— escuto o silêncio de boca-a-boca, de porta-a-porta

Hoje fui acordada do meu – suposto – merecido descanso por uma ideia. De madrugada.

Sabia que não ia lembrar mesmo falando o mantran que aprendi no curso de meditação que fiz em 1997 (e que tem os mesmos mantrans dos cursos vindouros – que fiz).

A gata mais pazeamor, vendo minha inquietude espreguiçou com as patinhas na minha garganta. Tossi. Acordei a outra gata (não é de paz e amor).

Desisti de tentar repetir à exaustão pra que eu não esquecesse e acendi a luz. Abri o caderno da aula de amanhã, ou melhor, de hoje mesmo e lá estava mais anotações de outras ideias não esquecidas (só porquê anotadas).

Sim. Ideias são como a mãe da gente acordando pra ir pra escola. E faz maria chiquinha que nem dá pra piscar até o final. Ideias acordam a gente… como se estivéssemos atrasadas ou pecando.

Aden Leonardo

 

Na rua de cima os cães não latem para os garis.  O caminhão passa tranquilamente sem barulhos, latidos e bafafás.

Percebi isso na madrugada quando acordei e mergulhei no texto estampado em neon – tipo me leia e guarde-me antes que a Aden acorde e me apague – mania latente de marcar a gente com palavras/poemas como se fosse ferro a brasa e mesmo apagado já fica ali, na pele…

A rua de cima é morna dentro das minhas idéias. Um gato preto anda sobre o muro e o silêncio chega a fazer barulho nas portas pintadas de azul. Há um outro – gato – pardo que atravessa os muros laterais dos vizinhos e vem justamente na minha rua, cheia de barulho provocar os cães, atrapalhar a ideia que grita dentro do silêncio, na madrugada.

A ideia me arrasta como correntes e fiz o quarteirão repetindo gestos no ar como se louca fosse e percebi que algumas janelas se entreabriram para as vizinhas que não entendem como a madrugada me abraça. O último poema ainda adoça a boca que perdeu o sentido de sabor. A ideia da Maria Chiquinha leva o pensamento para além da infância e o cabelo sente o repuxo que a mãe fizera na última vez. Isso já foi a tanto tempo!
Os dias se perdem nessa dimensão do espaço.

O caderno ganha as anotações depois que o poema ativou a palavra solidão no calcanhar… e quando você busca o poema que te inspirou, ele evaporou-se no baú dos apagados – não falei que ela – Aden – ia fazer isso? – e as ideias se perderam dentro do poema apagado…
para no instante seguinte florir no carinho da amizade.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural Editora
Crônicas de Outubro


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Seu cheiro de flor.

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… sua boca é de pétala, de flor!
… seu desenho é um pé, de flor!
…sua alma é um jardim, de flor!
Seu corpo é um convite de um caminho… de flor
Seu deleite é a seiva…
de quando machuca-se…uma flor.

Aden Leonardo
*imagem: Nishe

1 – Se alguma coisa nasceu para voar foi o teu coração

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“Voa coração, ou então…Arde!”
Eugênio de Andrade

 

Querida A.
Abril começa aos meus olhos como uma pintura de Monet… É tanto ouro e azul nessa manhã desavisada de pássaros… parece até que todos vieram de uma vez só… Os pruuus e gruus e euquetevi emendam em uma melodia barulhenta que me arranca risos. Parece discussão de criança… um querendo cantar mais alto que o outro.
Algum dos meninos da vizinhança perdeu uma pipa no fio da rede elétrica… está ali, o pobre esqueleto a voar de um lado para o outro seguindo a brisa mansa.
Abril chega ameno aqui… As folhas do pé de algodão forram o lado esquerdo do quintal. Adoro o cheiro do mato se decompondo… enquanto aspiro o aroma que me carrega para a infância, o sabiá laranjeira  e o bem-te-vi – corajosos, por sinal – se arriscam a roubar a ração do prato dos cães… Cada voo que dão por aqui é quase um perder de penas.
Por falar em pena, conheci um indiozinho anteontem… Ele tinha os olhos e cabelos pretinhos… Um pequeno sábio que me trouxe uma pena de presente. Colorida daria cor aos voos – para que eu voasse bonito, ele disse – ao mesmo tempo, leve… Para que as coisas não pesassem tanto e então, pensei em você e de coisas que nascem para voar…

Se alguma coisa nasceu para voar foi o seu coração.

