267. Entre uma estação e a primavera

 

Perto da janela desejou voltar no tempo, costurar pedaços pequenos de lembranças na memória.
Sentia que esquecia, às vezes, as sensações que viveu.

Tocou o céu com os olhos. Lembrou das chuvas. Mexeu nas anotações da mesa. Sentiu saudades. A flor, quase sol em giro, trazia à memória os poros. Miúdas flores como se fosse pele. Digitais.

No canto do lugar –  o cheiro – como um arqueólogo vasculhou antiguidades dentro dela. Revisitou estações noites inteiras.

Pele, toque, mão. Os sentidos aguçados no instante de amar.
Ela – artista –  quando a amo e desenho partituras em seu corpo.

Um modo de amar é assim. Na loucura que herdou.
Em silêncio e cansaço. Em guerra e paz.

Da pele – a palavra – de um dia que se abria e que não havia código a decifrar…
Era apenas ela e mais nada.

 

Mariana Gouveia
267. Entre uma estação e a primavera

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2 comentários em “267. Entre uma estação e a primavera

  1. Maria de sa disse:

    Tocou o céu com os olhos. Lembrou das chuvas. Mexeu nas anotações da mesa. Sentiu saudades. A flor, quase sol em giro, trazia à memória os poros. Miúdas flores como se fosse pele. Digitais.” Bateu fundo na alma .

    Maria

    Curtido por 1 pessoa

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