6 on 6 – Nós dois

Procura-se…. Pessoa feita triste por verbos pretéritos e palavras ouvidas.
Alguém que seja capaz de se surpreender com gestos incompletos e actos falhados.
Pede-se o favor de responder através de um sorriso vago que possa ser tudo.
Nuno Camarneiro  

 
Parecia tão distante a palavra nós dois. Eu, tão acostumada a ser só e resolver tudo só, de repente, vejo uma mão estendida me indicando caminhos.  

Em alguns horizontes você me mostrava a direção. Era como se ali, tão cúmplice e parceiro estava o amor.
Tão sombra e tão presente. Nós dois! Quase um em meio a tantos.

A realidade sendo constante na sonoridade dos dias. A imagem registrada, era você e sua amizade mais atuante junto ao amor.

 

Com o passar dos anos, os olhos complacentes diante de minhas aventuras e de como os poemas faziam parte do espaço onde existimos… o poema é sempre sua mão estendida e seu ombro de amparo.

 

Basta saber de você ali… onde seu riso é parte principal de minhas rotinas. 

 

Esvazia os meus dias da solidão dos poetas e é silêncio quando minha alma grita nas solidões tantas. 
Não é só de amizade que falo, nem de companheirismo – esse tanto de espelho refletido no peito – onde o jardineiro do jardim cuida dos arredores dos quintais. Onde o dedo aponta o céu e os passos me seguem para além das cartas e de outros amores.

 

Mais do que as infinitas possibilidades nós dois somos o amor.

 

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019 Participam também desse projeto: Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega  Maria Vitória

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6 on 6 – Urban art (arte urbana)

“Porque amar é uma arte e nem todo mundo é artista”.
Renato Russo

Querida A,


Já te contei que minhas ruas possuem o encanto dos artistas de rua? Quando passo em frente a uma obra penso em como você decifraria a história da peça, do quadro, dos muros pintados ao longo de avenidas.

Às vezes, as ruas contam lindas histórias de amor. As declarações são repetidas ao longo de uma avenida, uma parede mal conservada e ali, o artista expõe sua arte e inspiração.
Muitas vezes, fico imaginando se fez o efeito esperado quando a pessoa se “vê” na frase, nas imagens e no desenho.

Saberia o Fred que Tati Ribeiro o ama tanto? Ah, minha cara, eu adoraria saber e por vezes, ao passar nessa rua me vejo tentada a dizer o que teria acontecido com eles. Chego até a criar a história e um final felizes para eles.

A moça da janela da rua de cima parece que está sempre à espera de alguém e logo duas casas acima, os corações colorem um muro inteiro. Devo confessar que já desenhei com os dedos no ar seu nome dentro de um deles.

Mas, o amor é assim, minha querida. Nos leva por caminhos diferentes e faz com que a gente embarque nas histórias que vemos por aí.

A arte tem essa leveza de explicar com mensagens, o que na verdade trazemos dentro de nós.
Beijo,

Mariana Gouveia

Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto:
 Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

6 on 6 – Preto & Branco

 

“Era preto e branco,
Mas meu coração sorriu”.
Wanderly Frota

Contava o tempo dentro das horas. O jardim acontecia nos olhos de quem não via, mas podia tocar e sentir no toque a maciez da pétala. 

Nunca havia visto um coração, assim de tocar de perto ou atingiu o âmago de um. Podia sentir na boca o gosto de um sabor agridoce. 
Quando ouvia a palavra coração podia sentir na pele a magia da mão dela. Quando ouvia falar de cor, só conseguia entender as nuances em preto e branco.

 


Havia escutado em algum quintal que a chuva não tinha cor… com isso, imaginava sempre que as levezas das gotas pertenciam a alguma ave que percorria o céu na dimensão do seu lugar.

Podia tocar se quisesse o beijo que tocava a flor e que tinha o nome tatuado nas costas, como se com isso pudesse eternizar momentos.

Descobriu que podia.

Desde pequena conhecia a lenda das linguagens das mãos. Tocava em tudo que é bicho.
Conhecia o princípio e o fim dos toques. O dedo a ser pouso e indicação:
Siga por ali… o caminho é o meio. E a vida, às vezes, é feita em preto e branco e o que é lenda – a mãe dizia – nunca tem cor.

 


Não conhecia o caminho do mar e nem nunca pisara na areia para que a maresia banhasse a pele dela…
Sabia que era marítima! Isso sabia. Bastava fechar os olhos e os ouvidos a enganava. 

