CARTAS PARA ABRIL |aceita um café?

Das minhas cartas…

Scenarium livros artesanais

Por Mariana Gouveia


Meu caro Borges

Daqui do quarto de um hospital — o mesmo em que meu filho nasceu — enquanto espero que a enfermeira ajeite meu irmão na cama. Estranho como as coisas se alternam… ainda ontem, ele era o meu guardião, nas colinas aonde a visão do capim dourado da planície abaixo de nós — quadro de um pintor.

Ali, descobri que ele pintava palavras e desenhava poemas de amor nos caderninhos que sobravam. Ele abria mãos das folhas brancas para eu preenchê-las com minhas letras.

O quarto dá para a janela onde histórias acontecem dentro de mim… a Lua é esse quadrante pendente para o poente, em vírgula; e um Planeta qualquer intrometido em sua luz difusa em forma de estrela. Hoje perdi a noção do céu… não sei se é Marte ou outro planeta qualquer, em dimensão de astro.

Tive momentos de picos de intensidades…

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CARTAS PARA ABRIL |Ana, que tal um café?

Scenarium livros artesanais

Por Mariana Gouveia


Oi, Ana

Começo a te re-escrever na madrugada. Sinto que o vento traz o cheiro de café de algum vizinho madrugador. Coloco a água para aquecer em um ritual antigo — já que fiz a burrada de, em um momento de distração, jogar o suporte da cápsula da cafeteira fora — enquanto preparo o coador para então saborear o café a me acordar de vez.

Enquanto sigo até o ponto de ônibus, vou criando notas mentais do que gostaria de te dizer. Quase crio uma canção ao repetir as palavras para não esquecer.

Continuo na segunda parada… onde aguardo pelo outro ônibus e mais uma vez o cheiro do café chama a atenção. O vendedor de bolos de arroz me serve com a delicadeza de todo dia. O sabor do bolo típico daqui me leva à infância. Minha mãe usava a latinha de sardinha como fôrma para…

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Poesia | Mariana Gouveia

Scenarium livros artesanais


Essa sou eu,

mas, às vezes, uma confusão bate
Vou a janela… pergunto se posso tirar os sapatos.
Mostrar quem sou…

Tiro as roupas também?

Passeio pelo espelho…
O reflexo que vejo é Ela.

Cara sobreposta na minha.
Olhosdelameninadosolhoseu.

Típica tempestade interna…
— essa indecisão/procura.

O espelho nunca mostra o que quero-sou

O reflexo me vende olheiras.
Vazio branco oco por dentro.

Desatino.

Saio com riso de louca no olhar.
Quebro o espelho.

Mais sete anos de sorte.

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359. dos verbos indefinidos

Era de novo a noite da dor. Viu o sol nascer na companhia dos cães. O vento, instável na solidão das horas.
O dia, era a inveja da manhã sobre o ontem.

A pele sentia o arrepio do tratado sobre a tensão. Conhecia essa falta de ar no peito. Os corredores imensos em sua quietude na dor.

Os risos para além das janelas, trazia na memória o fato do dia.

Era o nascimento de alguém para comemorar.

Mariana Gouveia

359. dos verbos indefinidos

356. Dos verbos indefinidos

Carrega nos ombros a carga do dia. O aviso prévio da dor. Lá fora, uma asa avisa da sorte escrita nos bilhetes.
Devia entender da serenidade das coisas. A folhinha quase no final.
O número da sorte na lógica das coisas.

O destino é feito de acasos e a única certeza é agora.
Pensei em seu cansaço comigo. A canção destoa dos idiomas conhecidos.
É preciso repor o mesmo disco – a vitrola na canção – e a flor esperando na semente.
O amor desvia o nome das coisas.
O monólogo é esse atravessar da garganta e a palavra vontade é apenas essa coragem de dizer que nos bilhetes a sorte do dia é amar

.

Mariana Gouveia
356. dos verbos indefinidos

355. dos verbos indefinidos

 

 

 

A vida diante do olhar ainda é pouco. A sua solidão não é maior que a minha. A janela traz o retrato opaco da cidade.

Na padaria da esquina, as mesas vazias e as xícaras de café contadas no reflexo do espelho.
A vontade servida dentro da sorte. O trevo, o tempo, a história.
Conheci por acaso, uma magia. Tinha olhos pequenos e pés descalços.

Às vezes, a vida é esse instante em que as princesas nem tem sapatos.

Mariana Gouveia
355. dos verbos indefinidos