Todas as ausências me doem

Todas as ausências me doem
mas nunca nenhuma conseguirá morder-me mais violentamente do que a tua!

E ainda assim sabes-me a mel e a figos
com broa de milho neste entardecer de mim.

Sabes-me a aconchego
embrulhado num canto da sala embriagada a incenso…
Arruda, canela, mirra, lavanda
com velas plantadas pelo chão.

Sabes-me a deserto e eu tenho sede.
Tenho sempre tanta sede!
Por mais água que me dês a beber
impensável matar esta maldita sede
que me persegue.

Mas é nesse deserto
onde me desfaço e refaço
morro e renasço,
vestida de silêncio
despojada de tudo
inclusive das sedas, da caxemira,
das pérolas, das safiras, dos rubis…
revolvendo todo o sangue nas artérias
que percebo quão firmes são os ninhos das andorinhas e como são cuidadosos os tecelões.

Tudo o resto da tua gritante ausência
em meu corpo,
tuas mãos outrora emoldurando o meu rosto
é coisa nenhuma!
Talvez sempre tivessem sido nada,
talvez tu a quem tanto amei
nunca tivesses sido coisa alguma
enquanto eu esfomeada só conseguia
vislumbrar em ti a doçura do mel
numa fatia de broa de milho.

Sabes-me a deserto e eu tenho sede.
Tenho sempre imensa sede!
Morrerei de sede em tuas mãos ou em tua ausência e as chuvas do norte clamam por mim.

Talvez um dia
quem sabe deixes de morder como um escorpião esfaimado os meus pés, as minhas pernas e me permitas voar.

Adeus.

© Célia Moura
*imagem: Tumblr

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