215. da impressões do dia seguinte

As ruas têm a cor das pétalas que douram o chão.

Alguém fez um grafite no muro da rua de cima e a ave sente a mudança da estação. Daqui a pouco será primavera e o tempo ainda insiste em não passar.
Amanheceu com o vento e o frio invadiu a árvore. Escrevi uma carta mentalmente – talvez eu escreva ela, de fato, amanhã.

Penso no bordado que desenhei no tecido, exposto, abandonado sobre o criado mudo, entre as linhas coloridas que vão criar os matizes do voo do pássaro e as agulhas espetadas à espera de minha vontade – ou tempo.
A janela revela o brilho miúdo do sol entre a cortina. Uma sombra ensaia um coração preso na folha, enquanto meu olhar se engana com o que vê. Como se a sombra saísse do anonimato da sombra e se tornasse personagem principal de uma manhã insólita. Era a moça de branco a pedir silêncio num cartaz exposto no corredor.

Pétalas voam na rua… era ali que eu estava, caminhando em direção ao vento e o grafite na rua de cima e a canção que o moço da reciclagem ensaia em palavras de amor e um laia laiá sem ritmo. Apenas as rodas da carrocinha que ele empurra a ranger o lamento do peso.

Parece que as pétalas estranham o asfalto – ali, duro e estranho – não percebe a leveza do toque. Daqui, posso ver os meninos que vão para a escola, contando histórias de um game novo. O pássaro de todo dia dentro da vontade de voo e eu a caminhar sobre o dourado das pétalas do ipê que vi crescer na rua de cima. Quase cheguei a catalogar cada folha dele, que se tornava miragem em outros meses que não esse – agosto – onde o ipê generoso doa sua beleza por pouco tempo. Olho para a árvore agradecida e abraço o tronco da árvore que amanhã não terá mais nenhuma flor. Todas irão se desgrudar dela e o vento levará a flor empurrando – as em direção ao muro, com seu grafite feito pelo menino que fez a minha tatuagem como se desenhasse um dos meus bordados.

Ainda tenho uma bala de doce de leite na bolsa e a palavra doce me abraçará amanhã. Talvez, você volte com a saudade amarrotada, desdobrando meus envelopes rasgados feito tsurus de papel. Talvez, desses envelopes saia um coração laranja. Talvez essa seja a carta de duzentos gramas de palavras, caso a saudade aperte. Talvez o ônibus se atrase e eu possa acompanhar o movimento da flor amarela a dobrar a esquina da rua de cima. Talvez, a senhorinha que me chama de anjo e que pega o ônibus na saída do bairro e para qual eu ofereço o banco e acha graça de descobrir que escrevo poemas e ri quando me pede autógrafo em um livro meu que achou por aí. Talvez.

Se eu dissesse amanhã que a previsão do tempo seria uma procissão de estudantes com cartazes de protesto e que eu me encantaria com as borboletas nas flores do ipê que dourou a rua de cima e que deixei um livro no banco do ônibus e que quem achou foi justamente a senhorinha que me chama de anjo, você diria que eu pintei um dia feliz?

Descobri numa outra rua que a calçada era forrada com as flores rosas, do mesmo ipê que fotografei outro dia e que perguntei infinitas vezes onde vão parar todas essas ruas que a gente não cruza e essas árvores que dão sonhos e histórias que nunca te contei… histórias desses corredores onde a dor é quase bonita diante da força de cada um que escreveu a frase: venci. Em letras coloridas e risos fáceis de quem perdeu o cabelo e nunca perdeu a fé.
Eu diria que eu apenas tive impressões do dia seguinte.

Mariana Gouveia
215. das impressões do dia seguinte

Anúncios

8 comentários em “215. da impressões do dia seguinte

  1. biancamenti disse:

    Que maravilha de texto, Mariana! 🙃

    Curtido por 1 pessoa

  2. Viajei em cada rua que você passou.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Um de seus melhores textos, ouso dizer, assim, com este atrevimento besta meu, de quem pensa que sabe entender. Mas o texto: foi daqueles que li com prazer que há muito não encontrava. Um texto todo sensorial, imagético, quente. Não, quente não, íntimo. Sei lá. Lembra quando eu falei do ritmo, da pulsação do poema? Poisintão. Ói só. Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Lunna Guedes disse:

    Ah, solucei aqui a imaginar esses caminhos-ruas que a gente não anda.
    Calei

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s