A solidão na astrologia das coisas.

Li a sorte na borra do café.
Encontrei trevo de quatro folhas, no quintal.
Ri da moça que queria encontrar a linha da vida.
Estava a beira de um cais,
– no outro lado do rio… o mar!
Nos jornais, a notícia do eclipse
Contei os dias nos dedos da mão…
O mar emudeceu
Não me traz mais o som da sua voz
Entendi coisas antigas…
A solidão na astrologia das coisas.

Mariana Gouveia
In, Sete luas – Editora Scenarium Plural
Eclipse – pág. 51
*Imagem: Julija Jankelaityte

Anúncios

Toque…

Tocou aquela flor como se fosse música
Dançou seguindo o som,
Como se fosse vento

Ouviu a melodia
Como se fosse mantra

Sentiu a pétala
Como se fosse pele

O arrepio
Como se fosse prece

E as notas, sinfonias e verdades todas,
… Uma coisa certa!

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro – Scenarium Plural Editora
*Imagem: Tumblr

Deixo para ela as loucuras todas…

vivian maier

O dia vagou em esperas. O vento sacudia tudo lá fora. Da janela revejo movimentos que conheço.
Ela anota.
Fico em silêncio.
Ela revela vontades desconhecidas. Não parece a mesma de antes e nem é.
Torço para que as horas voem. É sempre assim quando a vontade de ir é maior do que a vontade de ficar.
Respiro suavidade numa inquietação que reconheço – leve – minha, de antes.
Falo sobre a instabilidade que me atingiu e deixou morna a vida.
Ela anota a palavra instabilidade e entre aspas está a palavra “eu”.
Não sei se de mim ou dela que falo.
Deixo para ela as loucuras todas…
essa graça leve que ela tem em profanar os
prazeres que sinto.
A palavra suprema e a história contada entre os dentes.
O corpo pensado. O sopro. As dores.
O dia que acontece em rotinas. Mas eu jurei que tudo isso vai passar e vai.
Ela anota e começa a falar de esperança.

Mariana Gouveia
* fotografia: Vivian Maier

6 on 6 — Serendipity

Quando esse tema chegou até a mim, fiquei a imaginar quais seriam os instantes que eu colocaria nas palavras.
O acaso vive me trazendo momentos quase que diários onde meu suspiro vai de encontro ao inesperado.

                                                                                                   ” O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar”
Titãs


Logo nas primeiras horas da manhã, a sorte me chama no amor do pássaro de todo dia que o acaso traz para meu quintal. Chiquinho é a emoção diante do inesperado gesto de pousar em meus dedos… ou sobrevoar meu pescoço em busca do afago nas asas. É como se um elo entre a natureza fizesse o sopro do acaso em minha vida.

Na rua de cima, me deparo com a leveza do ipê, como se beijasse a rua e as calçadas – e ainda nem é tempo deles se despertarem para as flores – que tem no mês de agosto sua florada magistral. Mas quem disse que o acaso não pode ser vivido dentro da rotina?
A extensão da rua, logo depois da casa da esquina, a pétala que cai, o cão que late a espera do meu bom dia – ou do biscoito que trago todo dia para ele – e meu afago em sua cabeça é sinal de confiança.

As múltiplas opções que o acaso me desenha vai desde uma árvore quase morta cheia de pássaros em meio a um trânsito caótico e o dia fechando as portas rumo ao poente e um coração de pedra, com as cicatrizes que a natureza causou logo acima da rua do meio.

O cheiro da garoa – que mais parecia uma chuva fina – caindo sobre a grama me trouxe a serenidade para além dos dias tumultuados e dentro da palavra serendipity, uma visita acalentou o dia.

E como se não bastasse um pouso, a vida de asas faz festas no focinho de quem sempre tem olho mágico diante da vida. Tudo é tão cheio de singularidades que a melodia do vento faz jus à sinfonia do silêncio que impera na alma.

