Entra?

Entra
*imagem: Tumblr

Vou ser mais ousada daqui pra frente
Ela se assustou.
– Mais?
– Sim! Pintar os cabelos de vermelho.
– Já são!
– Explodir a vida em poesia.
– Já é.
– Pode gritar nome, dizer saudade, direcionar lugares, apontar direção?
– Ser considerada doida, atrever-se ao imaginário, tatuar nome no peito, cantar canções que lembram do amor?
– Ousadia já é seu nome.
Ela anota. Escreve uma frase inteira.
Volto a atenção para a revolta interna. Dentro das possibilidades de mim. Alguém errou meu nome por acaso. Criei um poema que falasse de amor. Gastei uma noite inteira com insônia. Vejo estrelas sem fechar os olhos.
– É o amor, beirando a loucura que todo mundo tem.
Capto na solidão da porta, em qual vai restar meus sonhos.
Ali, depois da chave, a realidade é dura, estreita. Queria aprender mentir.
Assim, digo que não te amo, que está tudo bem e minhas palavras serão certezas.
Mas, não! Continua ecoando em mim as letras que nunca disse.
Respiro. Paro.
Ela olha para meu silêncio e lê pedaços de poemas que acho que conheço.
Hora de ir. Vasculhar corredores intensos, dores maiores que as minhas.
Vontade de voar.
Deixo a chave.
Entra?

Mariana Gouveia – Divã

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Ancora-me o desejo

stephen carroll

Quero que sua boca desminta
a limosidade depositada por lagos rasos

Que tua língua com herança dos navegantes
lance-me tempestades e tormentas

Até que reste sobre meu corpo a salinidade de tuas águas.


Karinne Santiago

*fotografia: Stephen Carroll

Teu aroma de vinil

seu aroma de vinil

“Analógica você
Cartas num papel de pão
Teu aroma de vinil
Me inspira” Maria Gadu

Permitiu a espera.
Passos lentos atrás da cortina. Canção que fala de música.
Quis dançar. Lembrou de danças de outrora. No quintal vazio. Só as duas. O céu povoado de estrelas. Abraço apertado enquanto olhos vasculham se alguém espia pelo muro.
Coloca no repeat a música. Já sabe a letra de cor.
Digita errado o recado que queria dar.
Fala apressada, como se depois não conseguisse mais.
Foi dia de cumprir promessas. Tudo saiu fora da rotina.
Ela não anota nada. Pensa apenas que viveu tudo que podia viver.
Tem ainda o gosto do beijo na boca. Inventa nomes para os sabores sentidos.
Agridoce na lógica da alma.
Pensa nos signos e no mapa astral que a música sugere.
Viu os recados enviados na ausência. A secretária do médico lembra do exame. Alguém disse que sentia saudades. Não tinha ligações dela. Nem podia.
Faltou o ar. Corre até a janela. Reparou que a cortina foi trocada.
O estilo meio vintage combina com o dia de hoje.
A moça do tempo fala de mais frio. O pé gelado aquece o outro.
Sai sem despedir -é possível que ainda volte hoje – há tanta coisa pra falar. Momentos vividos que a canção registra.
Lembra do disco de vinil da canção preferida. Perdido no baú das lembranças.
Faz o que a canção sugere ao tocar o dedo na boca.
Inspiração no aroma do vinil que Maria Gadu canta.
Analógica se sente. Vai em busca da vida.

Mariana Gouveia – Divã
*fotografia Tumblr

 

Quero mudar. De mim.

Quero mudar. De mim

De vez em quando eu a procuro no meu quintal.
E te vejo nos instantes que vivi ali.

A solidão esmagadora e essa maldita espera e minha mão transgressora que toca lembranças que quero esquecer.
Até mudo as coisas de lugar.
Coloco a horta onde o vento bate e onde eu abria os braços para te abraçar.
Assim, ele não me lembrará mais seus cabelos revoltos e o brilho no seu olhar.

