Carta à Maria

rasga todos os mapas, as cartas marítimas e geográficas
esquece os caminhos que não são teus
cartografa apenas as ruas da tua infância e a tua aldeia  
guarda no peito a trilha
das saúvas vermelhas
e das lagartas de fogo da tua alma
e segue
no rastro dos caracóis dos muros que vieram ao chão
viaja, se possível, navega — voa!
Nydia Bonetti

Querida Maria,

 

É verdade que você se transformou. E se eu fosse detalhar resiliência, seria teu nome que estamparia nas camisetas que usaria todos os dias.
Lute como uma garota! – eu diria – e não seja normal – as pessoas normais são chatas e sem histórias.

Quando me deu sua história, era um dia chuvoso e as palavras se uniam em tom de desabafo e você, ali aos meus olhos nua e crua. Resiliente e aspirante no modo amar. O medo em cada gesto e um desejo absurdo de falar.

Você me usou para ser voz e ao mesmo tempo me silenciei e dei voz a você. Fui seus passos aqui do lado de fora e testemunha do amor que foi plantado e que virou esse romance que traduzo nos gestos de quem ama o amor.

Hoje, Maria, você ganha ares de vencedora e coloca um ponto final naquela história que dói e recomeça a contar seus momentos a partir do belo, da casa com quintal, dos chás de cidreira e noites de amor.

Talvez você se encante por essa nova vida. Talvez você se inquiete com alguns momentos, mas o que posso garantir que tudo se trata do destino.

E do destino, você não tem como fugir.

Mariana Gouveia
O lançamento de Portas Abertas – Codinome Lucidez, será no dia 30 de novembro, às 19 horas na  Casa Laranja… em São Paulo.

Mariana Gouveia,

Minha entrevista pelos olhos de amor da Lunna!

Scenarium livros artesanais

e quem disse que é preciso estar juntos
para estar perto? Acabo e ardo

Mariana Gouveia

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Mariana Gouveia, a mulher-menina-poeta-arteira-arteira… nasceu numa fazenda no interior de Goiás, das mãos de uma parteira que se chamava Florinda, mas todo mundo a conheciam por dona Fulô, no primeiro dia de julho de 1.965, era inverno, mas parecia primavera…
Ali, cresceu e viveu um conto de fadas entre sete irmãos. Mudou-se para o Mato Grosso por conta de uma doença de sua mãe – num dia qualquer de agosto. Precisamente dia 25. Era outono, mas não havia diferença entre os dias quentes de verão e veio descobrir bem depois que era assim o ano todo e em qualquer estação…
Desde pequena as palavras invadira-na e ela escrevia em tudo que podia: papel de pão, de embrulho de qualquer coisa, guardanapos, chão. Cadernos eram luxos que só vez ou outra ganhava, e reservava-os para…

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Ela é assim…

é momento, precipitação, e não a amo menos por isso… a amo mais, porque, quando se abre em sorrisos, minha vida é primavera. E, quando se fecha, é inverno. E eu espero pela estação seguinte, porque em algum momento será verão novamente.

– Lunna Guedes, In: ‘Lua de Papel’ –
* fotografia: Tanja Moss

Post Coletivo – 8 curiosidades sobre a minha vida literária

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Nos últimos anos me tornei singularmente Plural e minha vida literária ficou mais rica  e me vi rodeada de autores contemporâneos com uma escrita deliciosa.

Confesso que fiquei indecisa ao escrever esse post coletivo porque poderia dizer de  diversas maneiras sobre as 8 curiosidades sobre minha vida literária e poderiam se somar e multiplicar e se tornar mais de uma lista.

Desde pequena fui embalada por livros e histórias que minha mãe contava. Lia de tudo. De bula de remédio – que tinha as letras miúdas e minha mãe não enxergava bem – até os jornais que embalavam as compras do mês e que trazia novidades da cidade.

A lista que segue não é definitiva e se for escrever sobre isso de novo, pode ser que não mude nada ou mude algumas coisas. Então, aí estão as 8 curiosidades – nem tanto, para quem me conhece – sobre minha vida literária:

1 — Nunca li e sei que não irei ler:

O cemitério de Praga de Umberto Eco. Juro que até tentei. O livro ficou ali na parte da frente da estante como um convite e não passei da primeira página. Desisti. Esqueci em algum banco de praça de propósito.

2 — Não sinto vontade alguma de ler:

Harry Potter e seus tantos títulos e nomes que nem me recordo agora. Me perdoem os que gostam. Confesso que os livros estão ali, no guarda – roupa do filho e a cada faxina fico pensando se esqueço – os em algum banco ou se pergunto ao filho – que está longe – de quem são para devolvê-los.

