à distância

à distância*imagem: Omerika
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choro por quem merece
rio da maioria e oceano por ti
tão desértico tão maríntimo

 

Líria Porto

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– Às vezes, é preciso enfrentar o imaginário.

Às vezes, é preciso enfrentar o imaginário.
*imagem: Omerika

Ela senta. Anota.
– Sugiro que fale mais sobre isso.
Disparo a falar sobre possibilidades de espera.
O mundo é um lugar comum. Dispensa atenuantes de comparação.

O sonho de conquistar o mundo cabe em um abraço.
Meninos espreitam a solidão, enquanto espanto pássaros no jardim.
Levo eles para o céu. É a estação que sopra em direção do voo.
Coisa de menina dentro da estação..
Despeço do homem na porta da esquina.
Lembro do corpo dela dentro de mim.

Lembro dela dentro de mim.
Eu. Dentro dela.
A pele com cheiro da maresia. Ela todo mar. Direção da minha nau. Ela, meu porto.

Divago sobre vento. Falo da alusão ao que minha mãe dizia:
– Vento é o Espírito Santo. Assovie e ele virá.
Faço isso só pra demonstrar. Uma brisa suave mexe o cabelo dela. Anota.
Imagino roubar as anotações dela.
Ela me pergunta sobre o que penso do imaginário – suspiro –
– voos…
Pássaros?
– Asas. Liberdade. O voo não é solúvel no ar.
De toda queda. Só às vezes, eu quero o chão. Há dez maneiras do imaginário agir.

-Liberdade?
– De dançar, voar, pousar…
Empurra os pássaros com a mão.

Ela anota. Pega na minha mão. Olha na direção da janela.

– Me mostra.
E começa a falar de ninhos.

 

Mariana Gouveia

Quase fado

quase fado

Eu agora já não a espero mais pela noite. De noite, eu a tenho.
Dentro de mim.

De noite, enquanto uma lua ligeiramente mais do que meia lua se insinua num céu estrelado,
eu a guardo no sagrado do meu coração.

Eu a espero pela manhã, diante de uma tela que se abre trazendo o sol e o cheiro do café invade a casa toda.
Eu a espero cheia de aromas. Das frutas frescas que colho contando a espera.

Eu a espero ouvindo os pássaros invadir o quintal e o beija-flor revoar na esperança de que eu fale dela.
Eu a espero enquanto a vida espera para ser cuidada e no rádio toca a canção que ela mandou um dia.
Viro quase fado na tentativa da espera.
Viro quase dança, na incerteza do vento que levemente afasta a cortina e me mostra que lá fora, o dia já nasceu.
Eu a espero e guardo as coisas para contar para ela.
Chego a murmurar seu nome. Chego a ouvir sua voz.
E quando o dia vai se arrastando em instantes longos, eu vou dando conta de será um dia a mais e ela não vem.
De noite, desisto de esperar.
Mas, os dias que virão – todos os outros amanheceres que eu viver – serão feitos de espera.
A espera de que ela volte para mim.

 

Mariana Gouveia
*fotografia: Omerika