Era primavera em qualquer lugar

misturou riso com lágrima
comprou coisas pela net.
rasgou a renda da saia
atendeu um moço que pedia água
fazia tempo que ninguém pedia água pra ela.
Era quase despejar o que chorou no copo.
Lembrou qualquer coisa da infância.
A lembrança fez qualquer coisa de grito dela.
redemoinho e nuvens vasculham o céu.
espalhou as flores no outono. Era primavera em qualquer lugar.
A dor veio de novo e deu as boas vindas.
Afinal, eram companheiras inseparáveis.

Mariana Gouveia
imagem: Elisa Lazo de Valdez

 

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Cartas para Abril…

Projeto Scenarium PLural!

via CARTAS PARA ABRIL | Aceitas um café?

Abstinência

abstinência*imagem: Tumblr
.

Virei alcóolatra
bebi tua falta
tua ausência

Bebi essa vontade absurda de você

e agora sofro de abstinência
todo dia invado os jardins
como pétalas
arranco as flores
vago entre os canteiros

busco vestígios de você
e na loucura absurda das horas e da falta

tenho alucinações de que você está aqui
na minha boca
e eu bebo você.

Mariana Gouveia

Cheiro de lua

Cheiro de lua


Não era cheiro de mato
nem de alecrim no jardim

Cheirava a céu
de estrelas – eu pensei

Mas confesso que errei
Uma nuvem se acentua
e eis que assim, despida
toda nua

Senti o cheiro da Lua.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Ousadia

ousadia*imagem: Tumblr

Fala das horas mortas – embora vivas – todo dia.
Do fascínio que uma menina faceira provoca nele.
repete o nome dela infinitas vezes.
Assiste sua dança no seu quintal.
A chama de deusa e eu, atrevida, dou-lhe o nome de deuso.
Nome que achei para a magia das palavras que ele assopra em um Teatro de Ousadias.

É contraventor. Usa anagramas e se perde dela em um céu vermelho quando desaba um temporal.
Não se cala, fala, inventa idiomas,cria cidade.

Como as mãos da cartomante, corta baralho de linhas e letras.
Dá voz ao poder de lua, mesmo ela querendo minguar.
Mas toca o que é proibido,
Porque ousa quebrar os espelhos
E me chama ela pelo nome que acha mais bonito.

Pinta flores em carvão ou giz
usa origami mesmo sem dominar.
Chama os ventos astrais para as marcas da pele
onde o vento não voa e cria mais sentidos numa noite simples.

enquanto eu, em sessão solene vivo a poesia
porque a ousadia não pode parar.

 

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Era

Era
.

era para falar de voos

mas não tinha asa

virou mensageira dos ventos

pousou chão

folha
era para ser árvore

mas não tinha raiz

virou jardim

pousou flor

pele
era para ser delicadeza

mas não tinha tato

virou tatuagem na pele dela

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Ave, borboleta!

Visitava a sala
depois de olhar cada canto
aposento abandonado pela saudade
precisava aspirar ela no quintal.

Olhou céu
o dia coloria as flores
dentro dela
germinava asas
pariu borboleta
em um idioma que não era o seu.

De noite, a situação era pior
o céu gemia dentro dela e as estrelas
agitava seu interior
calma aparente de quem ama.

depois que amanhece
asa feita

retrato na parede
e ali, todo dia,
quando ainda era madrugada
fazia reza pra ela
Ave, borboleta!

Mariana Gouveia
*imagem: Dina Bova