292. das infinitudes

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A mão dela me trazia barulho do mar
O braço ondula silêncios da tarde
Sombras tatuam melodias no vento – que venta – e desmancham sob os cabelos dela…

Não sabia extrapolar as coisas
– dizia – era feita de matéria perene, ela – a que eu criei.
A outra – a de verdade – quebrava regras.

Falava alto nas bibliotecas… Declarava amor nas livrarias.
Chegou a declamar poemas ao lado da placa – PROIBIDO FALAR AO TELEFONE –  e pisar na grama desajeitadamente, sob os olhos da viatura oficial da polícia.

Há sonatas que a areia descreve
E escreve
E o riso dela tem qualquer coisa de ave

Que voa

Leva na mão o carinho portátil, desse pronto pro uso.
Mesmo quando meu silêncio ruge feito fera. Tem a delicadeza do poema no verso.
Usa quando tomo um chá de sumiço

Mal sabe ela que toda noite
Eu olho pro céu e a encontro
Em uma constelação ou em um pouso rumo ao coração.

 

Mariana Gouveia
292. Das infinitudes

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291. das infinitudes

 

Passei pelo centro quando o sino gemia dentro de um horário errado e me levou para a cidadezinha do interior aonde tudo era feito ao som dos sinos – quando uma criança nascia / alguém morria / alguém chegava / alguém partia e o padre tivesse de passar alguma notícia qualquer – e  o povo todo surgia como um passe de mágica.
Ouvir o sino da matriz em seu rugido rouco e enferrujado me fez parar e perceber a mudança na fachada da igreja. Tudo modificado desde a primeira vez que a vi.
Pareceu-me que só eu havia ouvido o sino. Pessoas apressadas em seus vai e vem fazendo contraste com os carros em fila aguardando o sinal abrir.
As duas torres e seus relógios e seus vitrais coloridos em sua imensidão passava desapercebida pela multidão. Tudo parecia feito de preto e branco. Os instantes, o dia de hoje, a hora…
Lembro-me da última vez que estive ali, a procura de apoio e dei de cara com as portas fechadas. Estava com um diagnóstico dentro da bolsa, com coração alarmado e buscava a esperança na fé.
Um dos padres me disse que a igreja estava fechada e mandou-me buscar apoio na igreja do meu bairro.

Pareceu-me que ele ainda estava ali, atrás da porta e a sensação da porta fechada e de novo dei meia volta e a igrejinha do meu interior, com as portas sempre abertas e o Padre Quirino a cumprimentar as pessoas, a acolher as crianças e a oferecer sempre um abraço.
A igreja do meu bairro, naquele dia, também estava fechada, mas encontrei a fé num riso de um médico, que nem abriu o envelope do diagnóstico. Abriu os braços para mim e me acolheu no coração como amiga.

*essa é minha homenagem ao médico que me ajudou em uma caminhada de cura e me ajuda com o abraço de amigo até hoje, Lúdio Cabral e com isso abraço todos os médicos pelo dia.

Mariana Gouveia
291. das infinitudes

290. das infinitudes

Morreu uma estrela ontem. O dia começa com horário atrasado dentro do tempo. Era às vezes asas no quintal. Um menino que voa vem dar o bom dia e de noite quer colo de asa. A morte da estrela não afeta o voo da ave que beija e nem causa efeito no afeto que ele busca em minha mão.
Quando ele foge do vento no quintal e não encontra árvores no lugar – que o vento levou – cabe na mão dentro do abraço. O menino é um ser de asas em mim. O menino é um ser de voo na sala.
E quando um dia se torna intrigante, doído e fora da lógica ele é um sopro de amor mesmo com estrelas morrendo no céu.

Mariana Gouveia
290. das infinitudes

— É uma rosa rubra a autora dessas linhas

— É uma rosa rubra a autora dessas linhas.JPG

”E seu corpo iria girar, até que a última nota de seu coração parasse e fervesse sobre seus pés.”
Sekai Mato

 

Nasci no meio de 6 irmãos. Éramos 7… eu – a do meio – lunática, estranha, tudo porque gostava de livros, de ler. A que escrevia e que sabia contar histórias ou inventar.

Havia a meiofadameiobruxameioflor quem me trouxe ao mundo e que fazia os partos de toda a região, inclusive dos meus irmãos e primos. Para mim, ela era mesmo uma fada que transformava em magia tudo que tocava.

Os cogumelos ganhavam, na fazenda, um toque especial sobre suas mãos.

