Maratone – se #06 – Penúltimo dia

mui de muito cor de coração dou de dourado pé de pétala vem do ventre algo de algodão.
Tomás Cunha Ferreira

Pela ordem natural das coisas o casarão ficou pronto e no jardim o amor agarradinho brotou poucos dias antes da primavera. O riso dela ecoava pela casa e Amy era a sinfonia que mais se ouvia.

Nas árvores ao redor havia ninhos de aves e o canto delas era o que se ouvia pela manhã – soube disso depois da noite que dormi aqui, em uma dessas noites em que ela ardia em febre – e a leveza do lugar me faz sentir em casa.

Ajeito os lençóis para que ela fique bem dentro do delírio. As cartas do baú se transformaram em minha leitura preferida, enquanto a luz do abajur muda a cor dos cabelos dela.

As fotografias estão espalhadas em quadros diversos e algumas cartas também fazem parte da decoração. Ela rascunhou uma em spray na parede que fica perto da janela. A impressão que dá é de que as palavras voam a cada balanço das cortinas.

Ela acorda. Pergunta sobre as horas e pede algo para comer.
Meu instinto de mãe antecede a vontade dela e ouço histórias de carrocel, de quando ela e Madalena atravessava a cidade para que ela brincasse na roda – gigante…

– Já te contei que adoro roda – gigante? – ela antecede meus pensamentos, enquanto devora a sopa de legumes – e que havia um parquinho ao fim da avenida e que pelo que me lembro eu e minha mãe éramos as únicas clientes. O carrocel era uma delícia! Eu chamava o cavalo azul de alazão e voava nos braços de minha mãe.

Amanhã ela faz 40. Lembra de detalhes do bolo de cinco anos, do de dez e do de quinze. Depois disso, viveu de solidão na casa dos tios e só descobriu que o casarão era dela dois anos depois que os pais morreram em um acidente.
Sempre viveu de ausência – essa era a verdade – e é verdade que nunca sentiu falta de presença. Essencialmente, as visitas dos tios e parentes próximos eram apenas para cumprir rituais e foram espaçadamente diminuindo até não se fazerem mais necessárias.
Nunca questionou o destino, nem a dor que sentia nos dias em que a presença da mãe clamava no peito.
Lembrava sempre do que a mãe dizia como ensinamento. Buscava interesses na literatura, na arte e nos gostos pelo que era vivo e aprofundava a pintura. Sabia que o dom rondava a forma crítica que encarava o mundo. Não permitia ninguém se aproximar tanto. Era mais por proteção, como a mãe ensinara.

Amanhã ela faz 40 e é tão menina dentro dos dias. Os fones no ouvido – o que desencadeou a febre que passou, enfim, foi a dor de ouvido – e ela não ouve o vento que agita as flores no jardim, enquanto dorme…

O jardim é só meu nessa noite, enquanto espreito o sono dela enquanto o vento faz melodias no jardim…

O jardim aonde ela plantou corações e que em plena primavera a vida lhe sorri.

 

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural – Maratone – se : Tema livre

 

 

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2 comentários em “Maratone – se #06 – Penúltimo dia

  1. Lunna Guedes disse:

    Acho que preciso de ar… ui

    Curtido por 1 pessoa

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