A propósito das coisas que não têm o mínimo propósito

A propósito das coisas que não têm o mínimo propósito*imagem: Kamil Vojnar

 

o sol não cabe na gaveta das meias
as palavras que sussurramos porque a música estava demasiado alta
também não
no entanto
foi nessa gaveta que pensei quando pensei em ti ao escrever-te no poema
ao ver-te chegar
ao ver-te partir sem partir
gigante na despedida que não aconteceu
e assim ficaste
a fermentar no lado de dentro dos meus olhos jardim interior para ideias sublimes plantadas à mão
hoje
é sempre hoje
abri-te a porta para este lado de cá
ou de lá não importa
já cá estavas
só não sabias.

 

Francisco Sousa Hill

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Amor no hospício

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Uma estranha chegou
A dividir comigo um quarto nessa casa que anda mal da cabeça,
Uma jovem louca como os pássaros

Que trancava a porta da noite com seus braços, suas plumas.
Espigada no leito em desordem
Ela tapeia com nuvens penetrantes a casa à prova dos céus

Até iludir com seus passos o quarto imerso em pesadelo,
Livre como os mortos,
Ou cavalga os oceanos imaginários do pavilhão dos homens.

Chegou possessa
Aquela que admite a ilusória luz através do muro saltitante,
Possuída pelos céus
Ela dorme no catre estreito, e no entanto vagueia na poeira
E no entanto delira à vontade
Sobre as tábuas do manicômio aplainadas por minhas lágrimas deâmbulas.

E arrebatado pela luz de seus braços, enfim, meu Deus, enfim
Posso de fato
Suportar a primeira visão que incendeia as estrelas.”

Dylan Thomas
*imagem: Kamil Vojnar

Vestiu-se em meu corpo como se eu fosse roupa.

kamil Vojnar 1*imagem: Kamil Vojnar

Com as pontas dos dedos tocou me a clavícula como se me colhesse no varal de algum dia ensolarado.
Depois seus dois dedos, como bico de gavião, me violentaram.
Invadiu com tuas pernas as pernas que são minhas, entre coxas e desfios de tecidos; os sexos se esfregando ao entre dentes de nossos zíperes.
Em tuas meias, meia parte de mim. Eu, pernas e braços, claudicantes, sobre o piso do quarto. Você, peça íntima quarando na claustrofobia do varal.

Alexandre Pedro

Ícaro

Ícaro*imagem: Kamil Vojnar

Sacudiu o pó
tratou cuidadosamente a ferida do joelho
reuniu os bocadinhos das suas asas
colou-as com paciência
e pendurou-as na parede da sala
como recordação

António Pedro Pita

Final feliz

Kamil Vojnar-001*imagem: Kamil Vojnar

Tem jeito de anjo, a moça
mas passou a ser indecente
olhar perdido nas nuvens
Resolve ser na mão de alguém
Vivendo doces mentiras do dia,
na noite se fantasia com asas e pensa em salvar o final feliz da história.
Enclausurada, lá pela meia noite tira a roupa
Traz sempre um cheiro de rosas
(anjo cheira a nuvens – eu acho)
exala amor novo
Sabe ser quente
sabe ser porto – ela diz
e no conto de areia de água doce disfarçada de mar
quer um final feliz.
Satisfazendo os desejos dela dou-lhe o céu e fim

Mariana Gouveia