176. da geografia das coisas


Havia um tempo que ele me esperava
e nem ligava se a meteorologia errava a previsão do tempo e nem mesmo se a porteira estava fechada.
Havia um tempo em que o olho dele buscava minha presença no cheiro impregnado nas coisas. Não importava se fazia sol ou frio.
O olho dele era um menino errante na estradinha onde a curva desenhava o riacho.
Mudasse a estação ou as horas do dia, ele era presença de espera.
Mas quando surgiam os dias determinados pelo destino e minha voz ecoava o nome dele através da cerca a alegria fazia morada por ali.
Bastava dar um assovio e toda a traquinagem aparecia em forma de pelos e cor.
Havia um tempo em que nós cruzávamos as cercas em busca dos cogumelos e a floresta era nosso lugar preferido.  Sabíamos que haveria de chegar o dia de partida e que a precisão do amor era apenas a medida da espera.

Mariana Gouveia
176. da geografia das coisas

 

175. da geografia das coisas

Na casa do pai, a renda desenhada no pé de canela. O cheiro lembrando os chás das manhãs de invernos.

O quintal traçado dentro do pequeno pomar e suas frutas servindo de comida aos pássaros.

As histórias ecoando em cada canto. Os móveis empilhados em um quarto. As fotografias antigas dentro da mala e seus álbuns retratando épocas de nós.

A árvore do balanço fora cortada para a limpeza do lugar.

Cômodos vazios de nós, mas com todas as histórias e lembranças dentro delas.

Mariana Gouveia

175. da geografia das coisas

174. da geografia das coisas

A renda foi costurada dentro da noite. Os dias de invernos intensos aprofundados na pele e na alma.
Busco o equilíbrio denso dentro da dor. As histórias contadas de um jeito que a saudade bate e fica.
O cheiro do capim molhado de orvalho a invadir os quartos com seus aromas e a lua caminha em um céu coalhado de estrelas.
Imprevisível a cronologia das coisas – misturamos os fatos, as fotos e a época – tudo era dentro do tempo de estar.
As palavras a carregar afagos entre nós… o verbo mudando a direção sempre que uma lembrança nova surgia.
Alguém arrisca um canto e o amor conhece a simplicidade das coisas.

Mariana Gouveia
174. da geografia das coisas

 

173. da geografia das coisas

Estou aqui onde me convence ficar e onde todos já sabem onde me encontrar
onde a posição de dona do mundo me abraça e os dedos tocam a natureza das coisas.
Abrigando a geografia instalada nos segredos dos cogumelos.
Aqui onde escuto a sinfonia da floresta e a água do rio manso – que cantava na minha infância – repete o mesmo chuá chuá…

Como se o tempo tivesse composto a mesma melodia em mim.

As explicações que me pedem são de improviso para o que vejo além da janela e a verdade a ecoar no vento que fala com as folhas.
prefiro que a janela abra para o sol entrar, ou que a poesia repita o nome cantado no poema que fala de amor.
Quero a singeleza do ritmo do tempo – que aqui não passa e a todo instante me renasço dentro das lembranças.

Mariana Gouveia
173. da geografia das coisas

172. da categoria das coisas

 

Costurava a certeza das coisas dentro da memória.
O cheiro invadindo o espaço e a natureza com seus mistérios exalando lembranças da infância.
Era como se uma janela se abrisse e fosse me mostrando cada espaço dos anos vividos.
O cães a farejar no mato o bicho estranho. O banho no rio quase passa dentro do quintal.  O riso manso a festejar estrepolias e a certeza de que os momentos ficam para sempre, como se uma gavetinha ficasse ali, os guardando para quando a saudade bater – ou a viagem me trazer de volta ao aconchego da alma – a gente abrisse e dela saíssem esses momentos que me fez forte até aqui.

Mariana Gouveia
172. da geografia das coisas

171. da geografia das coisas

Em todo lado a palavra pássaro faz asas e cor. Julgo ver nele a cura para a dor…
Do outro lado da árvore, a lua tem a cor de mel e eu acreditava nas coisas do destino e lembrei-me de fotografias que nunca tirei. O som da letra do canto da ave é como um poema esculpido na árvore e toma-se a forma das flores.

As relvas frescas a molhar os pés e os sorrisos estendidos em mil
árvores e o céu a desenhar presença de nuvens e eu procuro as lembranças que escrevi ali.

Havia a mão de criança a segurar a saia e um vulto marcou o voo e o pouso… enquanto as lembranças da mãe eram desenhadas nas falas das irmãs, trazendo recordações que parecem tão recentes diante das histórias narradas.

Lê-se a presença diante das memórias, lê-se silêncio, sim, tantas vezes…

Era o silêncio dos gritos dos dias vividos e as recordações a ecoar dentro das palavras.

O quintal molhado de poema é aqui, quando levanto e o olhar impregnado de memórias
e deixo que elas venham sem metáforas e crio na mente o poema e com ele invento histórias para relembrar em dias sem sono e o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e tudo continuar presente mesmo distante.

E no pomar as árvores espreitam a corrida para
abraçar o pai e esperar que a asa seja leve…

Guardar tudo isso na fala da solidão para aprender o olhar de presença mesmo quando a palavra poema aproxima do que meus olhos veem eu só sei escrever o seu sentido.

Mariana Gouveia
171. da geografia das coisas

170. da geografia das coisas

Na hora em que os telhados velhos trazem lembranças da infância e o cheiro do mato se mistura ao orvalho da manhã, permito-me o cansaço, a saudade, o cuidado, o amanhecer.
A permissão para sentir vem da natureza e ela me concedeu a fé.
A memória resgata coisas que a menina dentro da mulher não quer esquecer.
Sabe quando a lembrança aparece em sua mente como se fosse um retrato na parede?
Calcificou em mim como osso na alma. O cogumelo colhido na floresta como se fosse a cura e de novo, dentro do pensamento o conselho do pai para o veneno das coisas bonitas e isso era base para mais um ensinamento.
Teve aquele dia, em que o corte no pé foi o momento certo para mostrar a cura eu chorei uma vida inteira. Ali, como se cada parte do corpo cada átomo do Universo parte de mim.
Quero te dizer que tenho shitake colhido ali, na parte onde a infância mostrava que tudo é o começo, meio e fim
e a poesia acabada de fazer, olho no olho, onde o orvalho cresce na minha própria alma.
Mariana Gouveia
170. da geografia das coisas