Quero mudar de casa, porque essa tem aquele canto insistente que você ficava e a cadeira e o seu nome rabiscado nos muros onde desenhei mil corações.
Quero mudar de bairro, porque nesse, as ruas que te mostrei escancaram debochadamente me lembrando do riso que você deu, das cores que você gostou e do retrato seu seguindo por elas, devorando os becos com seu olhar de espanto, colhendo a miudeza das flores, bebendo o sabor do sol, só porque lembra onde você nasceu.
O meu lugar lembra o seu lugar.

Quero mudar de cidade, de mundo, de planeta.
Ir para onde não aja lembranças e onde você não viveu.
Onde em cada direção que eu olhar não veja marcas de sua presença.

Aqui, há presença demais. Há lembrança demais e há saudade demais.
Aqui, o vento dança e rasga a pipa que algum dos meninos não conseguiu resgatar e o som dela balançando ao vento me lembra você.

Aqui há cheiro de pele na mão, nas roupas de cama e até o cheiro do sabonete líquido me lembra você.
Mudo tudo de lugar e jogo lembranças fora.
Depois vou lá e cato tudo de novo e me sujeito novamente à elas.
Esfrego a pele para tirar seu cheiro, mas é estranho, porque ele está dentro de mim.

Quero mudar. De mim.

Mariana Gouveia

tinha o sonho de ser grande…

tinha o sonho de ser grande
e chegar rápido ao alto das prateleiras onde estavam os segredos guardados.
ter o nariz arrebitado da menina sardenta que cabia na janela mágica de onde não lhe conhecia portas.
e saltava o tempo todo, na inocência de se pendurar num guindaste invisível onde os adultos se prendiam, e esticados, viam para lá dos seus horizontes, de curta distância, do alto dos seus arrebitados narizes.
até aqueles que agarravam nas suas borrachas e apagavam aquelas sardas que os faziam parecer mais felizes.
os grandes gostavam de parecer sérios.
ela só gostava de parecer grande e por isso saltava o tempo todo como se em vez de pés lhe tivessem crescido molas. agora, acha que são asas.
fugiu-lhe depressa esse tempo e há demais para ver.

Rosa Maria Ribeiro
*fotografia: Kylli Sparrek

Aqui eu bebo abismos.

Aqui eu bebo abismos.

Digo dos mergulhos líquidos ao infinito medular
em busca do fundo que não há.
Aqui eu engulo temporais. Digo dos verbos necessários,
como as lágrimas dos ventos a me fazer tempestade
na alma.

Eu ontem chupei beijos de laranja
espremida na boca. Empurrei de leve
o teu peito pra tocar o coração e vazei o invisível.
Digo das mãos o imprescindível, o inacessível
da alma sorvida no oco
das digitais da língua, no tato da palma.

Eu ontem me afiei na lâmina da tua luz para ser aguda e furar o abismo inalcançável onde o amor descansa na véspera do humano.

No fundo talvez seja só isso. Essa vontade de ser eterno dentro.

A morte é um vento grávido e morno que não tem pressa de parir. Quando finalmente ferve, derrete dentes, nervos e aspas. Então sorri.

Shala Andirá
*imagem: Lauren Treece

Uma bailarina sem pés, uma ave sem asas.

Uma bailarina sem pés, uma ave sem asas

I

Cubro-te de beijos.
Percorro-te.
Desenfreadamente.
A maciez da pele, o respirar tosco, o olhar sibilante.
Sou das tuas mãos.

Do teu amor.
Aconchego-te a roupa, enrosco-me no teu calor.
Sou um gato, uma bailarina doida.

Uma bailarina sem pés, uma ave sem asas.
Sou do teu amor.

Deixo-me estar.

E um rio? um silêncio?

Uma forma de música invade-me o corpo.
Sou o sol.
E tu a luz.

II

Pinto-te as cores.

Peço-te os minutos, as asas e os pés.

Mio. Quero ser um gato.

Enroscar-me no teu calor, pertencer ao teu carinho.

Peço-te os minutos, as asas e os pés.

Sou uma bailarina, numa dança tosca, onde percorro a maciez da tua pele, onde me perco no teu olhar.
E sonho o sol. Os dias de sol ao quadrado.

Agripina Roxo