Ele voa dentro da palavra bonita que você descreve e no mundo encantado que você me apresentou quando te abracei.

Meus pensamentos voltam para você e avanço em direção ao teu lugar… Quase visualizo as estradinhas de Minas entre as serras que minha memória busca da infância… Recordo de suas viagens e de como eu voava contigo e de como você chegou até a mim.
Ainda ontem ou anteontem foi seu dia… A memória anda em conflitos com datas e já desisti de me deixar levar por elas. Hoje, lembro mais do antigamente, ou de dias atrás. Já viu como o calendário é desavisado de presença? As redes notificam, as pessoas se lembram e vira tudo ” dia do amigo, dia da saudade, dia disso, dia daquilo”…
Eu gosto de dizer feliz todo dia! E que as coisas boas voem sempre até você.

E é esse meu presente de amor… Um voo onde te dedico a leveza do carinho.
Beijo
Mari
Projeto Missivas de Abril
Scenarium Plural Editora

Projeto 6 on 6 | Scenarium…

Falar sobre os livros da Scenarium Plural para mim é como falar de filho. Você vai ver aqui aquela mãe boba que só admira cada coisa que o filho faz.
A Scenarium entrou em minha vida pelas mãos de Lunna Guedes e foi amor à primeira vista, ao primeiro comentário e depois disso tivemos tanto de primeiro/primeira que até hoje tenho primeiros lances com ela.
Dessa descoberta veio as realizações de sonhos e tudo que aconteceu está aqui registrado em posts, poemas, cartas e fotos.
Mas, hoje, venho te mostrar a minha Six Top List dos livros que a Editora publicou e que te convido a conhecer:

 

Lua de Papel I, II e III
Lunna Guedes

“eu nunca antes tive delírios
– mas dizem que tudo sempre aponta para um possível começo.
Seria esse o meu?…”

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Lua de Papel não é só um livro. São três! Não é só uma trilogia! São histórias que se encontram e encantam.
Eu, amei cada um deles e enveredei pela história de uma maneira que ficava torcendo para que no próximo capítulo fosse além do que a autora descrevia. Lua de papel me fez viajar, sonhar e ficar como se estivesse dentro do livro, quase à beira da janela e bastava fechar os olhos e respirar e eu já era parte do livro…
Me apaixonei por cada personagem e muitas vezes tecia meu diálogo com elas. O livro me surpreendeu em seu final cativante e encantador.

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Dentro de um Bukowski
Aden Leonardo

“para o que existiu e foi deixado sob o lago
– aquela imensidão do esquecimento, do dia a dia. Um “B” lado oposto da realidade,
debaixo das estrelas”.

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Dentro de um Bukowski me levou/leva para dentro dos delírios. Aden me leva em uma viagem onde me deixo levar pelo lirismo latente.
Ouso, camuflo, domino, choro e rio junto.
Com ela eu não conjugo os verbos, eu os engulo e devoro. Talvez eu solte o grito que ela guarda. E literalmente viajo com ela pelas estradinhas – entre ida e volta – de Minas.
Confesso que enquanto “viajo” pego alguns atalhos dentro da paisagem e isso se transforma na melhor parte da viagem.

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A construção da primavera
Adriana Aneli Costa Lagrasta

“Ele está certo, do verão amo a tempestade, que estranhamente se antecipa no outono, este ano.

“Percorria o vidro com a ponta dos dedos, respirava fundo – como quem morre – e misturava o lado de fora ao lado de dentro…”

Compartilhei desta chuva de hoje… a de sempre… a memória: somos 60% água, matéria líquida aconchegada à passagem do tempo”.

