O barco de papel…

ancorado no canto da mesa da cozinha
Um envelope a espera da resposta
A tarde deixando o dia e levando o sol
Para navegar outros mares
Saudades
a alma ultrapassa a porta e vai em busca do oceano
A nado.

Mariana Gouveia
In – Sete Luas
Editora Scenarium Plural
*Imagem: Wallpaper The Best

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Maratona de Outubro – 7 – Como escolho os livros que leio?

“Eu gosto de dizer que construo para os olhares,
para no caso, o seu – habitat!
Gosto de pensar que, de palavra em palavra,
eu vou me desfazendo de mim para que uma vez,
em estado de abandono, você me encontre!
E me leve com você!”
Lunna Guedes

eu poderia lhe dizer “divirta -se”, mas prefiro dizer: “embriague – se” porque combina com café, e essa realidade é tão minha.”
Lunna Guedes

Bambina mia,

Foram sete cartas-livros como tu disse, nessa semana, que para mim foi pesada e ao mesmo tempo suave – por culpa tua, devo dizer.

E baseada nessas dedicatórias de Lua de Papel venho responder a última pergunta. Antes, devo dizer que, é uma delícia escrever para ti. As palavras fluem em mim e me abro. É realmente como se tivesse com lápis e papel em mãos para te dizer o que sinto. E sei de sua ansiedade com palavras, papel e letras.

Mas, a história aqui é dizer como escolho os livros que leio. São eles que me escolhem – como tuas Luas – e os títulos me ganham. Em toda minha vida sou mais lunar – olha tu aqui em mim – e sou de fases também – uia!! – Poderia enumerar cada um dos livros em que o título me ganhou e não haviam em nenhum deles uma capa tipo show… mas tuas Lua de Papel, fora além de toda história que conheço – ai, minha Alê – e outros que a vida me apresentou. Lua de Papel foi show em estória e capas. Pude escolher – nesse caso, único, pude – e tenho a capa mais linda do mundo e recriei em artesanato.

Já fui livro sem capa. Já fui história e já contei as minhas.
Quase me perdi dentro de outras. Mas sempre fui escolhida dentro delas. Era como se tivesse um dedo apontado e ali, em negrito tivesse a palavra me escolha e o livro era eu em dimensão exata de ser.

Das histórias de vampiros ou a mais linda estória de amor.
Pode até ser aquele livro artesanal – e o cuore – como tu diz – explode na paixão máxima e eu repito: por que não fui eu quem escrevi isso?

Grazie per tutti!

Amo Tu!

Bacio
Mariana Gouveia
|Projeto Maratona de Outubro
Participam desse projeto
Ale Helga | Cilene Mansini | Fernanda Akemi | Mari de Castro | Obdúlio Nunes OrtegaLunna Guedes

Maratona de Outubro – 4 – Os livros que abandonei

– Abandonou-te?
– Pior ainda: esqueceu-me…
Mário Quintana

Escuta, bambina mia, trovoa aqui enquanto Gadu solta a voz e devo dizer que grito teu nome… Adianto que sou uma viagem pelo céu, enquanto os relâmpagos parecem flashes de máquina de fotografar. Esse infinito de nada, dentro das nuvens, parece aurora boreal. Quase uma história inventada além das palavras. É surreal!

Nesses momentos eu abandono os livros e meus olhos voltam -se para essa infinitude enquanto a estante empoeirada acolhe os livros que abandonei.
Pessoa – o Fernado – é quase um pedido de socorro ao lado de Machado de Assis… Acontece, bambina, que as migrações acontecem também aqui, no meu lugar. As corujas ” de louça” assistem passivas a mudança de um livro após outro. Os olhos delas são como se o ocaso encontrasse o dia e daí não se pode fazer mais nada. É pura viagem.

