Carta à Maria

rasga todos os mapas, as cartas marítimas e geográficas
esquece os caminhos que não são teus
cartografa apenas as ruas da tua infância e a tua aldeia  
guarda no peito a trilha
das saúvas vermelhas
e das lagartas de fogo da tua alma
e segue
no rastro dos caracóis dos muros que vieram ao chão
viaja, se possível, navega — voa!
Nydia Bonetti

Querida Maria,

 

É verdade que você se transformou. E se eu fosse detalhar resiliência, seria teu nome que estamparia nas camisetas que usaria todos os dias.
Lute como uma garota! – eu diria – e não seja normal – as pessoas normais são chatas e sem histórias.

Quando me deu sua história, era um dia chuvoso e as palavras se uniam em tom de desabafo e você, ali aos meus olhos nua e crua. Resiliente e aspirante no modo amar. O medo em cada gesto e um desejo absurdo de falar.

Você me usou para ser voz e ao mesmo tempo me silenciei e dei voz a você. Fui seus passos aqui do lado de fora e testemunha do amor que foi plantado e que virou esse romance que traduzo nos gestos de quem ama o amor.

Hoje, Maria, você ganha ares de vencedora e coloca um ponto final naquela história que dói e recomeça a contar seus momentos a partir do belo, da casa com quintal, dos chás de cidreira e noites de amor.

Talvez você se encante por essa nova vida. Talvez você se inquiete com alguns momentos, mas o que posso garantir que tudo se trata do destino.

E do destino, você não tem como fugir.

Mariana Gouveia
O lançamento de Portas Abertas – Codinome Lucidez, será no dia 30 de novembro, às 19 horas na  Casa Laranja… em São Paulo.

e a vida há de escrever um dia lindo.

DSCF5304Sons de pássaros enfeitam a manhã
um cão late anunciando um gato que insiste em parar no portão.
Eu a descubro nas pétalas que recebem as gotas da chuva.
Abro os braços, abençoo o mundo e a vida há de escrever um dia lindo.

Mariana Gouveia

como se o voo do pássaro pousasse

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Como se eu fosse uma ave presa em tuas mãos
e tu abre os pulsos para me livrar da gaiola

que é tua pele, teu cheiro e eu em tua carne sonhasse
como se achasse a ilha, meu ninho

seu corpo

como se o voo do pássaro pousasse
sobre os sonhos de tua cabeça
e suas asas delirantes
fossem o mapa do caminho que tenho de trilhar

como se eu  fosse o jardim
na tua mão, eu, semente florindo desejos

como se hoje apenas eu fosse a dançarina que povoa vontades  e voasse plena de sentidos

no céu
da tua boca. 

 

Mariana Gouveia

* imagem: Cheong-ah Hwang

Erupção

eu,por teu amor

Eu me faria morna nos seus braços

quase brisa,

quase vento

pensamento,você

 

o arrepio provoca erupção

sinto mãos

prazer

 

imaginei a sua boca o tempo todo em mim

e imaginei a minha boca em você

e eu sentindo teu cheiro

a textura, a maciez

e a nudez

desejada

e emoções até então desconhecidas

e tua pele vibrando e voz sussurrando

descobrindo cada canto meu

invadindo cada espaço seu

sendo amada,querida.

 

Um universo de calma

provoca paz

me toca

me faz feliz demais.

 

Mariana Gouveia

Expectadora

expectadora

olhos meus, ávidos

de voyeur que desenham teus gestos na rotina da manhã

e repetem instantes já vividos.

Desejos meus,todos de quem ama

que insinua as vontades entre letras

e justifica a risada mais gostosa.

Corpo teu,que desperta fome,sede

e fantasias

e que pelos olhos simples de expecatdora

te vigia.

te faz bela,terna.Minha.

Amor meu,esse que dedico

e que é a substância que eu bebo todo dia.

E assim,me sentir viva e tua.

Mariana Gouveia

Inquietação pelas borboletas

mira nedyalkova 2
*imagem: Mira Nedyalkova

Sentei de novo na poltrona cinza, voltada para a janela.
Depois dos cumprimentos banais a visão de uma borboleta voando rente a janela me tirou a atenção.
Eu sabia decifrar os sinais. Ri.

Ela percebeu meu olhar distraído e seguiu para onde eu olhava.
– A distração das borboletas – ela disse.
– Ah, não sei por que, onde estou sempre aparece uma – falei.
– É coincidência…
Percebi que ela procurava as palavras certas para dizer. Evitou o assunto borboletas.
– Vamos aos trâmites convencionais – ela continuou.
– Não acredito em ninguém convencional. Essa hipocrisia boba do comum.

Pediu que eu decifrasse o incomum. Qual o objetivo do imaginário.
– Eu disse comum.
– Algumas pessoas gostam de imaginar que tem um lado secreto. Ajuda a enfrentar a realidade.
– Eu gosto de imaginar que tenho um lado real. Me ajuda e enfrentar o meu lado secreto.

a borboleta voltou.
Ela me conta sobre sua infância e sua inquietação pelas borboletas.

Mariana Gouveia – do Divã

Divã

Divã
*Imagem: Nan Goldin

Essa sou eu,
mas, às vezes, uma confusão bate e vou na janela.
Pergunto se posso tirar os sapatos. Mostrar quem sou de fato.
Tiro as roupas também? – pergunto –
Nua me mostro no espelho e o reflexo que vejo é ela.
Sempre ali. Cara sobreposta na minha. Olhosdelameninadosolhoseu.
É típica de tempestade interna essa indecisão/procura.
O espelho nunca te mostra onde é você mesma.
O reflexo me vende olheiras. Vazio branco oco por dentro.
Desatino.
Saio com riso de louca no olhar. Quebro o espelho.
Mais sete anos de sorte.
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Mariana Gouveia