         Podiam até enganar o olfato, o tato e quase todos os sentidos… mas a audição não possuía cor. Era preto e branco quando os pés se arriscavam na queda leve da correnteza do rio… era com isso, o sempre ritual do encontro dela com o mar.
         E para isso, bastava apenas tocar as estrelas. Do mar.

 


A ausência da cor gesticulada na mudez das aves. Ninguém explica o azul celeste – é o céu – e a garoa fina que atravessa a janela e cai em meu colo como se fosse uma novela em 3D.
A estante ampara as coisas que leu em um livro aqui, outro ali… tudo sem cor, escondido em gestos. 

A mãe entendia o sorriso leve quando fechava os olhos e tocava o vento no verbo amar.

Contava o tempo dentro das horas. Sabia definir o caminho e as rotas sem perigo no quintal. Bastava seguir os tecidos fiados nas teias do caminho. Era bem ali, no quadrante leste que a cor começava a fluir. A tábua sem cor, na passadeira entre o rio e a cerca – o arame farpado sem cor – na travessia da floresta.

Era o nome um abandono completo de pele e a bússola a decifrar rotinas no mapa. Sabia a direção que podia tomar para a direção das cores… fazia meia volta e em sinal de fé, buscava a vida em preto e branco.

 

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural
Participam desse projeto:
Ana Claudia – Anália Boss – Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Luana de Sousa – Lunna Guedes – Mari de Castro – – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

6 on 6 – Livros

Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros;
Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem água;
Ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.
Jorge Luis Borges


Eu, criança ainda
Os olhos voltados para os livros que chegavam até nós através de doações, ou enviados via correio pela minha avó materna. Tive tantos livros em minhas mãos que meu desejo era colocar em palavras tudo que eu sentia.
Minha mãe conseguia arrancar da gente o que estava guardado lá dentro da alma. E foi ali, no interior de Goiás, em meio às capas puídas de Fernando Pessoa que desejei ser escritora.
Os cadernos – às vezes, artesanais, costurados pela minha mãe, feitos de papel de pão – ou alguns novos, que eram tratados como tesouros foram testemunhas das primeiras palavras.

 

 

O tempo foi passando e como junto com o relógio a vida gira e foi ganhando rumos inesperados. Me tornei radialista e as palavras escritas eram lidas em um programa de rádio. O desejo, ali, guardado no peito e os cadernos, um a um, guardados em um baú.


Um dia, recebi um convite tentador através de um comentário no blog – que eu criara para compartilhar as palavras. O blog era nada mais do que um livro virtual e foi ali que Lunna Guedes, editora da Scenarium Plural me fez o delicioso convite para publicar um livro pela Série Exemplos e nasceu ali O Lado de Dentro.

O livro era mais do que eu sonhara a vida inteira. Com a graça e a arte do artesanato e com o carinho estampado em cada página.

 

Junto com O Lado de Dentro vieram participações na Revista Plural e outros projetos coletivos da editora.
Já não era mais um sonho. Já era realidade e minhas palavras ganhavam voos para além do meu lugar.

Com isso ganhei o mundo e Cadeados Abertos – Diário de Quatro Estações e a poesia ganhou as rotinas do dia a dia.

 


E para quem sonhava em escrever um livro, nesse ano nasceu Corredores – Codinome Loucura.  Agora, já são 3 livros. Todos no formato artesanal e com a poesia derramada em cada palavra.

O livro artesanal tem a simbologia de te abraçar em cada costura e o projeto trouxe para minha vida muito mais do que sonhos realizados. Trouxe para minha vida a paixão pelas histórias. As mesmas que encontro nos livros da Scenarium Plural, além de presentear com amigos espetaculares.

Ser Plural dentro dessa singularidade toda me faz mais uma entre os tantos que amam os livros.

 

Mariana Gouveia
Participam desse projeto:
Ana Claudia – Anália Boss – Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Luana de Sousa – Lunna Guedes – Mari de Castro – – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

 

 

6 on 6 – trick and treat.

A vida é esse estranho modo de brincar de viver.
Vai me dizer que você não adora uma brincadeira? Ou doces, que posso traduzir em doçuras?

Tá bom! Tá certo que eu mesma, para alguns sou pura sobriedade, mas contar e captar histórias de amor é meu tempo.
Doces ou travessuras?
Ah, quero sempre a doçura do beijo e a travessura da língua a desbravar vontades.

E sabe aquela brincadeira de que amigo junto é mais do que irmão?
Mas que também traz a travessura do riso e abraço que vale mais do que doce?

E a doçura do abraço que cura?
Sabe do poder que tem o amor de amigo? Esse cura!!
Mas, também fortalece a travessura do gesto que vira surpresa e que colabora com a doçura da alma.
Doce ou travessuras?
Dá para ser os dois?

