169. da geografia das coisas


Confiava no gesto e na alegria das coisas. Tudo geograficamente na memória.

A infância na leveza da vida. O dia expandindo o dourado pelos campos.

Tudo semeia pela pele a absolvição da acolhida.

É o retorno do que já vivi.

Mariana Gouveia

169. da geografia das coisas

130. dos dias diferentes dos outros dias

A moça do tempo errou a previsão… Também errei nas oscilações do dia. Deduzi frases entre acordes e canções.
O cantor poeta inventou-me dentro do exagero. As nuvens criaram palavras no céu e o pássaro de todo dia renovou minha fé nas pessoas. As flores foram beijadas em outra estação e a meteorologia decidiu o que era explosão em outro lugar – pode chover a qualquer hora do dia – choveu –  e depois a lua deitou-se nas nuvens como se fosse cama.
Alguém faz previsão sobre o destino de amar. Pode a solidão vir estampada em dias de chuva?
 
Mariana Gouveia

130. dos dias diferentes dos outros dias

124. dos dias diferentes dos outros dias

Contava a sorte nas asas

Viu estrelas cadentes riscar o céu.

Fez pedidos

para ilustrar a vontade de vida.

Acolheu risos em forma de fé.

Ganhou abraço quando a palavra perdida chegou.

Estendeu a mão para a mulher que conhece a sorte do dia.

Descobriu no trevo o caminho para seguir.
Mariana Gouveia

124. dos dias diferentes dos outros dias

46. das palavras das cartas

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Hoje choveu de verdade aqui. Daquelas chuvas que duram o dia inteiro e as ipomeias azuis beberam da água que caíam.

Fiquei a desenhar a cor dentro do seu nome enquanto as luzes sobre a cidade ofuscam entre os pingos das janelas embaçadas.

O vento cruza o espaço da casa e as flores do mamão forra uma parte do quintal.

Troco a solidão pela canção de Gadu. Ensaio mais uma vez as palavras da carta que escrevo.

Apago várias vezes algumas frases que reedito, reescrevo e desenho corações na janela.

A previsão do tempo assusta, já que o rio que corta a cidade avança próximo das casas ribeirinhas. O tempo lá fora não permite que eu veja a lua e a solidão grita dentro da noite.

 

Mariana Gouveia
46. das palavras das cartas

O grito…

o-grito
ecoou na noite embateu contra a parede quebrou o silêncio, sem perdão O homem, enlouquecido, vira-se de costas para não ver o vazio deixado Para evitar o murro na parede do quarto perdido, despojado. Inutilmente, fica na penumbra, à espera do que sabe não ter retorno.

Lia Branco
*Fotografia: Fidalgo Pedrosa

45. das palavras das cartas

Querida Luci,
Hoje eu vim responder seu puxado de assunto sobre árvores.
Aqui choveu o dia inteiro… aliás, desde ontem chove e o rio que corta minha cidade ao meio está a ponto de esparramar água ruas afora. São quase doze horas de chuva ininterrupta.
As árvores do meu lugar fazem festa… tem até pé de manga dando flor. Da porta da sala onde trabalho vejo as manguinhas se formando. São temporãs, eu sei…Mas essa água benta que cai favorece algumas a se manter em pé, florir, dar frutos e outras até cair, Luci.
Nos meus arredores não caiu nenhuma… mas foram derrubadas. – e isso é pior do que cair porque já cumpriu sua missão de árvore –

Aqui, derrubaram em nome de um progresso que nem veio. Falaram que iam construir o VLT, Luci e levaram centenas dos meus ipês que coloriam as ruas com suas cores para o lixo. 
As ruas hoje, estão peladas de árvores. E não há também o tal vlt.
Mas ainda há alguns lugares onde elas exalam a singeleza pura da natureza. 
Ali, eu me faço descalça e peço a permissão para o abraço. 
Há o ipê rosa, o branco e o amarelo dourado… além do roxinho do araçá e a magnitude dos flamboyants.
Não sei se o tempo de uma figueira para renascer de novo. Sei que o cedro demora anos. Lembro até a canção que meu pai cantava quando ia campear o gado. 
As árvores cumprem uma missão, Luci…A sua também teve. E assim, vamos seguindo catando sombras que tão gentilmente nos dão. As flores e algumas, a cura em forma de folhas e raízes.
Todos os dias, quando o ônibus me leva rumo a mais um dia de trabalho, eu ainda busco as que existiam por aqui. E faço como você, olho para o canto e as vejo – ou imagino – e ali, acato o céu em seu rumor de asas e sigo.

Dia após dia.

Beijo, Luci

Mariana Gouveia
45. das palavras das cartas

Coube-me

coube-me

E coube tudo numa única mala:
Óculos, escova de cabelo e de dente,
Perfume, sabonete, peças íntimas, roupas o suficiente,
Nem precisei colocar sapatos, pois já sai de pés descalços
Sedentos por liberdade;
Coube os sonhos, as cicatrizes, a dura realidade, um bocado de saudade,
O relógio do tempo, meus melhores sentimentos,
Minha história, minha vida …
Coube tudo que eu precisa para dar continuidade a minha lida.
Coube-me!
Na mala
Do coração da alma
Cabe apenas o necessário.

Laura Méllo
*imagem: Emanuela Baioni