E aí, me descobri, tua.

 

Ninguém me avisou que ela viria e nem teve como dizer que não dava pra receber.
Já era tanto presença que nem dava pra disfarçar ausência. Ela tomou corredores inteiros em mim. Se fez presente na porta. Eu saía do banho. Toalha e vapor. Minha visão através do olho-mágico. Grande. Tomou conta do que o pensamento buscou. Teu olho me olhando bem de pertinho no buraco que é meu. Intrusa.  – Se deixo entrar, não sai mais – pensei. Eu sabia. Mas abri. E ela não saiu. Reside desde então na minha cama, nos meus lençóis. Em mim. Ela inclusive, toda.

E ela entrou linda. E ficou em pé diante de mim. Pude sentir o cheiro.

A pele macia em tons que me aquece… Os olhos não sei… Desviou o olhar.

Por quê?!

Quis te conhecer.

E assim, invadiu-me inteira. E tudo ficou tão pequeno diante dela. Tudo ganhou proporções de inho, inha. Ela ali, gigante, mãos, toque e meu cantinho, minhas palavrinhas, minha inha… e o que eu ensaiei que diria, se foi em verso e prosa, a música da Bethânia que eu declamaria ficou lá atrás da porta do banheiro.

E eu me perdi… me desmanchei pingos d’águas em toalhas, pequena, pingando, quieta, pronta, quase pronta pra sair e encontrar…ela.

Mas me fala, me fala de ti… Você disse, e suspirou, e se debruçou no parapeito da janela.

Tem que me puxar e encaminhar-me para o seu caminho e eu te mostrei. Moro ali, naquela curva quase laranja em direção a ti. Falei do tempo, de política. De economia. Do meu país.

E eu que disse que a amo 300 anos, procuro as palavras e elas fogem, burburinho escada abaixo. Brincam comigo. Com meu dom da palavra. A moldura de um retrato antigo. Uma flor.

Foi ali que eu calei em você. Aspiro o cheiro. É o mesmo que desenhei noites intensas e o olfato buscava presença num livro, num lenço. E com medo de abrir os olhos e não ser ela ali. Pisco várias vezes até me certificar.

O que eu podia contra a força dos clichês, falar do tempo, do calor… Hum?
Contra a surpresa da tua mão pegando a minha e pingando nela um universo de saudade que você mesma provaria por mim, com a sua língua?
Contra esse universo de saudade eu não podia mais nada, a não ser nadar às cegas dentro do mar imenso que se apoderava em mim abrindo a mão, fechando, te vasculhando ao revés, me perdendo as braçadas, mergulhando, submarino humano, sem ar nem escafandro, buscando oxigênio no fio de ar que escapava da tua boca enquanto você balbuciava ah, e ocupava com seu corpo e presença até o espaço da minha existência que já estavam loteados.

Quando a porta se abriu e você pisou no chão da minha vida de borboleta eu estava até o meio de outra vida vinculada à tua vida.

E aí, me descobri, tua.

Mariana Gouveia
*Imagem: Tumblr

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6 comentários em “E aí, me descobri, tua.

  1. mariel disse:

    Que lindo, lindos e lindas

    Curtido por 2 pessoas

  2. Lunna Guedes disse:

    Sabe quando não sabemos se sonho-realidade, se nada ou tudo, se metade ou inteira? Pois é…

    Curtido por 1 pessoa

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