Quem me vê na sobriedade dos dias, nem imagina que sou pura travessura ou seria doçura?

Essa coisa da ligeireza dos dias é mais do que doçura. Ou seria travessuras?
Quando a gente vê o amor nos olhos de quem o coração acolhe como filho, mesmo sendo sobrinho e a verdade sendo quase travessuras… Posso pular essa parte e dizer que prefiro a travessura no olhar do Pedro, meu amor?

E cabe no gesto as duas coisas?
Posso ser puro amor e traquinagens?
Posso ser onwttt e Ahhh?
Lolla é esse avanço de alma onde meu coração vagueia. Lolla é resiliência e superação.
Lolla é travessuras e doçuras em todos os gestos…
Entre as duas coisas eu sou as duas coisas….
E você, prefere o que?

 

Mariana Gouveia

Ana Claudia – Anália Boss – Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Luana de Sousa – Lunna Guedes – Mari de Castro – – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Passos

“São os passos que fazem os caminhos”.
Mario Quintana

Luci, faz tempo que eu queria te escrever….

Mas meus dias esteve – ou estão – tão cheios de realidade que as palavras não cabiam dentro do seu mundo. Escrever sobre a realidade, Luci, é quase como rasgar as folhas do caderno quando você tem pouco papel para a caneta trilhar entre as linhas e a gente aproveita cada cantinho em branco para desenvolver escrita. Realidade é o álcool gel de uma UTI, touca e pantufas sem bichinhos engraçados… realidade é o apito estridente de um aparelho que te assusta e te faz tremer feito vara verde. Realidade para além dos dias é a reza para tudo que é místico e acreditar que a vaga venha, que a febre ceda e que o amor minúsculo – tamanho da irmã caçula – vença a luta contra a morte – aquela imagem da foice e uma boca aberta vem à memória e você acha tudo tão engraçado que a fé se torna concreta em tudo que é santo-nossa-senhora-ave-maria…
Hoje tenho que falar de passos e pensei que esse seria um tema ideal para que eu pudesse fugir do trilho do tocável e te alcançar dentro da magia que seu olho me alcança.

Vem comigo?

Já te contei que ando sobre instantes e que quando meus passos tocam terra-chão-grama acontece coisas inimagináveis? Às vezes, até eu mesmo duvido, Luci e juro que esses momentos me levam ao estuque do seu quarto e sua parede quase azul – era isso mesmo? ou seria verde? – e lembro – me de que nessa altura da lembrança você não queria comer – e que te dei asas para além das florestas e dos pajés que reverencio todo dia… não comer era quase um desaforo diante de tanta fome no mundo. A fome atravessa os séculos e as florestas e para ali, dentro da imaginação do meu quintal, não comer é quase um atentado contra o que de mais sagrado que existe. Você tem o que comer? Tem de onde tirar a comida? Tem a sonoridade da alegria de quem encontra a comida, em qualquer lugar que seja?
Ainda bem que isso seja só lembranças, Luci e que ela nos leva sempre para as cartas e palavras.

Acontece que em alguns acontecimentos me transmuto para além do que escrevo e só para comprovar que não é miragem, eu registro o minuto dentro da magia.
Por falar em magia, conheci um cacique tão mágico – que parecia ter surgido de um filme desses da sessão da tarde – e que trazia a mansidão no olhar – a realidade, pelos olhos dele, tem a docilidade da aceitação.

” O que não se pode mudar, aceite… “

Falou na sonoridade do ar condicionado que acontecia entre um gruuu – ou seria vraaaaa?

E meu pensamento viaja para onde não posso estar e nesse momento sou quase rebeldia dentro da fé, Luci, enquanto o olho dele me atinge e leio quase uma floresta inteira e suas densidades. Um dia, Luci, quero te mostrar esse olhar… Você nunca mais vai querer ficar sem comer nessa vida e em todas as outras vidas que tiver – e eu, nunquinha mais, perderei a fé – e tudo será apenas gratidão.