A floresta tinha o sentido claro de mundo encantado para mim e o tecer do capim dourado era a própria magia.

Era Florinda ou Dona Fulô e foi ali, naquele mundo em sua volta que aprendi o costurar das letras. Primeiro, de carreirinha, para logo mais emendar as palavras e fazer delas, versos. D. Fulô – ou minha bá – não conhecia nenhuma letra. Nem sabia manusear a pena – como ela dizia – mas sabia o poder delas sobre o mundo e quando deitada na rede, debaixo do pé de manga eu lia alguma coisa para ela, os olhos dela viajavam para além dos campos dourados de sol.

Passei a registrar todos os momentos em papéis de pão que minha mãe costurava e transformava em um caderno para escrita. Os cadernos, desses de capa dura, eram aos meus olhos, luxo puro, que atentos espiavam quando na visita à cidade passávamos em frente à papelaria ou armazém. O primeiro só veio anos depois quando entrei para a escola.

A letra era a chave para minha timidez e me manter longe das encrencas dos meus irmãos. O mundo se abria quando eu conseguia montar uma frase, uma carta e os olhos fechados da bá e o riso inquieto de minha mãe eram poemas que ninguém mais tinha. Só eu!

Eu desenhava perto delas a lua e o céu estrelado. A rosa rubra do jardim, e a natureza aos meus olhos parecia um quadro, desses que só via em revistas. Mas era uma pintura que minha mãe conseguia transformar em bordado. Depois eu pintava meus pés de asas e com isso eu podia voar. Passei horas procurando estrelas para botar no quarto, borboletas para nascerem no quintal e um ipê amarelo do lado da cerca, com a casinha simples ao fundo sendo cenário de uma infância que me fez no que sou hoje.

Com isso, consegui espantar os nuncas e me tornei portadora da fé.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural Editora
Crônicas de Outubro

 

289. das infinitudes

 

Tinha medo da noite e era dia.

Vasculhava as paredes todas atrás de lembranças. Buscava as digitais dela nos objetos que ela tocou.

Na parede, do lado esquerdo da porta, as horas sem ela corriam ligeiras. Voavam feito aves no céu.

Em algum canto, rabiscou um coração com o nome dela e foi nesse momento que um arco-íris cruzou o céu de ponta a ponta.

Era quase imperceptível. Mas parecia ter zoom ao olhar para a parede do lado esquerdo da porta, quando via as horas a voar e o vento agitava a cortina.

De noite, parecia que as asas brilhavam e dançavam saudade olhando para ela.

Por isso, tinha medo da noite.

Era quando os fantasmas surgiam em forma de asas.

 

Mariana Gouveia
289. Das infinitudes

288. das infinitudes

 

Talvez eu tenha essa fome de pássaros, de asas
a liberdade é essa flecha que atravessa a garganta,
rompe abismos e salta.
A fome é esse desejo imensurável de pegar em tua mão e voar – mas isso eu faço sempre quando fecho os olhos – e descobrir lugares onde poderia te amar.
As calçadas de Paris ou qualquer rua de Florence.
Na verdade, meu sonho é Provence e o sotaque lilás que amo.
Acho que o céu deve ser feito desses momentos que vem em sonhos…
as estradinhas de terra e a cor exalando poros na fragrância, mas alerto que deve ter pássaros e asas porque a vida com você é esse voo mesmo quando pouso.

Mariana Gouveia
288. das infinitudes

287. das infinitudes

 

A estação do frio invade a estação que é de flor

e o tempo é esse menino desavisado. Um poeta disse sobre isso de cair o inverno dentro da primavera. Até parece que o relógio voltou nos meses.
Colho no pé a fruta de vez – ainda nem era o tempo da colheita e o vento levou as folhas para além dos muros. Tudo gela em redor do quintal. os grafites rabiscados nos dedos não tem a arte das cores. São figuras imaginárias contadas em lendas que sabem sobre a numerologia. Conto a data dos seu dia e invento uma dimensão que intercala datas em comum.
O café na xícara a esfriar enquanto fico perdida e sem voz. Na rua de cima alguém canta uma canção sem ritmo. A vizinha narra a verdade das coisas que leu no jornal enquanto o vestido dança no varal sem o sol.
A sorte visita a menina três casas acima. A serenidade do dia vem na voz do moço que vende doces. Tem dias que vida parece um relicário na parede.

Mariana Gouveia
287. das infinitudes