Guarda roupas

nishe 2*imagem: Nishe

Quando você invade meu guarda-roupas,
me sinto linda.
Parece que tenho bom gosto.
Quando me veste.

 

Aden Leonardo

Maratone – se # 03

 

“Correr para onde, se é dentro o labirinto?
[…] Talvez ela nem existisse
Talvez fosse mesmo o tempo que se avoluma inundando tudo, cobrindo, fechando
Logo mais teríamos notícias dos últimos acontecimentos
Os deuses exigem tanto e por isso decidi aquele mesmo dia, além de me amarrar ao mastro
Também cobriria de cera os ouvidos
As sereias e suas bocas pequenas abriam e fechavam
Ainda hoje não escuto nada e tudo é líquido e estrondoso
Todos os caminhos levam ao corpo.’”
Assionara Souza

 

O casarão abandonado da rua do Meio tinha essas cores pálidas de quem não vê tinta a muito tempo. As janelas largas e uma placa trazia os números 1772. Não dava para saber se era o ano das paredes feitas de adobo ou se era exatamente o que.  Como eu havia sido trazida por ela e suas mãos me guiaram por entre as trepadeiras lilases, a curiosidade se juntou ao fascínio.

–  Nessa casa morou minha mãe, avó,bisavó e quem sabe algo que nunca sei se denomina trisavó.

–  Tem magia esse lugar – respirei enquanto ela enfiava a mão em um buraco e com jeito de quem sabia o que fazer abria a porta, que rangeu.

Havia uma cadeira velha, uma estante com livros e pó. Um espirro meu a fez me empurrar para um quarto que surgiu em minha frente entre o riso – e as covinhas se fizeram – e o pedido de desculpas. Parecia um outro lugar dentro de um lugar. Um espaço grande com cama, cadeiras, armários, cômodas e um vaso de flores miúdas a enfeitar o canto da penteadeira onde uma vitrola vermelha tocava algum disco antigo.

– Não precisa disso – falei, com os olhos a invadir o espaço – é apenas um espirro. Isso aqui é lindo! Apontei para um velho baú e como se fizesse um passe de mágica no ar ela abriu o baú e ali dentro, relicários de uma vida inteira, livros, lenços bordados, alguns sapatos antigos e envelopes de cartas e outras quinquilharias.

Parecia uma menina diante de um brinquedo. Os olhos reviravam em cada espaço e Amy tocou no celular. Era uma chamada qualquer que ela desligou de repente.

Era mesmo magia o novo e o velho ali, na minha frente. O antigo e o moderno. A cama, ao lado da janela, que levava as cortinas para o quintal cheio de folhas como se nunca tivesse sido limpo, e imaginei como um casarão abandonado guardava em seu interior aquele espaço.

–  Esse lugar é meu, mas depois da morte da minha família, fiquei sem condições de manter e estou tentando aos poucos reerguer. Já consegui ajeitar esse quarto e a cozinha. O resto, ainda leva tempo.

Aqui tem a história de cada um dos meus antepassados e me vejo em cada um deles. Encontrei livros de meu avô que fala de astrologia e em um rompante tirou a blusa branca e virou as costas onde um rastro de lua desenhava as fases de uma lua toda na pele…

– Era a capa do livro feito a mão pelo meu avo. É a minha melhor herança.

Ela desatou a discorrer sobre o que gostava e de como os efeitos das lembranças moravam dentro dela. A vida dera a ela mais do que queria e ali, era seu refúgio de alma.

Falamos de solidão, de poesia e do sistema solar. De arrepios na pele e de histórias de amor.

Não houve mais promessas de encontros melhores, mas ali, com a mão estendida para o abraço, as estações nos avisava de que a partir dali, todos os outros encontros seriam sempre melhores.

 

Mariana Gouveia
*imagem: Nishe
Projeto Scenarium Plural – Maratone – se : Tema livre

Seu cheiro de flor.

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… sua boca é de pétala, de flor!
… seu desenho é um pé, de flor!
…sua alma é um jardim, de flor!
Seu corpo é um convite de um caminho… de flor
Seu deleite é a seiva…
de quando machuca-se…uma flor.

Aden Leonardo
*imagem: Nishe

Adágio

adagio                                                                                               Amanheço

pela minúcia das lembranças…

Em tudo busco a palavra que disse :sou tua!
Em toda letra busco o verso que não me dedicou e ainda assim sei que pensa.

Na moldura sem rosto é o teu que sempre vejo

Mariana Gouveia
*imagem: Nishe

Folheava as plantas.

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As folhas, as pétalas, os espinhos, os cheiros; salivava pontas de dedos ao revirá-las; eram brancas aos meus dedos, translúcidas ao sol.
Passeei um olhar abstrato no concreto do jardim, descansei os olhos sob a sombra fria dos bancos. Caminhei a disposição geométrica dos paralelepípedos contra a linearidade dos passos transeuntes.
Era pesada a ausência que a mim aguardava – enquanto eu a esperava.
Do outro lado dessa muralha e dessas grades, que isolam todo o jardim, marulha essa angústia nos degraus da cidade.
Com uma tesoura de papel tentei podar os muros; caíram a meus pés, descalços, os meus cabelos brancos, enquanto, em minhas mãos, o sangue verde de uma folhalâmina escorria em líteros gotejares: o sangue verde de uma folhalâmina se espalhava pelas páginas, enquanto, eu, em pontas de dedos, salivadas, folheava-as.

Alexandre Pedro
*imagem: Nishe