Post Coletivo de Janeiro / Meu Livro Proibido Favorito

“Qualquer forma de amor que encontre…
Viva – o”
Anais Nin

Quando Delta de Vênus chegou na fazenda, no ano de 1979, enviado juntamente com outros livros pela minha avó materna percebi que minha mãe ao folhear mudou o semblante e o colocou na parte mais alta da prateleira, onde nenhum de nós alcançaria.

Sabendo que aquilo atiçaria ainda mais a nossa curiosidade disse que era um livro proibido para menores e que havia sido enviado por engano para a gente. Era visível o constrangimento dela, que ainda nos achava pequenos demais para falar de sexo e falou isso tudo meio cifrado. Ainda não era a hora e ai de quem ousasse pegar o livro sem autorização dela.

Aquele livro virou o centro das atenções todas as vezes que sentávamos para ler, e distraidamente um dia, minha mãe o deixou em cima da mesa enquanto procurava o livro certo para cada um e meus olhos passou ligeiramente na primeira página.

“Ele as levava tão alto, fazia – as girar tão depressa em sua série de encantamentos, que em sua partida era como se houvesse algo semelhante a um voo”.

Busquei entender o que havia de estranho na história que seria proibido para a gente além de uma história de amor. Fui reprimida por questionar e o livro foi levado quarto adentro e ali, onde não sei, foi esquecido.

Só fui ler Delta de Vênus quase 16 anos depois. Não sei se movida pela curiosidade do filme que era comentado entre os colegas de faculdade e que não vi. Talvez ainda sentisse na pele a reprimenda de minha mãe ao ler os contos e pensei que ela comparou com as histórias das moças da Rua do Meio da cidade e que movia o nosso imaginário nas conversas dela com as comadres.

Delta de Vênus foge do romantismo que julguei lá ainda na minha meninice, só por causa de uma frase e embora compreenda que a exigência do patrocinador fosse isso, o erotismo carnal, em seus diversos modos foge do tradicional e vagueia em suas nuances diversas com base na sexualidade.

E se você gosta de sexo sem pudores e de literatura de qualidade que foge do convencional, originados na mente de uma mulher excepcional à frente de seu tempo, arrisque-se neste Delta de Vênus.

 

Este post faz parte da postagem coletiva e participam deste projeto os escritores: Lunna Guedes –  Ale Helga – Fernanda Akemi  – Gustavo Barberá – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes – Fernanda Akemi –  Maria Vitória

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Carta à Marte aos cuidados de Vênus

Carta à Marte aos cuidados de Vênus*imagem: Brooke Shaden

Voltei ao seu quintal, e a sua presença é tão forte ali, que nem parece que se foi.
As flores continuam perfeitas e as árvores em sintonia cantam a canção do vento que você dançava.
Parecia que estava ali. Passei por entre os azuis das Hortênsia que você ganhou de alguém.
O pé de amora está no auge e na exuberância – palavra que você repetia para qualquer coisa fora do comum – das frutas. Até parece que sua risada está ali, e a essência da geleia que você fazia parece encher o ar.
Geléia de amora é para amar, Maryann! – você dizia!

Minha missão era esvaziar a casa de suas coisas, de você.
Mas vim embora com todas as lembranças. O diário que me continha em cada dia, a toalhinha de crochê que foi um presente há alguns anos atrás.
Conto um mês hoje, e logo serão dois, 11. Logo será ano e volto do seu lugar com a imagens das poesias escritas no seu quarto onde a vida flutuava em você.
Qual planeta você habita hoje?
Qual emoção te move nesse plano além do olhos?
– Marte é logo ali, Maryann! Basta bater no calcanhar três vezes e dar um pulinho que você já embarca.
Acho que perdi o jeito! Vejo Vênus, Órion, vejo todas as estrelas. Não vejo Marte.
Marte, hoje mora dentro de mim.

Mariana Gouveia.

6 on 6 – Urban art (arte urbana)

“Porque amar é uma arte e nem todo mundo é artista”.
Renato Russo

Querida A,


Já te contei que minhas ruas possuem o encanto dos artistas de rua? Quando passo em frente a uma obra penso em como você decifraria a história da peça, do quadro, dos muros pintados ao longo de avenidas.

Às vezes, as ruas contam lindas histórias de amor. As declarações são repetidas ao longo de uma avenida, uma parede mal conservada e ali, o artista expõe sua arte e inspiração.
Muitas vezes, fico imaginando se fez o efeito esperado quando a pessoa se “vê” na frase, nas imagens e no desenho.

