Revolucionária

Brooke Shaden

Não se pode falar de livro da infância… ela arriscou. apedrejam-na.
Ainda assim, ela não se contem, 
quer construir uma cidade usando a força de homens que saibam assentar tijolos – untar formas de bolo com delicadeza é um acessório à parte.
Sonha com Macunaíma, grita preguiça na esquina. Cria revoluções – micros, macros
Transversa, leva a vida na flauta. Em época de consumo se constipa só para não usar as moedas guardadas em porquinhos com coração.
Ah, esse jeito de usar o batom, tão dela que esforça para esconder seu estado legítimo de Órion. Traz dentro da bolsa um cisco, que usa quando a lonjura bate nos centímetros da distancia de casa.
Adora artes. Sente falta da escola, mas estuda nos mapas as cores de um estado que fica ocre no mapa. Vai entender, essa moça. Nunca lê as bulas! Nunca lê!
Extraterrestre! Extraordinária!
Mas, revolucionária.

Mariana Gouveia
*imagem: Brooke Shaden

Carta à Marte aos cuidados de Vênus

Carta à Marte aos cuidados de Vênus*imagem: Brooke Shaden

Voltei ao seu quintal, e a sua presença é tão forte ali, que nem parece que se foi.
As flores continuam perfeitas e as árvores em sintonia cantam a canção do vento que você dançava.
Parecia que estava ali. Passei por entre os azuis das Hortênsia que você ganhou de alguém.
O pé de amora está no auge e na exuberância – palavra que você repetia para qualquer coisa fora do comum – das frutas. Até parece que sua risada está ali, e a essência da geleia que você fazia parece encher o ar.
Geléia de amora é para amar, Maryann! – você dizia!

Minha missão era esvaziar a casa de suas coisas, de você.
Mas vim embora com todas as lembranças. O diário que me continha em cada dia, a toalhinha de crochê que foi um presente há alguns anos atrás.
Conto um mês hoje, e logo serão dois, 11. Logo será ano e volto do seu lugar com a imagens das poesias escritas no seu quarto onde a vida flutuava em você.
Qual planeta você habita hoje?
Qual emoção te move nesse plano além do olhos?
– Marte é logo ali, Maryann! Basta bater no calcanhar três vezes e dar um pulinho que você já embarca.
Acho que perdi o jeito! Vejo Vênus, Órion, vejo todas as estrelas. Não vejo Marte.
Marte, hoje mora dentro de mim.

Mariana Gouveia.

Inteira

brooke shaden*imagem: Brooke Shaden

Se me queres,
queira-me inteira.
Não por zonas de luz ou sombras…
Se me queres, queira-me negra
e branca. E griz, e verde, e ruiva,
e morena…
Queira-me dia,
queira-me noite…

e madrugada na ventania aberta!

Se me queres, não me cortes:
Queira-me toda…
Ou não me queira!

Dulce María Loynaz

Por você vou roubar os anéis de Saturno

brooke-shaden-inspiration-inspiring-interessting-photography-Favim.com-99370* imagem: Brooke Shaden

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Vivi com você em Júpiter e dimensionei estrelas

Medi-as com as mãos e adornei teus pés com alecrim

Roubei logo ali, os anéis de Saturno e coloquei em teus dedos como queria.

Entre  a brisa suave  e o vento cantava a melodia  pra nós.

O buquê, na delicia das mãos adornava o espaço dourado…

meio cinza, meio gris e teu silêncio dizia mais do amor do que as mais de mil poesias que te dediquei.

O arrepio do meu corpo mostrava a você o quanto eu te queria e assim me tornei tua além dos universos plenos, além dos solares e planetas que haviam.

Eu, era plena de ti e nem precisava dizer.

Você, em mim contagiante tal qual cheiro de primavera ou de chuva e também nem precisava dizer.

Ouvíamos os bosques em três dimensões ou mais. Não sei precisar. Porque ali, apenas existia eu e você.

Não era mão que tocava, mas sentia.

Não era boca que beijava, mas ardia

não era corpo que queimava, mas queria

e você me ornamentou de estrelas e eu vivia.

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Mariana Gouveia