo.

o que eu escrevo tem esse riso de irmão sentado na porta
contando meus defeitos e olho molhado de amor.

metade de mim no cabelo branco, com a ruga na testa, suor da sua pele magra, que o tempo contou nos dias.

o que carrego é essa história

e a terra a cavoucar meu pé…
é a lembrança de quem está aqui e não está.

o irmão que mora longe e a voz ecoa reclamando ausência.

o que eu conto de mim
é esse riso solto,

a colina a desvendar as sombras.
com os codinomes de uma fada louca

que desenhou histórias nos meus dias.

o que conto de mim
tem o cheiro do pai.

o leite servido na caneca esmaltada
e a poesia que eu pesco,
o ombro ali,
e na boca que pronuncia o silêncio.
toda vez que a gente fala de amor.
é tudo uma reza cantada.
o avesso da pele – aquele que ama mesmo sendo tudo mentira –
e o som do pássaro e a ave exótica a cantar no quintal.
o que conto é o terço em todas as cores espalhadas entre o dia que acontece dentro de mim.

Mariana Gouveia
167. da geografia das coisas

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6 comentários em “167. da geografia das coisas

  1. Lu Amorim disse:

    Quanta intensidade e marcas de saudade… Belo, muito belo!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Lunna Guedes disse:

    O que você escreve é vida, passo, abraço e eu me encaixo em cada linha.

    Curtido por 2 pessoas

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