216. das impressões do dia seguinte

Podia surgir dentro da noite  a estação das flores e as sementes colhidas no jardim.

E em todos os jardins, o cravo chinês da infância, quando pela primeira vez e por causa do cravo, foi parar na delegacia.
Havia arrancado a flor no jardim do moço que se chamava Abdo e a mãe passava roupas para a família dona da loja de brinquedos.
O moço a falar em uma língua que não entendia – sabia apenas que estava bravo – e que queria a flor de volta. Como colocar uma flor de volta do pé onde foi arrancado?
A flor seria para mostrar para a mãe que no Inverno as flores podiam brotar e fazer ela compreender que em uma estação o gesto entre duas mãos era mais oferta do que encontro.
Era como se fosse urgente colher a flor, logo ali, e a mão a estender como uma prece. Falou com voz tímida sobre como a mãe iria gostar de ver a flor a brotar no quintal dela, onde borboletas voavam como se ali, a flor fosse parte do inseto e o inseto, parte da flor.
Depois, as mãos, justapostas, em oração, para que a mãe não aparecesse em frente ao delegado e perdesse de vez o emprego na casa do moço que falava estranho.
Alguma coisa aconteceu e a flor ficou ali, na mesa da delegacia, enquanto o moço de linguagem estranha se embrenhou noite adentro pela rua. Olho perdido no jardim.
E no dia seguinte, haverá borboletas sobre a flor a mostrar a delicadeza do pouso, mesmo quando a vontade será de voar.
Mariana Gouveia
216. das impressões do dia seguinte
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