Dom Casmurro é um dos livros que abandonei. Nunca compreendi bem a história de Capitu… mas me encantou demais os olhos de ressaca e confesso que até hoje, a canção Elephant Gun me leva pelas páginas do livro e se me perguntar o porquê eu vou dizer que nem sei.

Não que seja um abandono por querer. Se bem que muitas vezes, alguns livros não me conquistaram e os “abandonei” nos bancos de praças, pontos de ônibus,etc. Nunca voltaram, então conclui que se adaptaram nos olhos de quem os encontrou.

Você deve saber o quanto é impossível abandonar um livro, ali, nas esquinas das estantes ou mesas. Mas, o tempo, bambina… ah, o tempo é esse menino travesso que se dependura nos ponteiros do relógio e quando percebemos já é noite-madrugada-manhã-semanas-meses-anos…
E por falar em tempo, a hora me chama a razão e lá vou eu, rumo à vida.
Vem comigo?

Bacio,

Mariana Gouveia
|Projeto Maratona de Outubro
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Maratona de Outubro – 2 – Como organizo a minha estante?

“Vou guardar tuas cores… Vou te guardar comigo…
Teu sorriso eu vou deixar na estante pra eu ter um dia melhor…”

O Teatro Mágico

 

Bambina mia,

 

Sei que irá abrir teu sorriso mais bonito aqui… A minha estante é Plural em seu estado de graça. Meus livros estão expostos entre a leveza da vida – que faz com meu filho esteja ali, entre os brinquedos dele e com isso, mais perto de mim – e em cada canto da casa onde costumo estar.
Confesso que acho eles tão delicadamente cúmplices um do outro, lado a lado. Folheio todo dia um, como se fosse minha bíblia leio um poema, ou uma capítulo todo entre uma estação e outra.

Mas a minha estante, bambina é itinerante e passeia entre os cômodos da casa.
Posso ler Lua de Papel – ler não, rerereler – na varanda, onde ele vagueia entre o vasinho de violetas brancas e o quintal.
E Vermelho por Dentro faz companhia para o meu vino bianco italiano chardonnay – uma aquisição para dançar ao som de Boccelli e suas palavras – e o copo com a borboleta amparada pelos baldinhos de corações…

Ali, um a um estão sós e ao mesmo tempo fazem companhia um ao outro. A pluralidade tomando conta de cada espaço e o orgulho estampado no rosto quando alguém admira o trabalho.

A minha estante tem o gesto de um Scenarium imenso. De pessoas que escrevem porque escrever faz parte da alma de cada um que está ali, adormecidos sobre o móvel e seus brinquedos de gente grande.

Mas, junto deles, bambina, também estão uma coleção de Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e seus Os Maias, Raquel Serejo Martins, Drummond e outros mais.

Tiro o pó, ajeito, mudo eles de lugar e levo sempre um comigo. É como um ritual feito de delicadeza e a cada um dia, o que eu pego me diz exatamente o que preciso saber, enquanto o café fica pronto, e me preparo para viver o dia e o aroma toma conta da casa toda.
E como como diz Sam Savage: “De uma maneira geral, os livros sabem ao cheiro de café.”

Vamos ao dia!

Grazie,
Bacio

Mariana Gouveia
Editora Scenarium Plural
|Projeto Maratona de Outubro
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Maratona de Outubro:1 – Como teve inicio a minha vida de leitora?

 

Bambina mia,

 

As perguntas chegam até a mim feitas por você e lá vou eu, em uma infinitude de palavras te responder. Sabe aquele instante que fica vivo na memória e quando alguém pergunta as imagens atravessam a barreira do tempo e te toca como se fosse hoje?

Eu era a quarta entre meus irmãos – somos sete no total – embora depois de anos, meu pai teve mais um filho. Porém, lá, onde tudo começou éramos sete e os livros nos chegavam em forma de doações. Em alguns, faltavam as páginas e era a desculpa que minha mãe usava para  que a gente criasse a continuação.

