Expectadora

expectadora

olhos meus, ávidos

de voyeur que desenham teus gestos na rotina da manhã

e repetem instantes já vividos.

Desejos meus,todos de quem ama

que insinua as vontades entre letras

e justifica a risada mais gostosa.

Corpo teu,que desperta fome,sede

e fantasias

e que pelos olhos simples de expecatdora

te vigia.

te faz bela,terna.Minha.

Amor meu,esse que dedico

e que é a substância que eu bebo todo dia.

E assim,me sentir viva e tua.

Mariana Gouveia

Anúncios

Inquietação pelas borboletas

mira nedyalkova 2
*imagem: Mira Nedyalkova

Sentei de novo na poltrona cinza, voltada para a janela.
Depois dos cumprimentos banais a visão de uma borboleta voando rente a janela me tirou a atenção.
Eu sabia decifrar os sinais. Ri.

Ela percebeu meu olhar distraído e seguiu para onde eu olhava.
– A distração das borboletas – ela disse.
– Ah, não sei por que, onde estou sempre aparece uma – falei.
– É coincidência…
Percebi que ela procurava as palavras certas para dizer. Evitou o assunto borboletas.
– Vamos aos trâmites convencionais – ela continuou.
– Não acredito em ninguém convencional. Essa hipocrisia boba do comum.

Pediu que eu decifrasse o incomum. Qual o objetivo do imaginário.
– Eu disse comum.
– Algumas pessoas gostam de imaginar que tem um lado secreto. Ajuda a enfrentar a realidade.
– Eu gosto de imaginar que tenho um lado real. Me ajuda e enfrentar o meu lado secreto.

a borboleta voltou.
Ela me conta sobre sua infância e sua inquietação pelas borboletas.

Mariana Gouveia – do Divã

Divã

Divã
*Imagem: Nan Goldin

Essa sou eu,
mas, às vezes, uma confusão bate e vou na janela.
Pergunto se posso tirar os sapatos. Mostrar quem sou de fato.
Tiro as roupas também? – pergunto –
Nua me mostro no espelho e o reflexo que vejo é ela.
Sempre ali. Cara sobreposta na minha. Olhosdelameninadosolhoseu.
É típica de tempestade interna essa indecisão/procura.
O espelho nunca te mostra onde é você mesma.
O reflexo me vende olheiras. Vazio branco oco por dentro.
Desatino.
Saio com riso de louca no olhar. Quebro o espelho.
Mais sete anos de sorte.
Tem consulta hoje?

Mariana Gouveia

Das horas

das horas

As horas não passam no sentido das coisas.
Ela anota meus desafios diários.
A cortina não combina com meu estado de espírito. Permanecem fechadas e isso foi ontem.
Hoje eu falo calada. Eu olho o relógio. Ela olha o relógio. Anota.
Deve ser essa pressa de ir embora que me move.
– Pra onde?
– De nada para lugar nenhum.
Eu tive de desenhar um mapa.
Falando em mapa tive de fazer o mapa astral dela.
Falei de horóscopo. Ela riu.

Eu tinha síndrome de fuga.
Diagnóstico conhecido e exemplificado em palavras confusas
que eu precisaria de um dicionário para entender.

– Não quero fugir. Nunca quis. – falei entre um sussurro que acho que só eu ouvi.
Ela anotou.

O relógio na parede.
Tic-tac só não era maior do meu suspiro.

O tempo mudou de repente.
Não quis dizer que não acredito em meteorologia.
Seria considerado fuga do tempo
e esse, para mim, seria como diz a música:
um dos deuses mais lindo.

E ela disparou a falar de canções.
Dancei.

Mariana Gouveia – Divã

Querer

querer

eu te queria nas minhas mãos
como um vento cálido
quase pluma
suavidade ingênua,
gota suprema da vontade louca

onde o debrum de minha alma
cose à tua e assim nos tornamos únicas

eu te queria escarlate, branca

de todas as cores
e de nuances todas
onde a pele morena se acentuasse ao veludo da tua
pelos, braços, mãos
e eu, desejo

onde eu te descobriria nos meus sabores
na sensação úmida da língua rosada
e tua intimidade ruiva
minha

e eu, plena de ti.

Mariana Gouveia

Carta à Anne,

Devo te confessar que meu ritual ao te escrever possui a magia simples de entrega — tão eu/você aqui — em frente a janela repetindo nos gestos ao longo dos dias: isso de ser mulher é angustiante…

Scenarium livros artesanais

Por Mariana Gouveia

.

Mariana Gouveia, autora.

Devo te confessar que meu ritual ao te escrever possui a magia simples de entrega — tão eu/você aqui — em frente a janela repetindo nos gestos ao longo dos dias: isso de ser mulher é angustiante. É estranho imaginar como seria se você vivesse nesse tempo. Teriam teus poemas a mesma forma de atingir quem te lê? A mulher que luta pelo que acredita, agora.
Você conseguiria ao longo desse tempo tecer um diálogo comigo sobre os tabus da época em que você viveu? Lembro-me de minha adolescência e da força que minha mãe possuía com seu livro na mão.
Ela era como você… CONFESSIONAL! Estava ali, de pé, as mãos sobre as cortinas esvoaçantes e os olhos dentro do livro, a brisa a tocar a alma e ela tão real, diante da vida e tão certa das dores de quem não queria ser…

Ver o post original 252 mais palavras

Minha Cecilia,

Das cartas…

Scenarium livros artesanais

Por Mariana Gouveia

,

Mariana Gouveia, autora

.

Venta por aqui…
É madrugada ainda… e o tempo parece, que vai acatar a previsão — é que, às vezes, ele dá uma de menino teimoso e foge à regra dos cientistas, conhecedores do assunto — e vai mudar mesmo. O frio já bate nas folhas do ipê e elas cantam uma canção ao vento.
Mas, o céu está limpo” Falta um dia para a lua cheia e enquanto busco por ela entre as folhas das árvores, relembro seu poema, as fases lunares e ao me lembrar de cada um dos versos, as memórias retornam feito mágica.
Eu era mocinha, e havia a festa da Santa do dia de amanhã, enquanto minha mãe e as tias preparavam os doces bolos, biscoitos e comidas… o vestido da rainha da festa era bordado pelas mãos da bá, que sabia como ninguém, cruzar a linha em volta das…

Ver o post original 395 mais palavras