É domingo

e o silêncio estende-se pela casa. há muito que não te escrevo. dizer-te que existes ainda nos corredores, nos espelhos.
começo a esquecer-me da tua voz. oiço-te dentro de mim mas não consigo reproduzir a tua voz.

é tão difícil guardar a memória de uma voz

Al Berto
©️ Magdalena Benny

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À espera de um sistema solar…

À espera de um sistema solar.jpg

… Onde seja possível uma sombra maior … :

Conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.

Víamos – pelo lado menos sombrio do pensamento – todo o sistema planetário.

Víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos dedos. O latejar do tempo na humidade dos lábios.

E a insónia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos.

As estrelas mortas das cidades imaginadas. Os ossos (tristes) das palavras.

A noite cerca a mão inteligente do homem que possui uma cabeça transparente. Em redor dele chove. Podemos adivinhar uma chuva espessa, negra, plúmbea. Depois, o homem abre a mão, uma laranja surge, esvoaça.

As cidades (como em todos os livros que li) ardem.

Incêndios que destroem o último coração do sonho.

Mas aquele que se veste com a pele porosa da sua própria escrita olha, absorto, a laranja. A queda da laranja provocará o poema? A laranja voadora é, ou não é, uma laranja imaginada por um louco? E um louco, saberá o que é uma laranja? E se a laranja cair? E o poema?

E o poema com uma laranja a cair? E o poema em forma de laranja? E se eu comer a laranja, estarei a devorar o poema? A ficar louco? (…) E a palavra laranja existirá sem a laranja? E a laranja voará sem a palavra laranja? E se a laranja se iluminar a

partir do seu centro, do seu gomo mais secreto, e alguém a (esquecer) no meio da noite – servirá (o brilho) da laranja para iluminar as cidades há muito mortas? E se a laranja se deslocar no espaço – mais depressa que o pensamento, e muito mais devagar que a laranja escrita – criará uma ordem ou um caos? O homem que possui uma cabeça de vidro habita o lado de fora das muralhas da cidade. Foi escorraçado. (E) na desolação das terras, noite dentro, vigia os seus próprios sonhos e pesadelos. Os seus próprios gestos – e um rosto suspenso na solidão. Onde mora o homem que ousou escrever com a unha na sua alma, no seu sexo, no seu coração? E se escreveu laranja na alma, a alma ficará saborosa? E se escreveu laranja no coração, a paixão impedi-lo-á de morrer? E se escreveu laranja no sexo, o desejo

aumentará? Onde está a vida do homem que escreve, a vida da laranja, a vida do poema – a Vida, sem mais nada – estará aqui? Fora das muralhas da cidade? No interior do meu corpo? Ou muito longe de mim – onde sei que possuo uma outra razão… E me suicido na tentativa de me transformar em poema e poder, enfim, circular livremente.

Al Berto
*imagem: Alexander Sulimov

(…)

(...) Amanhã

Amanhã, ou enquanto dormes 
– agora mesmo – vou pensar em ti.
Intensamente: até que as horas me doam sobre a pele,
e o movimento dos dias passe como aves 
que perdem o sentido do voo – até que tudo
o que me rodeia tome a forma do teu corpo.
E em mim circules – quando estendo a mão 
por dentro da noite e te acordo,
no fogo dos meus olhos.
Al Berto
*imagem: Tumblr