3 — Uma indicação recorrente: Lua de Papel. Lua de Papel me levou para a lua. Li e virei lunar. Mergulhei na história e depois disso, toda vez que olho para a lua é de Lua de Papel que me lembro e viajo novamente pelas palavras. Me vejo dentro da história a espiar os movimentos. Aspiro cada página como meu. Sempre dá vontade de ler de novo e quando acontece isso, parece ser sempre a primeira vez. A trilogia me alcançou em grau maior no papel de Alexandra. Lunna Guedes agarrou mio cuore com seu Lua de Papel I, II e III.

4 — Último livro que li:

As Violetas de Março foi mais um dos livros que me conquistou nos primeiros parágrafos por conta da narrativa da autora. Em uma das feiras de livros que um shopping faz aqui a capa me chamou atenção e o cheiro do livro me ganhou. Minha conexão foi imediata por logo ter sentido as emoções em cada palavra escrita por Sarah Jio. Li em quatro dias.

5 — Leria de novo e de novo e de novo:

Lua de papel…. e já emprestei dezenas de vezes os três livros para amigos. Já li e reli infinitas vezes e sempre arrepia a alma e a pele.

6 — Autores que chegaram e ficaram na pele-alma-memória:

Manoel de Barros, Lunna Guedes, Raquel Serejo Martins, Aden Leonardo, Elizabeth Bishop, Manuel A. Domingos, Ana Hartley, Mia Couto e dezenas de outros que me tocaram a alma.

7 — Todo mundo gosta menos eu:

Paulo Coelho. Tirando O Alquimista – que foi uma leitura conjunta com meu filho ainda pequeno, para um trabalho escolar – não consegui ler mais nenhum livro dele.

8 — Uma indicação que me surpreendeu:
Raquel Serejo Martins – Aves de Incêndio foi um presente desde a capa laranja e a poesia encantadora de Raquel a desvendar a asas e a alma.

Agora, abro um espaço para as levezas da vida e se a pergunta for o livro que me marcou… me desenho em Sete Luas. Pela Editora Scenarium Plural onde sete autoras se desnudam nas sete fases da lua.  Um luxo! Recomendo e recomendo.

Sei que gosto cada um tem o seu e como tudo é renovável nessa terra não deixe que minha ideia te atinja. Se você gosta de chá, café, cerveja ou apenas água, o que importa é que brindemos a vida.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo – Scenarium Plural

Projeto 6 Missivas — uma carta para o seu personagem favorito

Tenho para mim que não habitamos o mesmo mundo.
Lua de Papel


*Ale,

Talvez eu devia dizer que a frase me pegou pela mão e me vi dialogando com você:
Realmente, não habitamos o mesmo mundo, mas posso tocar -te para além das páginas tecidas artesanalmente, costuradas página por página e volto lá, na cidadezinha tua. Consigo até caminhar por ela e fazer o sinal da cruz em frente a igreja e lembro – me da menina que eu era.

Não sei se enveredamos pelos mesmos caminhos  e descubro que em alguns sonhos e desejos somos tão iguais.  Ou como imagino, talvez eu te pinta mais leve nos dias. 

O que sei é que te adotei desde a primeira linha e segui de mãos dadas contigo até o Livro III.
Ah, adorável Lua de Papel que te desenhou insegura e reticente e somente por isso pude te moldar aos meus olhos uma Ale minha. 

Sabe, em muitas leituras feitas às avessas buscando só frases tuas, me perdi em suas anotações:

” aquela mulher não tem diálogo. Vive de suas linhas e pedaços de panos que ela emenda para os outros. É uma estranha”

Você é aquela de mim que quero mudar. E ao mesmo tempo possui os defeitos que abomino em quem gosto. 

Você é quase real, Ale… De tanto que a decifrei e de tanto que a desencorajei quando se trancava nos desejos que nunca conseguia expor. É a menina que guardo dentro da memória e a mulher que não consegue a fuga com a qual luta constantemente.

Quem te desenhou nas rotas do avesso trouxe para mim o cheiro dos eucaliptos, os arrepios na pele e a vontade de viver-existir dentro das fotografias…
E como a própria autora disse sobre você:

‘As histórias desenham personagens… alguns, escapam da realidade e saltam direto para as páginas. Outros se deixam inventar…’

Eu me deixei inventar sobre tua história.

Beijo,

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês 
Editora Scenarium Plural Editora
*Personagem do Livro Lua de Papel: Alessandra – 
autora: Lunna Guedes

6 on 6 – Livros

Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros;
Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem água;
Ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.
Jorge Luis Borges


Eu, criança ainda
Os olhos voltados para os livros que chegavam até nós através de doações, ou enviados via correio pela minha avó materna. Tive tantos livros em minhas mãos que meu desejo era colocar em palavras tudo que eu sentia.
Minha mãe conseguia arrancar da gente o que estava guardado lá dentro da alma. E foi ali, no interior de Goiás, em meio às capas puídas de Fernando Pessoa que desejei ser escritora.
Os cadernos – às vezes, artesanais, costurados pela minha mãe, feitos de papel de pão – ou alguns novos, que eram tratados como tesouros foram testemunhas das primeiras palavras.

