282. das infinitudes

282. das infinitudes

Era como escrever poemas na pele dela – usar os dedos como tinta e amanhecer lilás depois da madrugada intensa – pintar devaneios entre a nuca e o cabelo.
Caçar a solidão que existe na menina daquele olhar.
Tatear a pele, esculpir vontades e ir decorando textos obscenos que ela diria se estivesse aqui.
Citaria Anaïs Nin, se não misturasse os poemas, ou apenas ficaria em silencio para ouvir a respiração.
Olhou a mesa com as coisas banais. A panela preta que era da mãe. Virou objeto de decoração, ali, no mesmo lugar onde a ama todo dia. A bandeja com os medicamentos que toma. Isso a fez lembrar que era dia – hoje – de ir buscar mais.
O pacote de pão.  Riu ao se lembrar do pão que gerava uma longa conversa entre o pão daqui e o pão de lá.
Tudo isso ocupa agora lugar na mesa.
Veio a vontade absurda de jogar tudo fora. Fazer aquelas cenas de filme.
Conteve-se.
Voltou a desenhar rotinas no corpo dela. Sabia de cor os caminhos todos. A textura, o convite da boca. O olho de fome e essas vontades todas.
Era como escrever poemas na pele dela. Era apenas a cadeira na solidão vazia.
E no silêncio de minhas palavras ela quis ir.

Mariana Gouveia
282. das infinitudes

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s