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Adriana Aneli primeiro me embriagou com seu Amor Expresso. Sorvido, bebido e adorado. Além da simpatia – e simpatia é quase amor – e da materialidade do livro apreciado em um trabalho lindo do Atelier Flávia Taiano – que te convido a conhecer – os 50 mini contos me levaram à tardes mornas, aspirando o cheiro do café enquanto degustava o livro.
Já A Construção da Primavera me trouxe o ritmo das estações. Dentro de um projeto lindíssimo: O Diário das Quatro Estações – do qual me orgulho imensamente em fazer parte – Adriana te pega pega mão e te leva o ar supremo do outono adocicado pela sua poesia, à doçura da primavera em plena construção, ao inverno mesmo acinzentado e florido e um verão de luxo puro dentro das palavras dela. Com isso, ela constrói não somente a primavera, mas todas as estações derramadas de poesia.

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Scenarium
Plural North and South

Estamos sempre à beira. podemos quebrar a espinha ou virar o mundo. não é questão de escolha, às vezes. mas pode-se reconhecer, pelo menos, que à beira sempre está presente.

estamos sempre à beira. há os que percebem. há os que sentem somente frio na barriga. não há volta, o frio na barriga não perdoa.

estamos sempre à beira. entre nortes e suls, estaremos perdidos (como se quisessemos direção…); entre lestes e oestes, a mesma falta, o mesmo desapego.

estamos sempre à beira, mesmo quando caímos.

à margem, à beira, norte e sul.

Claudinei Vieira
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Com Plural North and Soul e o poema de Claudinei Vieira falo do Projeto Plural e toda diversidade e gama de poetas magníficos que nos presenteiam com participações especiais nas quatro edições durante o ano. A Plural é uma revista de luxo onde a troca e a pluralidade te faz singular dentro da literatura. A arte inserida desde o projeto ao formato nos torna parte da ideia, do contexto e por fim, da poesia dividida entre uma gama de autores que embarca na ideia da Editora.

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Septum
Lunna Guedes

 

gosto das madrugadas frias, com cheiro de chá quente na xícara… vinho na taça – um gole ou dois e os sabores se precipitam – gosto de um som a dizer suas notas e a pilha de livros a espiar-me, como se dissesse: leia- me. Gosto de ver os envelopes vazios… com suas cores a dizerem possíveis destinos.
Meus mapas são outros…eu me movo através de elementos particulares. Vou de uma esquina a outra em busca de uma mesa de canto do mundo, da vida e do corpo. Cheque mate!

Lunna Guedes

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Quando Septum se abriu aos meus olhos eu mergulhei dentro do imaginário de Lunna Guedes. Não fosse pela delícia de vasculhar as palavras que tão bem me tocam seria pela jogada de mestre de Lunna de nos prender ao seu mundo. As histórias nos envolvem a ponto de acharmos que a história é nossa e que o personagem pode ser eu, você ou alguém conhecido… Septum traz a magia do sete. Do mês da primavera, do idioma diferenciado em explorar nosso pensamento na melhor forma de desvendar os mistérios onde os brancos são preenchidos entre o encanto e os gestos.
Septum é esse gesto pronto de entrega.
Lunna nos presenteia e oferece dentro das estações a sensação plena delas. Septum é o próprio presente do Outono e a docilidade da primavera…A sensação de sentir na pele o inverno e se aquecer no verão.
Então, te proponho um desafio: que você não se perca dentro das palavras. Ela sabe como surgem os personagens.
A jogada está dada. O próximo lance é seu.

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Detalhes Intimistas
Tatiana Kielberman

 

Ontem você me encontrou no meio da rua e me trouxe de volta para casa. Eu te pedi apenas um grão de areia, um pedaço de chão… mas você me ofereceu em retorno um território inteiro de lembranças e saudades.
Foi como estar dentro do abraço de antes, ao qual nunca deixei de pertencer: metade-inteira-fraqueza-inquietante…
Você sempre me soube, e ontem não foi diferente… Aquela mesma figura afetuosa adentrou minha alma com seus olhos de raio-X, oferecendo respostas àquilo que eu nem havia perguntado, e silenciando cada uma de minhas insistentes e levianas dúvidas…
Uma doçura mesclada com imponência perfaz as metáforas do seu caminho, e diante dessa singeleza me reverencio, pois foram seus gestos tênues que plantaram em mim a semente da realidade – elemento sempre tão frágil aos meus olhos…
Hoje o dia amanheceu mais claro, e mais bonito também… Confesso: estava com enorme saudade de enxergar a vida assim!
Quando você vem me encontrar outra vez?

