334. das fragilidades secretas

334. das fragilidades secretas

Listou os livros que leu. Perdeu – se dentro das histórias que lembrava.
Escolheu a nova tatuagem e a frase do dia para a rotina das horas.
O vento é esse menino travesso que traz a chuva pelas mãos. A árvore maior sem folhas, o galho sendo motivo de asas e há uma discordância entre a pena e o pouso.
As palavras escritas em um idioma noturno. A história da flor contada de mil maneiras diferentes.
Era uma vez, o tempo que acabou. Rio abaixo, todo vento é torto.
As flores traduzem a expressão da semente. O coração é essa ocupação constante dos sem-ninguém.
A lista, as regras, a colheita… perdeu – se.
As fragilidades secretas traduzem a cor que o jardim inventa.

Mariana Gouveia
334. das fragilidades secretas

 

 

Anúncios

46. das palavras das cartas

46. das palavras das cartas.jpg

Hoje choveu de verdade aqui. Daquelas chuvas que duram o dia inteiro e as ipomeias azuis beberam da água que caíam.

Fiquei a desenhar a cor dentro do seu nome enquanto as luzes sobre a cidade ofuscam entre os pingos das janelas embaçadas.

O vento cruza o espaço da casa e as flores do mamão forra uma parte do quintal.

Troco a solidão pela canção de Gadu. Ensaio mais uma vez as palavras da carta que escrevo.

Apago várias vezes algumas frases que reedito, reescrevo e desenho corações na janela.

A previsão do tempo assusta, já que o rio que corta a cidade avança próximo das casas ribeirinhas. O tempo lá fora não permite que eu veja a lua e a solidão grita dentro da noite.

 

Mariana Gouveia
46. das palavras das cartas

O grito…

o-grito
ecoou na noite embateu contra a parede quebrou o silêncio, sem perdão O homem, enlouquecido, vira-se de costas para não ver o vazio deixado Para evitar o murro na parede do quarto perdido, despojado. Inutilmente, fica na penumbra, à espera do que sabe não ter retorno.

Lia Branco
*Fotografia: Fidalgo Pedrosa

Coube-me

coube-me

E coube tudo numa única mala:
Óculos, escova de cabelo e de dente,
Perfume, sabonete, peças íntimas, roupas o suficiente,
Nem precisei colocar sapatos, pois já sai de pés descalços
Sedentos por liberdade;
Coube os sonhos, as cicatrizes, a dura realidade, um bocado de saudade,
O relógio do tempo, meus melhores sentimentos,
Minha história, minha vida …
Coube tudo que eu precisa para dar continuidade a minha lida.
Coube-me!
Na mala
Do coração da alma
Cabe apenas o necessário.

Laura Méllo
*imagem: Emanuela Baioni

44. das palavras das cartas

A manhã desenhou na memória dias atrás. Era o ano que passou e a delicadeza dá data destoa dentro das carta que escrevo… nela, eu posso dizer tudo que sinto e brigar… comigo, contigo e com esse sentimento infinito no sentido exato do amor.

Será mais uma que vou rasgar…

Não saberá das rotinas das manhãs e nem das minúsculas vida pelo quintal.

Nem quando a chuva se aproxima pelos lados do sul.

Em todo mundo amanhã será o dia do amor – como se amor precisasse de dia – e haverá vida além das palavras das cartas que rasguei.
Mariana Gouveia

44. das palavras das cartas

Do tato

do-tato

Chega-te devagar aos meus domínios;
que teus dedos tacteiem o espaço
cegamente, a escuridão que envolve
meu corpo; que abram um caminho
e cheguem até mim através do véu
espesso e taciturno das sombras.
Salva-me com a luz que há em teus dedos
ao tocar-me, conjura a desídia,
acende-me ou abrasa-me no tacto
esplendoroso e claro de tuas mãos.
Como a borboleta nocturna,
lançar-me-ei à chama que tu convocas,
antes queimar-me que estar às escuras.

Josefa Parra

*imagem: Elisa Lazo de Valdez

42. das palavras das cartas

Descobri cartas antigas de minha mãe no baú das memórias. As letras cursivas pareciam ganhar vida agarradinhas umas nas outras. Em uma delas ela me chama pelo diminutivo do segundo nome… Parecia despedida e na época não percebi. Deu-me direção de caminhos. Orientou- me diante da vida e falou das canções que ela mais gostava.

Nas palavras, um poema sobre asas que eu fiz ainda criança…  Falava do pássaro de todo dia que vivia ali, nos arredores. E do luto dela na ocasião da morte do meu avô. Tudo era um voo plano no ar:

” Era a asa do pássaro que tinha a posse…

O poder do voo… o limite do céu. Esse mesmo céu da cor do vestido de minha mãe de antes da morte do meu avô.

Depois da partida dele ela se veste só de preto. Uma forma de mostrar a cor da alma. Mas de manhã, quando o sol abre a cortina do dia, o riso dela é colorido.

E o pássaro abre a asa na intenção de voar”.

Depois daquele escrito lembro que minha mãe foi à porta, olhou o céu e sua dimensão de cor… entrou em seu quarto e saiu com seu vestido azul.

Aprendi nesse dia o poder da palavra e do quanto era importante a escrita.

Hoje, o canto de um pássaro invade o dia e junto com as palavras ganhou jeito de lembrança e cor.

Mariana Gouveia

42. das palavras das cartas