Saberia o Fred que Tati Ribeiro o ama tanto? Ah, minha cara, eu adoraria saber e por vezes, ao passar nessa rua me vejo tentada a dizer o que teria acontecido com eles. Chego até a criar a história e um final felizes para eles.

A moça da janela da rua de cima parece que está sempre à espera de alguém e logo duas casas acima, os corações colorem um muro inteiro. Devo confessar que já desenhei com os dedos no ar seu nome dentro de um deles.

Mas, o amor é assim, minha querida. Nos leva por caminhos diferentes e faz com que a gente embarque nas histórias que vemos por aí.

A arte tem essa leveza de explicar com mensagens, o que na verdade trazemos dentro de nós.
Beijo,

Mariana Gouveia

Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto:
 Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

Projeto 6 missivas — uma carta a um desconhecido

Embora não saiba seu nome eu a vejo todos os dias. Meu horário combina com seus rituais de abrir as portas do seu lugar de trabalho.

Há sempre um cão a te acompanhar e seu olho vasculha o ponto de ônibus onde estou. Não chego a ouvir tua voz – o que me faz pensar em como você se dirige ao cão que te atende ao primeiro chamado.

Há tantos anos sua maneira de abrir as cortinas já é conhecida. O cabelo esvoaçante e as portas de correr sobre tuas mãos. Pudesse eu atravessar, atravessaria a faixa de pedestres e te daria o abraço que às vezes, sinto que você procura.

Moça, você desenha unhas, pele e embeleza a alma. Te vejo leve nas manhãs e nas tardes, quando volto, sua figura aparece para mim como um vulto. Às vezes, a sinto cansada. Em outras, você é pura alegria – chega a arrancar um riso aqui também – parece que dança enquanto manipula a tesoura, o secador, as agulhas.

Já desejei saber teu nome para te ligar e dizer que sei de sua luta diária.
Sou apenas aquela que te espia e de longe te admira diante da leveza com que carrega a coragem de todo dia.

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Editora Scenarium Plural Editora – uma carta a um desconhecido
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

Projeto 6 Missivas — uma carta para o seu personagem favorito

Tenho para mim que não habitamos o mesmo mundo.
Lua de Papel


*Ale,

Talvez eu devia dizer que a frase me pegou pela mão e me vi dialogando com você:
Realmente, não habitamos o mesmo mundo, mas posso tocar -te para além das páginas tecidas artesanalmente, costuradas página por página e volto lá, na cidadezinha tua. Consigo até caminhar por ela e fazer o sinal da cruz em frente a igreja e lembro – me da menina que eu era.

Não sei se enveredamos pelos mesmos caminhos  e descubro que em alguns sonhos e desejos somos tão iguais.  Ou como imagino, talvez eu te pinta mais leve nos dias. 

O que sei é que te adotei desde a primeira linha e segui de mãos dadas contigo até o Livro III.
Ah, adorável Lua de Papel que te desenhou insegura e reticente e somente por isso pude te moldar aos meus olhos uma Ale minha. 

Sabe, em muitas leituras feitas às avessas buscando só frases tuas, me perdi em suas anotações:

” aquela mulher não tem diálogo. Vive de suas linhas e pedaços de panos que ela emenda para os outros. É uma estranha”

Você é aquela de mim que quero mudar. E ao mesmo tempo possui os defeitos que abomino em quem gosto. 

Você é quase real, Ale… De tanto que a decifrei e de tanto que a desencorajei quando se trancava nos desejos que nunca conseguia expor. É a menina que guardo dentro da memória e a mulher que não consegue a fuga com a qual luta constantemente.

Quem te desenhou nas rotas do avesso trouxe para mim o cheiro dos eucaliptos, os arrepios na pele e a vontade de viver-existir dentro das fotografias…
E como a própria autora disse sobre você:

‘As histórias desenham personagens… alguns, escapam da realidade e saltam direto para as páginas. Outros se deixam inventar…’

Eu me deixei inventar sobre tua história.

Beijo,

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês 
Editora Scenarium Plural Editora
*Personagem do Livro Lua de Papel: Alessandra – 
autora: Lunna Guedes

Nem todo dia tem noite pros lados do Sul.

mariska karto.jpg2*imagem: Mariska Karto

O sol dorme no horizonte dos olhos dela
e há prenúncio de tempestade vinda do leste.
O verão brinca no riso que ela adora desfolhar

e as estações balançam nos cabelos que ela lavou.

Há qualquer coisa de trilha musical que me envolve quando pensa nela.

As canções que ela cantou – ou que eu pensei em ouvi-la cantar –
nunca sei quando meus pensamentos são maiores que meus desejos
nem quando é noite no centro oeste da minha imaginação
porque sempre há um sol nascendo no horizonte dos olhos dela
onde as meninas dos olhos dela brinca de viver só para mim.