 

 

O tempo foi passando e como junto com o relógio a vida gira e foi ganhando rumos inesperados. Me tornei radialista e as palavras escritas eram lidas em um programa de rádio. O desejo, ali, guardado no peito e os cadernos, um a um, guardados em um baú.


Um dia, recebi um convite tentador através de um comentário no blog – que eu criara para compartilhar as palavras. O blog era nada mais do que um livro virtual e foi ali que Lunna Guedes, editora da Scenarium Plural me fez o delicioso convite para publicar um livro pela Série Exemplos e nasceu ali O Lado de Dentro.

O livro era mais do que eu sonhara a vida inteira. Com a graça e a arte do artesanato e com o carinho estampado em cada página.

 

Junto com O Lado de Dentro vieram participações na Revista Plural e outros projetos coletivos da editora.
Já não era mais um sonho. Já era realidade e minhas palavras ganhavam voos para além do meu lugar.

Com isso ganhei o mundo e Cadeados Abertos – Diário de Quatro Estações e a poesia ganhou as rotinas do dia a dia.

 


E para quem sonhava em escrever um livro, nesse ano nasceu Corredores – Codinome Loucura.  Agora, já são 3 livros. Todos no formato artesanal e com a poesia derramada em cada palavra.

O livro artesanal tem a simbologia de te abraçar em cada costura e o projeto trouxe para minha vida muito mais do que sonhos realizados. Trouxe para minha vida a paixão pelas histórias. As mesmas que encontro nos livros da Scenarium Plural, além de presentear com amigos espetaculares.

Ser Plural dentro dessa singularidade toda me faz mais uma entre os tantos que amam os livros.

 

Mariana Gouveia
Participam desse projeto:
Ana Claudia – Anália Boss – Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Luana de Sousa – Lunna Guedes – Mari de Castro – – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

 

 

Sobre a noite de sábado

“Gosto de me deitar
sem sono
para ficar
a lembrar-me
das coisas boas
deitada
dentro da cama
às escuras
de olhos fechados
abraçada a mim.”
Adília Lopes

 

Sou feita de abraços e de levezas e as palavras tem desenhado em minha memórias instantes únicos que completam meu estado de ser.

Talvez, mais do que ser feita de abraços que me envolve em energia, sou feita de momentos.
Na infância, lá em algum lugar de Goiás fui desejo de que minhas palavras ganhassem o mundo e com isso, eu levasse o amor para além de mim. Era apenas um sonho e que sob os olhos atentos de minha mãe se tornaram sementes e eu regava plantando letras em meu caderno velho. Era apenas um sonho.

E com o passar dos anos, posso dizer que nem nos melhores sonhos imaginaria a última noite de sábado.

O dia amanheceu leve e com o vento a balançar as folhas das árvores nas ruas de São Paulo.  Corredores era folhas em cima da mesa de Lunna e Marco Antônio (os realizadores do meu sonho) os idealizadores da Scenarium Plural Editora a esperar pela fita de cetim a juntar elas e contar uma história.

Entre o café da manhã e a noite se desenhavam emoções e abraços dentro do meu dia. Fui presenteada pela surpresa da presença de meu filho e nora a desenharem carinhos em mim.

O vento que antecipava a mudança da temperatura também me acolheu quando chegamos ao local do evento e depois de entrar pela porta, o que vivi foi pura emoção.

Corredores virava livro à medida que Lunna usava suas mãos de fada e juntava a fita ao papel e minha história se transformava em sorriso nos abraços trocados, nas conversas entre amigos antigos e novos.

E não era só Corredores que servia de ponte para braços estendidos e acolhida de amor. Ainda havia Obdúlio e seu Rua 2; Adriana Elisa Bozzetto e seu Verbo Proibido e a Revista Plural Clandestina com inspiração de Hilda e Clarice.

Sete Luas é um caso a parte, não fosse um caso de amor explícito em sete fases, com sete mulheres convidadas a escrever sob a regência das fases da lua!

Não fosse tudo isso da noite de sábado, ouvindo  o vento que batia nas janelas enquanto me dedicava a escrever carinho aos amigos, não fosse os abraços a aquecer a alma eu juraria que ainda estava sonhando.

 

Mariana Gouveia
ps: Você pode adquirir os livros da Scenarium Plural através do email : scenariumplural@gmail.com ou no site:
https://scenariumplural.wordpress.com