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Tatiana um dia me disse: “Palavras não são capazes de traduzir o carinho que sentimos”… e eu digo que são…
que as palavras que Tatiana me leva pela mão como se desenhasse o caminho para eu seguir.
Tatiana escreve com a alma e por isso, em cada texto a alma se mostra e faz com que o coração acelere e aceite a loucura e a lucidez, a fragilidade e a força. Tudo una e várias dentro dela.
A menina e a mulher. A fome e a saciedade.
Com as palavras Tatiana Kielberman nos abraça, acolhe, afaga e nos instiga a descobrir o mistério que ela tão sutilmente sugere.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium
Conheça mais um pouco de nosso autores aqui:

Adriana Aneli
http://www.adrianaanelicosta.com/

Lunna Guedes
https://catarinavoltouaescrever.wordpress.com/

Aden Leonardo
https://www.facebook.com/aden.leonardo?fref=ts

Claudinei Vieira
http://desconcertos.wordpress.com/

Tatiana Kielberman
https://meusabismosfaceis.wordpress.com/

 

Caindo de si mesmo em si mesmo

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“Quando olhei no espelho,
você era um abraço dentro de mim.
Ver a gente foi como flagrar monges budistas brincando…
um quase impossível fugir das repetições
de palavras calmas.
Palavras são beijos alegres, amor.
Um carinho fugiu um pouquinho e foi brincar no quintal
cheio de meninos esperando para algazarra. As donas de casa
olharam o barulho pela janela…
só conferindo se tinha filho seu.
Sim… e com asas”.

                                                                                                                                                 Aden Leonardo

Menina Paraíso,

Passei o dia inteiro a desenhar rotas de fuga… pela janela, pelos muros, escadas ou pelo quintal enviesado onde o espaço é pequeno. Descobri que não adiantaria… não conseguiria fugir de mim mesma. Acabo caindo dentro de mim mesma…
Busquei presença em olhos perdidos no céu… alguém traduzia idiomas que não entendi e juro que preferi mil vezes meu diálogo estranho com você – of course – aliás, prefiro sempre os diálogos com você. Ao mesmo tempo que te dou bronca, a bronca vem para mim. Você tem esse jeito de meninaquequerabraçoecomissodáabraçodevolta… tão bom!
O dia, às vezes, começa estranho… Havia frases soltas de autores estranhos que eu nunca havia lido…e a moça do tempo mais uma vez errou a previsão.
Amanheceu amarelas as manhãs de Outubro. Choveu poucas vezes durante a manhã, como se o tempo soubesse que minha sombrinha comprada nos chineses não protege ninguém da chuva. Pelo contrário, faz com que molhamos mais.
O sol inspira a cor sobre os telhados das casas … Sentei no canto escuro do muro.
Ali, escrevi mil vezes poemas pensados em noite de estrelas – quando o pássaro em seu voo noturno era estátua da sombra –  e a moça do tempo vai errar outra vez a previsão de amanhã. É outra estação dentro de mim.
Escrevi em casulos o dialeto das asas. Era voo para tudo quanto é canto.
Existiam várias estações dentro de uma. Deve ser o efeito borboleta a desenhar erupções ao toque. Era eu caindo no abismo de mim. Como pode as coisas mudar de um dia para o outro? Como pode o que ontem ter tanta importância e hoje já nem fazer sentido? Apesar dos pontos de interrogações, não são perguntas. É quase uma afirmação essa mudança dos dias, das coisas.
Hoje não vi o pássaro colorido. Nem aquele que bem me vê todo dia. Hoje, vi a árvore do vizinho, que já está secando cheia de aves. Todas em seu canto agudo a desenhar minha rotina.
Há esse contrair da pele dentro do azul. Azul também é o céu e sua gentileza de cores dentro da hora… A luz a azular os galhos entre as falas das aves. É um marulhar de vento azul no quintal onde os peixes voam feito pássaros de qualquer cor – é que vejo peixe em tudo quanto é canto –  a solidão tem esse retrato pintado de azul desbotado na parede com estuque descascado. Fiz isso ainda menina – me lembro – chovia e eu não podia correr lá fora com as borboletas. Minha mãe não permitia dançar na chuva – nem nada era possível para uma menina que teve dificuldades no parto e conversava com os bichos – aliás, não permitia quase nada que não estivesse sob o olhar atento do meu irmão. Como raramente ele abria a boca – a não ser para contestar minhas loucuras << de tocar os bichos >> eu falava com os grilos, os animais e dizia que eu era só. Que sofria de solidão. Ao que minha mãe respondia que a solidão era uma parede sem quadros, retratos, cortinas ou qualquer coisa que a enfeitasse e que eu era uma parede cheinha de fotos de irmãos e enumerava um a um, lado a lado antes da janela com cortina feita de retalhos coloridos que ela fazia. A janela era eu – ela dizia – trazia sol na parede toda. E lá ia eu em dia de chuva a descascar o estuque e depois pintar de companhia a minha parede vazia.
Você é essa cor misturada de vida junto com a minha e que eu queria moldar e te direcionar para o caminho livre da liberdade. Você é esse estuque que sustenta minha cor azul. Eu digo azul, mas pode ser qualquer cor. Pode ser o verde que você avista quando o trem apita aí da sua janela. Pode ser o vermelho da sua blusa quentinha de ginástica e pode ser a cor da sua meia listrada e suas cores em movimentos. Não. Péra. A meia tinha Barney e seu destino infantil de desenho animado. Pode ser qualquer cor desse cerrado denso que corta as montanhas do seu lugar.
Montanha acima, serra abaixo…estradinha de Minas em direção ao Paraíso: Tu.

