197. da autonomia dos voos

O azulejo da cozinha, o criado mudo, a mesa posta para o café.
A porcelana esquecida no canto e a noite e seus vazios… e… e…
Esqueço-me de que a estação da flores é a primavera e nos dias de quase inverno e outono seco ( as estações se misturam meio dia e meia) e o vento invade os aposentos da casa quando o sol doura tudo que é canto. Meia noite e meio e ainda a luz detalha o canto das cortinas.
É preciso coragem para retirar os panos que tapam os porta-retratos. Pessoas conhecidas dentro de mim mesma e aquele postal do seu lugar. Um estranho postal no meio da parede a murmurar seu nome durante a noite inteira acompanhando o tic tic do relógio e o ponto turístico daquela cidade em que sonhamos conhecer e andar pelas esquinas de mãos dadas enquanto você pronuncia o idioma repetindo os versos da canção.
A mão espalhada acolhia o ser que voa e na escuridão a asa perde o poder de direção. As aves, intactas, desabitadas em seu modo de voar.
Conversa com os pássaros entalhados, para ensinar que voar não tem segredo, mas ainda assim, perdeu a autonomia dos voos enquanto o pouco céu for a estante como morada.

 

Mariana Gouveia
197. da autonomia dos voos
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2 comentários em “197. da autonomia dos voos

  1. Mesmo na estante, acolhem. Voam no coração!

    Curtido por 1 pessoa

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