A propósito das coisas que não têm o mínimo propósito

A propósito das coisas que não têm o mínimo propósito*imagem: Kamil Vojnar

 

o sol não cabe na gaveta das meias
as palavras que sussurramos porque a música estava demasiado alta
também não
no entanto
foi nessa gaveta que pensei quando pensei em ti ao escrever-te no poema
ao ver-te chegar
ao ver-te partir sem partir
gigante na despedida que não aconteceu
e assim ficaste
a fermentar no lado de dentro dos meus olhos jardim interior para ideias sublimes plantadas à mão
hoje
é sempre hoje
abri-te a porta para este lado de cá
ou de lá não importa
já cá estavas
só não sabias.

 

Francisco Sousa Hill

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Hoje sonhei com a tua boca.

Hoje sonhei com a tua boca.jpg

Sonhei que ela era uma casa,
onde vivíamos nus e mudos.
As paredes cobertas de palavras
escritas por nós, com as unhas.
Todas as palavras de que precisaríamos
até ao fim da tarde.
Era uma casa húmida
como todas as casas onde a vida acontece.
Havia uma simplicidade branca no sentir.
Tu beijavas-me as mãos pousadas
no teu olhar.
Eu desenhava silêncios na tua pele.
E estremecíamos a cada brisa irregular.
Não pares, não agora.

Francisco Sousa Hill
*imagem: Elena Vizerskaya