Como quem vê e escuta o cerne da semente…

Dmitry petrovsky
E da altura de dentro já lhe sabe o nome.
E reverdeço
No rosa de umas tangerinas
E nos azuis de todos os começos.
 
(Hilda Hilst, Amavisse,  IX, in Do desejo)

*imagem: Dmitry Petrovsky

 

Se for possível, manda-me dizer:

Se for possível, manda-me dizer– É lua cheia. A casa está vazia –


Manda-me dizer, e o paraíso

Há de ficar mais perto, e mais recente

Me há de parecer teu rosto incerto.

Manda-me buscar se tens o dia

Tão longo como a noite. Se é verdade

Que sem mim só vês monotonia.

E se te lembras do brilho das marés

De alguns peixes rosados

Numas águas

E dos meus pés molhados, manda-me dizer:

– É lua nova –

E revestida de luz te volto a ver.

Hilda Hilst

no gesto

no gesto*imagem: Tumblr

Este é um tempo de silêncio.
Tocam-te apenas.
E no gesto te empobrecem de afeto.
No gesto te consomem.
Tocaram-te, nas tarde, assim como tocaste,
adolescente, a superfície parada de umas águas?
Tens ainda nas mãos a pequena raiz,
A fibra delicada que a si se construía em solidão?

Hilda Hilst