Mariana Gouveia

Maria’s

Maria's

Sempre quando penso em Maria me vem a música de Milton Nascimento: “Maria, Maria. É um dom, uma certa magia”, porque acho que o nome tem mesmo uma certa magia.

Eu dizia que se, tivesse uma filha ela se chamaria Maria. Não tive filhas.Tive filhos.

Mas tive/tenho várias Marias na vida. A começar por minha irmã mais velha que se chama Maria de Fátima, (uma guerreira que só precisa acreditar que é, porque de fato é). Que me deu por tia-avó Maria Fernanda, e Manoela, uma doce alegria de viver.

E aí se desenrolam várias Maria’s em mim.

Ana Maria, minha avó materna, cheiro de vó e jeito selvagem de índia; Maria Ana, minha avó paterna que me lembro apenas das tranças longas e para mim ela era e continua sendo a Rapunzel das histórias.

Maria, minha tia, que para mim era inatingível, porque era chic demais aos meus olhos de menina. Nunca estava desarrumada. Parecia sempre preparada pra festa. Dava medo de abraçar e desmanchar o laço, o cabelo. Lembro-me do olhar doce e do jeito e terno. Faz tempo que não a vejo e ainda assim, sinto seu cheiro de tia no ar.

Maria José, uma professora adorada que me ensinou a generosidade nos olhos verdes/azuis, e que com a docilidade de mãe acolhia abraços e emoções ao falar de ciência.

Maria Edna, a jornalista de voz adocicada e mansa que eu sempre queria ouvir e rir junto. E que virou amiga do coração. E veio Marias colegas e veio Marias amigas, que de uma maneira especial eram preenchidas de magia em mim.

Maria Eudes, uma mulher exemplo, coragem e força, mas criança ao meu colo que eu queria sempre acalentar e indicar caminhos: é por aqui, é por ali…e juntas, dividimos o prazer do livros, das conversas longas, dos vai te catar meu e do cala a boca dela, num briga comigo*.

Maria Celma,onde o céu não cabia no olhar e ela queria sonhar além e como nuvem foi em mim.

Maria de Freitas,dona da sabedoria suprema, preletora e guru onde renovava minha fé na filosofia que sigo.

Maria do Carmo, de mansidão e jeito terno de mãe sempre e orientadora em momentos ruins.

Gisleida Maria, um poema de amiga.

Maria Cristina foi minha primeira paixão feminina. Era dos cabelos longos, boca da cor da manga bem madura e olhos de paixão ao mais terno olhar. Cheiro de céu, se é que céu cheira carinho. Vesti suas roupas (eu adorava aquele vestido lilás com capuz )rimos juntas, cantamos nas madrugadas contando as estrelas. Ela sempre contava uma a menos que eu pra eu ganhar, só de generosidade.E por generosidade me deu de presente Maria Júlia, sapeca, afilhada e de voz gostosa que me chama de madinha.

Maria do João que ele ama tanto e a queria retratada aqui. Maria, João te ama e eu agradecida por gostar de estar aqui.

Algumas denominações marcam as Marias. Coitadas, tão desmascaradas e aos olhos de quem vai atrás de um jogador de futebol, não importa que nome tenha, será Maria Chuteira.

Já as doidas por quem tem carros: Maria Gasolina e por aí, um monte de Marias que para retratar quem não tem opinião a tão afamada Maria vai com as outras.

Do jardins e da minha infância, a Maria-sem-vergonha a planta que eu sempre fingia ser o mal-me-quer e sempre dava bem me quer.

De admiração Maria, a mãe de Deus, que além da fé e dos que acreditam é Maria .

E minha Maria. Presente que veio. Pelas ondas, não sei. Maria. Simplesmente porque o som soa e combina e rima com a alegria que ela causa no meu olhar, na minha alma e no meu coração.

Alguém que te dá de presente o céu sem tirar ele do lugar. Que enfeita as minhas noites de estrelas, e elas bordadas, no céu.

Maria do Céu!

Eu murmuro.

Maria do amor. Do meu amor.

Das canções de Maria Gadu.

Das poesias de Maria Teresa Horta.

Das flores da Maria menina da esquina que vende flores pra viver.

E que ela diz rindo: Olha, uma Maria pra você.

Minha Maria que a voz de Maria Bethânea encanta e eu canto pra você.

Onde, eu sou, por sorte, Maria(ana), eu, juntas, eu e você.

E por todas as sortes Maria’s

únicas em muitas.

Maria, amo você.

Mariana Gouveia