Inquietação pelas borboletas

mira nedyalkova 2
*imagem: Mira Nedyalkova

Sentei de novo na poltrona cinza, voltada para a janela.
Depois dos cumprimentos banais a visão de uma borboleta voando rente a janela me tirou a atenção.
Eu sabia decifrar os sinais. Ri.

Ela percebeu meu olhar distraído e seguiu para onde eu olhava.
– A distração das borboletas – ela disse.
– Ah, não sei por que, onde estou sempre aparece uma – falei.
– É coincidência…
Percebi que ela procurava as palavras certas para dizer. Evitou o assunto borboletas.
– Vamos aos trâmites convencionais – ela continuou.
– Não acredito em ninguém convencional. Essa hipocrisia boba do comum.

Pediu que eu decifrasse o incomum. Qual o objetivo do imaginário.
– Eu disse comum.
– Algumas pessoas gostam de imaginar que tem um lado secreto. Ajuda a enfrentar a realidade.
– Eu gosto de imaginar que tenho um lado real. Me ajuda e enfrentar o meu lado secreto.

a borboleta voltou.
Ela me conta sobre sua infância e sua inquietação pelas borboletas.

Mariana Gouveia – do Divã

agridoce

agridoce

quando era sábado
ela pensava nas suas
sobras de açúcar
porque seu corpo
era branco de madrugada
sem pelos
liso como o leite
que ela conhecia
doce
quando era sábado
ela nem erguia
a saia mais
nem amaciava as
coxas com óleo de
qualquer flor

agora ela amava
absurdamente
as segundas-feiras

 

Luciane Lopes
*imagem: Mira Nedyalkova

a minha saudade tem o mar aprisionado…

a minha saudade tem o mar aprisionado

 

na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios, porque dilacera os olhos.

 

Lunna Guedes, in: Lua de Papel — livro dois
*imagem: Mira Nedyalkova

Estudo sobre Distâncias

Estudo sobre Distâncias

I

Descanso seu nome
em meus lábios

assim, beijo-o.

II

Enlaço meu decote
aos botões da sua ausência

assim, abrigo-me.

III

Deste corpo, pouso
Deste abraço, ninho.

Karinne Santiago
*imagem: Mira Nedyalkova