Tem o jeito tão fácil de pai – o cacique – que quase me aninhei nos braços dele, Luci. Tive que me conter, devido a seriedade do encontro. Dava a impressão de que ele era o Samurai de todas as histórias e até da música do Djavan – se bem que nunca entendi direito essa música do Djavan, que pensei no tal verbo inventado sobre djavanear…

Os passos nos levam para cada caminho, que muitas vezes, só o lúdico nos faz fortes para que a caminhada seja fácil.
Lá na rua de cima tem cada instante de rua florida que dou uma volta enorme para não pisar nas flores. Você iria rir e talvez até me convencesse a deitar sobre elas – aposto…

Mas você não faria isso com o quintal “florido de teias de aranhas”…

Isso, eu consegui registrar e não importa se é aqui, logo que abro o portão, depois desses dias frios, de garoa – ou na rua de cima, logo além das porteiras do sítio Altos da Mata, para onde os olhos do meu pai vigia.
A vida, é o aceitar, Luci… tipo presente ou bolo da vizinha que insiste em nos imputar o pecado da cobiça. Vai me dizer que nunca cobiçou o cheiro de bolo que vem pelo vento e que a gente nunca sabe de qual casa vem o tal cheiro?

É um querer tudo e até o que não nos cabe na mão. Se minha mãe estivesse aqui, talvez, o olho fosse o termômetro para a vontade de ser, Luci… e ser é apenas aceite… Aceite dos caminhos que os passos cruzarem…

Os passo fazem parte do caminho… seja no ar, na imaginação ou na terra…

Luci… ah! Chego a suspirar quando me lembro dos pés a beijar a terra e a vida se torna tão gigante nos retratos pendurados nas memórias.
Era Maria, Branca de Neve, era Dolly e logo atrás de tudo aonde a câmara-olhos não alcançaram Manu, brigadeiro a desenhar instantes do para sempre. Devia ter escrito conto de fadas, Luci… igualzinho tu fez com Baunilha e tua Anna e nessa hora imagino tua grandeza dentro do poema do Bukowski…

Já te contei que meus passos me levaram às nuvens, Luci e que lá de cima sua cidade ficou quase que ao toque das minhas mãos? Juro que se tivesse poder de verdade, soprava as dores e tudo viraria apenas histórias para tua Anna.

Eu estive aí, Luci… tão perto de você que em alguns momentos a visualizei no rompante da escada e lá estava seu riso anos 60 e Anna para os passos do abraço.
Corredores me alcançou na graça do amor e resiliência dentro dos dias. Foi pura emoção, Luci. O livro sendo fonte de resiliência e amor.

Enumerei um a um a quem eu daria abraços no ar – porque alguns, abracei de cheiro de perfume e de café – e esse cheiro sempre me levará para a magia que me rodeava como se fosse eu mesma uma personagem das histórias que a vida escreve…

Talvez seja! Vai saber!

Mas a vida, Luci… Ah, a vida? A vida é feita de passos.. Ah, se eu pudesse escrever sobre os passos da vida…

Ainda bem que existe a fotografia pra se fazer entender.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural
Participam desse projeto:
Cilene Mansini | Maria Vitoria | | Mari de Castro | Obdulio Nuñes Ortega | Lunna Guedes

Projeto fotográfico: 6 on 6 – As cores da manhã

Quem tem assim o verão
 dentro de casa
 não devia queixar-se de estar só

 Eugénio de Andrade

 

Às vezes, me pego descobrindo as cores da manhã, e entre a madrugada se despedindo e ela – a manhã – que se desenha a vida colore diante de mim, o toque.
Um afago ainda com cheiro de orvalho nas asas e o cumprimento se revela no gesto.

E antes mesmo que o sol nasça,  entre o caminho do amor e do carinho, as cores se desenham dentro da esperança. O dia – quase em milagre – abre as cortinas do que é belo. O afago no quintal tão meu, antes de seguir rumo ao que o dia se antecipa para mim.

No meu lugar as cores tem a tonalidade dos olhos deles, sem nome de cor exata, mas tendo a docilidade do amor. A ternura descrita entre troca de olhares e  nos muros os corações a espalhar vontade de amar.

 

Converso com a sorte imitando cores, e fazendo com que os pincéis desenhem as rotinas das flores. A estação brincando de viver para além dos muros. A vida a conversar comigo onde o silêncio me cabe. É quase um grito, o suspiro no peito.

 

A rua de cima amarela a medida que vou ganhando as esquinas. Um dourado se encosta na leveza dos lilases dos dias de agosto. Ainda há a brancura das nuvens em um céu matizado feito quadro de pintor.

 

E a medida que o ônibus – e o dia – avançam, no bosque que antecede outro lugar, eu fecho os olhos e sou beijada através dos reflexos dourados pelos raios do sol e meus olhos se perdem na tabela de cores que a manhã me oferece até onde minha vista alcança.

 

Mariana Gouveia

Participam desse Projeto:
Claudia Leonardi  | Maria Vitoria | Lunna Guedes | Fernanda Akemi | Obdulio Nuñes Ortega |