327. das fragilidades secretas

Recebeu cartas de quem partiu.
Era puro amor além das palavras – tem dia em que o carteiro vira Papai Noel e espalha boas novas sem a música do: “então, é Natal!”- e a vozinha da menina ecoa ali, além das palavras. Fala do pássaro de todo dia. Usa o mensageiro que bagunça o cabelo – o mensageiro era o vento, esse menino torto que faz traquinagens no quintal – assobia e leva o cheiro das frutas para a rua de cima e traz de lá o cheiro dos bolos assados, nessa troca incessante de amor.
A árvore é esse corpo cheio de aves. O bem querer quase me viu.
Na rua de cima, o céu é livre e tem gente com desespero de liberdade. Tudo é direcionado de acordo com o movimento do vento. Até asa voa…

As aves da alma flutuam como se pudessem voar. O casulo da vontade, preso na liberdade da metamorfose.
Seria a nuvem atravessadora de ritmos? Era quase dança o movimento do vento na árvore seca… na rua de cima, as árvores respiram o verde que nem veio. Era apenas um desenho no muro, tatuado o nome incluso no meu e a encruzilhada onde as estradas se dividem entre o poder e o querer.
Tem noites que as árvores perdem o sentido de raiz. Tem noites em que a rua de cima é só invenção minha.
Mariana Gouveia
337. das fragilidades secretas

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