( do desencontro)

(do desencontro)

moro ao lado
morei sempre ao lado

foi por isso
que nunca bateste à minha porta

(ahcravo)

Ps: Como abrir a porta para quem mora dentro de mim?

Embriagada


Seja tu o copo onde eu mergulhe

te mate a sede e seja em ti

minha vontade de líquido.

ah cravo

 *fotografia: Mira Nedyalkova

Eu sou a casa

Eu sou a casa

estar em casa

é estar em mim

aqui a música é minha

sou eu

que a escrevo com palavras

que a desenho

na pauta do corpo

encontrar-me-ás

sempre em casa

porque eu sou a casa

tijolo a tijolo erguida

a partir do chão sentida

encosto ouvido ao mar

batem-me à porta

fico na dúvida

se não serei eu lá fora

entra

a casa é humilde

sem decorações avulsas

enchem-na a memória

livros, discos, rabiscos

eu

eu sou a casa

que mais querer então?

ahcravo

São castanhos os meus olhos azuis

são castanhos os meus olhos azuis

que poemas te posso escrever
amor
neste tempo em que as árvores se despem
e eu me visto
com as folhas que lhes arrancaram?

eis-me
venho de mãos nuas
e são castanhos
os meus olhos azuis de tanto olhar o mar

encontrar-te
no rosto a mensagem
aprender-te
no corpo a viagem
e partir

ahcravo