362. dos verbos indefinidos

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Na folhinha é oitava de Natal. Há apenas 3 folhas do calendário para serem arrancadas. Os verbos indefinidos conjugam o tempo no passado. Era ainda ontem, a vida. Era ontem aquele desejo – lembra? – a vontade de ser mais na vida de alguém. As regras sendo mudadas dentro do diagnóstico. Os corredores lentos e frios.
A casa sendo indicadora da rua de cima. De lá, o quintal é esse vão de janelas invisíveis.
O vento sendo mensageiro de boas novas. Nasceu a vida ali no quintal.

A única regra da manhã é a ternura instalada nos ramos de maracujás silvestres.
Escrevia as rotinas sentindo a fragrância da flor. A rota da fuga sendo espaço onde atravesso a solidão em meio ao  jardim.
A flor já é oferenda do tempo.
Nunca é permitido os pés descalços na relva seca. As respostas surgem secas nas folhas em branco enquanto o vento arranca mais um dia da folhinha na parede.

Mariana Gouveia
362. dos verbos indefinidos
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4 comentários em “362. dos verbos indefinidos

  1. Passei quase esse ano todo lendo suas poesias e me deleitando em tamanha beleza. Quanto sentir você tem em si. Parabéns dessa sua fã do Outro Lado🙋🏽‍♀️

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  2. Heidegger, um alemão a que não aconselho a ninguém que o leia, escreveu o sentido do Ser é o tempo, mas o tempo não nos dá sentido. Você poderia até dizer:o que tem a ver? E eu digo que tem muito a ver. A poesia é vizinha da filosofia e as duas falam das mesmas coisas. Era o que Heidegger pensava, também. Era o que Octávio Paz pensava. Um filósofo e outro, poeta. Tudo isto eu só escrevi para dizer do espanto meu, com estas duas construções tuas: “A única regra da manhã é a ternura instalada nos ramos de maracujás silvestres” e “A flor já é oferenda do tempo”. Veja você, veja você, Mariana, a Gouveia. Estou maravilhado! Um abraço.

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    • Mariana Gouveia disse:

      O pé de maracujá silvestre nasceu no meu quintal. Despretensioso foi ganhando vida em meio ao pé de algodão. Logo surgiram as primeiras flores. E o fruto, minúsculo não cabia na beleza da flor. Para mim, ali, nas primeiras horas da manhã – no ontem – a flor era a oferenda do tempo, só pelo tamanho pequeno do fruto.
      E a ternura me coube nas garrinhas dos ramos do pé do maracujá – o silvestre – diria eu.
      Passado isso, só me resta reverenciar sua presença aqui, nesse ano que se encerra.
      Que seu novo ano seja de bênçãos e paz, juntamente com os seus.
      Gratidão, meu amigo.
      Abraço imenso com carinho.

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