Beijo meu

Mariana Gouveia

Esse post é parte integrante do projeto ‘missivas de primavera’, que conta também com os autores:

Adriana Aneli: http://www.adrianaanelicosta.com/
Lunna Guedes: http://catarinavoltouaescrever.wordpress.com/
Chris Herrmann: http://www.christinaherrmann.com/
Tatiana Kielbermann: https://meusabismosfaceis.wordpress.com/
Manogon Manoel Gonçalves: http://coisasdemanogon.blogspot.com/
Emerson Braga: http://embusteiroviajante.jimdo.com/
Ingrid Morandian: http://www.facebook.com/ingrid.morandian/


É o paraíso, a moça!

Anna & Elena BALBUSSO*imagem: Anna & Elena Balsusso

 

Se lança no infinito e nem me conta nada
Vira hippie na banca da esquina.
Sorri em dias despencados
quer morar dentro de um livro de Bukowski
e ainda reza.
Chove quando acorda, acorda sol maior no lado B da vida.
É o paraíso, a moça!
ri das minhas bobagens,
é corruptivel em seu ideal ecológico. Mas, só quando o professor pede.
Perdeu tudo quando a casa virou flor. Nem tinha seguro.
Mas, no caminho até ela eu descubro o Paraíso. É.

 

Mariana Gouveia

voo

Duy Huynh-001

Desenhou estradas para a viagem dela. Tomou cuidado ao espalhar paisagens. Alguém falava da vida, de sopro.
Ela pensou que algumas viagens são mais partidas do que chegadas.
Colocou um riso disfarçada de trevo na primeira sorte. Foi quando os olhos viram além do físico. Da alma. Dali, viajante, tinha distanciamento das coisas. A viagem era para distrair letras. Rever romances onde se perdia dentro dos dela.
Cidades, trocas. Solidão dentro do nada. Montanhas. Ar rarefeito dentro do peito. Olhares se cruzam, se desviam. Vozes e palavras perdidas no meio do nada. Parada.
Quando a cidade termina começa um nada. Nessa hora, o cenário muda. Dimensões do desenho dentro dela.
Floriu. Pela mão de alguém que desenhou a viagem, floriu.
Ficou ali entre o desenho e a miragem sendo.
Poderia ouvir jazz – ou rock, bebê ! –
e não tocava nada.
Quando percebeu já nem era chegada nem partida.
Era apenas voo nos olhos dela.

 

Mariana Gouveia
In, O Lado de Dentro – Segunda Edição
*imagem: Duy Huynh