205. da autonomia dos voos

O calor no rosto me leva para outra cidade  – aprisionaram o vento dentro da intensidade da palavra –  foi uma cerimônia bonita. O rio e os envelopes rasgados. O canto da ave num dia triste. A febre e a ilusão do delírio.
Havia qualquer coisa de estranho no objeto bordado. O pássaro desenhado como se lembrava na memória obscura da pele. O toque da pena a dimensionar o voo.
Dizia que sem pressa devia partir. Ou esperar. Ou ir e voltar – esquecia da última frase da carta.
Mas sentia na ponta dos dedos, apenas essa solidão esférica. De cidade vazia e de rio longo e serpenteado perto das margens de onde avistava os papéis que não enviara a rodar, como se fosse de encontro ao mar. Como se morresse de fome e sede – e não havia nada para matar a fome. A vida seca, úmida de alma.
Invento as escalas do mês. O mundo acontece dentro do milagre.
O ausente fica fica lindo assim distante. O voo não dado é o que me leva a querer esse cheiro terrestre infinito… onde o vento apenas se finge de sopro.

Mariana Gouveia
205. da autonomia dos voos

 

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