Hoje, a saudade de ti:

Hoje, a saudade de ti

punhalada
de tinta muito branca,
o cheiro do que é novo, o cheiro da
doença a alastrar
Se estivesses aqui, dirias o meu nome
corrigias-me as coisas, e tudo estava
bem, mesmo que dentro de sentido
opaco
A tinta muito branca, o cheiro
que é do novo, aqui deste café,
corrigem-me a memória:
o cozinhares tão mal, a desarrumação
em tantos cantos, os nomes que criavas
para chamares as coisas
outra coisa
E os pedidos depois,
súplicas do silencio e do não choro,
tenacidades de viver igual,
e não ceder tanto – e não ceder
Hoje, em tão grande saudade,
minha amiga,
nem sei o que me resta:
Sonhar com o telefone a tocar,
e a voz,
ou eu a corrigir-me o hábito
do número –

Ana Luísa Amaral
*imagem: Tumblr

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em água eterna em mim.

em água eterna em mim

“…E não sei se sou eu
a tua casa,
Se és tu quem mora
em água eterna
em mim.”

Ana Luísa Amaral

poeira de diamante que encontrei pelo verso e por acaso

poeira de diamante
Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,

e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:

poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti.

Ana Luísa Amaral

Se for preciso, irei buscar um sol…

Se for preciso, irei buscar um sol

para falar de nós:

ao ponto mais longínquo

do verso mais remoto que te fiz

Devagar, meu amor, se for preciso,

cobrirei este chão

de estrelas mais brilhantes

que a mais constelação,

para que as mãos depois sejam tão

brandas

como as desta tarde

Na memória mais funda guardarei

em pequenas gavetas

palavras e olhares, se for preciso:

tão minúsculos centros 

de cheiros e sabores

Só não trarei o resto

da ternura em resto esta tarde,

que nem nos foi preciso:

no fundo do amor, tenho-a comigo.

quando a quiseres-

Ana Luísa Amaral

Neste palco de sol,

Neste palco de sol,de repente:
os teus lábios:
anjos caídos mas abençoando

Cada curva e tremura
dentro do nervo exacto
da memória

Por esses lábios
eu faria tudo:
rasgava-me de sangue
e inocência,
partia com as mãos vitrais
e estrelas,
desintegrava o sol

Já não anjos caídos
os teus lábios,
mas deuses transportados
pelos meus

Ana Luísa Amaral

eu preciso das minhas solidões

citrusos1-11bvtmm2kicsi.jpgBeatrix Horváth-Gallai*imagem: Beatrix Horváth-Gallai

Estragas-me a paz.
e eu preciso das minhas solidões,
de bocados mentais sem ti.

Começo a ser doença obsessiva
ao repetir-me por poemas isto:
as tuas invasões à minha paz.
(Podia até em jeito original
por aqui umas notas sobre ti:
cf., vide: textos tal e tal)
Mas é que a minha paz fica toda es-
tragada quando te penso amor.

Interrompi os versos por laranjas.
E volto sempre a ti mesmo que não.
É estranho que pacíficas laranjas
não me consigam afastar de ti.



Ana Luísa Amaral