Como Pasteur disse: “O acaso favorece apenas a mente preparada“. Mas para absorver as felizes descobertas ao longo dos dias, devemos ter o entendimento de aceitar o inesperado e reinterpretá-lo com o coração.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto: Lunna Guedes– Obdúlio Ortega Maria Vitória

Revolucionária

Brooke Shaden

Não se pode falar de livro da infância… ela arriscou. apedrejam-na.
Ainda assim, ela não se contem, 
quer construir uma cidade usando a força de homens que saibam assentar tijolos – untar formas de bolo com delicadeza é um acessório à parte.
Sonha com Macunaíma, grita preguiça na esquina. Cria revoluções – micros, macros
Transversa, leva a vida na flauta. Em época de consumo se constipa só para não usar as moedas guardadas em porquinhos com coração.
Ah, esse jeito de usar o batom, tão dela que esforça para esconder seu estado legítimo de Órion. Traz dentro da bolsa um cisco, que usa quando a lonjura bate nos centímetros da distancia de casa.
Adora artes. Sente falta da escola, mas estuda nos mapas as cores de um estado que fica ocre no mapa. Vai entender, essa moça. Nunca lê as bulas! Nunca lê!
Extraterrestre! Extraordinária!
Mas, revolucionária.

Mariana Gouveia
*imagem: Brooke Shaden

e assim…

DSCF3785

Passei quase a noite inteira refazendo roteiros de tudo que tinha vivido. Ajeitei os quadros. Peguei a xícara de café. Aquela mesma que ela bebia o café da manhã. Contei as estrelas no céu e percebi que o número é o mesmo daquele dia. Era um revoar de borboletas no coração. Milhões de emoções a percorrer a veia e a alegria plena de saber dela ali.

Tão distante mas se eu levantasse a mão poderia tocá-la.

E essa sensação era quase como que pegar fogo. Ela gosta de me ver incendiada.

Ela tem um jeito apressado pra decidir as coisas e decidiu.E veio e ficou e foi…Com algumas perguntas que eu não poderia responder.Com algumas respostas que eu não saberia escutar.

A bagunça dentro de mim é culpa dela. Ocupa os espaços plenos do respirar. Resigno em comer saudades e em poucos minutos a risada dela me leva ao céu.O mesmo céu que conto agora as estrelas…

E em cada amanhecer pinta de um alaranjado brilhante tudo que toco para assim como o poema de Adélia Prado, constantemente amanhecer nela. Ela me impressiona nos gestos e no modo de gostar. Eu a desenho em tudo que toco. Nas janelas do ônibus, nas portas, nas mesas, na comida do prato, nas nuvens e no amor que sinto por ela.

E assim,cultivo a esperança.

 

Mariana Gouveia

Guardei meu amor, bem guardadinho

raquel pellicano
Escondi no meu baú a palavra doce.
guardei-a como as meninas de antigamente guardavam os anéis.
Guardei a aliança de prata também. E os dias vividos com você no meu quintal. Dentro do baú antigo, onde guardo minhas memórias guardei a vida. Deixo lá com todos os instantes de riso que vivemos. Das palavras que precisavam de traduções.
Guardei as fotos que você tirou. Não é bom ver fotografia de flor com essa fome constante de flor. Os poemas escritos com seu nome. As cartas que nunca tive coragem de enviar. Tudo isso faz companhia para a minha solidão.
Lá, tem um papel de bala dado um nó, desses que se você quisesse um abraço mais forte, teria de apertar mais.Também tem junto, dentro do baú, o riso de minha mãe, que ecoou no meu coração em uma noite fria quando senti vontade de comer flor.
Já era bem de antes essa vontade contida. Lembro-me que ela riu quando eu disse: um dia, planto uma flor vermelha só para comer.
Guardei no baú tantas lembranças para quando eu me perder das memórias, abra e dali saia esse sentimento que invento para você. O sentimento da espera.
Todo dia, pego o baú nos braços, passeio com ele pelo quintal e pela milésima vez faço a promessa de só abri-lo quando puder te tocar outra vez. Ou ouvir sua voz, que coloquei ali, num cantinho, para evocar a canção monocórdica que cantou para mim.
Guardei dentro dele as sementes da flor. Plantei uma apenas e converso com ela na delicadeza dos raminhos que crescem e brota a cada dia uma nova folha. Logo, terei uma papoula vermelha na intensidade da fome.
Os vizinhos dizem que estou louca. Os loucos, me chamam de sã e na minha lucidez desvairada, eu, só chamo você.

Mariana Gouveia
* fotografia: Raquel Pellicano