O livro era usado quando chegou em minhas mãos. Como fazia sempre, minha mãe me colocava em um banquinho em um dos cantos da cozinha e enquanto ela tratava de alguma das refeições o livro ganhava vida dentro de mim. Meu pé de laranja lima tinha a docilidade do pomar logo depois da horta. Por vezes, era ali que eu costumava ler.

Os olhos de minha mãe seguia meus passos para além da beira do rio. Eram variados os exemplares que chegava até nós.

Engraçado como a vida de antes trazia esse delicado traçado. As letras formavam palavras e com elas eu entrava em um mundo além das porteiras.
E assim teve início minha vida de leitora. O amor pelos livros foi só aumentando com o passar do tempo e até hoje, minha vida é feita de livros e palavras.

 

Grazie tanto!

Bacio,

Mariana Gouveia
Editora Scenarium Plural
|Projeto Maratona de Outubro
Participam desse projeto
Ale Helga | Cilene Mansini | Fernanda Akemi | Mari de Castro | Obdúlio Nunes OrtegaLunna Guedes

Maratone – se – #02

Era outono mas o inverno resolveu bater forte na porta. O calor típico da cidade deu lugar a uma garoa fina e o vento gelado me obrigava a apressar os passos. Como estava frio resolvi beber um café na padaria da esquina, um pouco antes do meu local de trabalho.
Só depois de tomar o café é que percebi a fila que se formava no caixa. O que me atrasaria um bocado. Perto da minha vez, comecei a procurar na bolsa a carteira para pagar. Uma mão atravessou na minha frente e colocou o dinheiro no balcão.
– Hoje, sou eu quem pago – ela disse – lembra de mim? – o riso a invadir o rosto e a iluminar o lugar todo.
Entre a surpresa e o espanto meu olho buscou a boca que tanto me intrigou nesses dias todos. Amy voltou ao meus ouvidos e o perfume.
– Lembro sim! Pelo jeito quem teve a mágica da carteira sumida fui eu.
Saímos rua afora e ela abraçou-me. Reclamou do frio e de como amava o calor.
– Prefiro o sol radiante – ela disse – enquanto eu sempre repetia o também num gesto de que tô sonhando.
– Bora lá que te levo onde vai – disse enfiando o braço em volta do meu e a rua se encheu de graça.

– A terceira vez é a melhor – disse e entre meu olhar de interrogação respondeu a pergunta que só consegui fazer mentalmente:

–  o nosso próximo encontro será melhor – riu mostrando as covinhas – Espero que queira me ver mais uma vez, dessa feita sem acaso… ou seria melhor o acaso?
Eu apenas murmurei alguma coisa, enquanto ela me conduzia pela rua que me sabia de todo dia e naquele em especial a voz era o encanto para além do meu canto.

–  Não faz mal! Seja por acaso ou marcado, será melhor!

Os passos me levaram até a porta do trabalho. O riso fácil era para além das delicadezas e a promessa de me mostrar os voos dos pássaros na casa vazia ao fim da rua do meio.

O abraço entre um agradecer e suspiros meus era quase a sintonia do dia. E a promessa de encontros futuros fazia meu coração acelerar.

Ela possuía a vontade dentro do riso e embora o frio me fizesse tremer a cada vento, ela, de leve trazia em meu corpo o calor do seu e assim se foi deixando um ritmo de Amy em mim.

 

Mariana Gouveia
*imagem: Laura Makabresku
Projeto Scenarium Plural – Maratone – se : Tema livre

Missiva à Senhora D, aos cuidados de Hilda.


“Queria tanto te falar, por favor, queria te falar, te falar desses nadas do dia a dia que vão consumindo a melhor parte de nós, queria te falar do fardo quando envelhecemos, do desaparecimento, dessa coisa que não existe mas é crua, é viva, o Tempo”.  

Hilda Hilst
In: A obscena Senhora D.

 

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Sabe, senhora D. muitas vezes também me vi à procura do sentido das coisas. Olhava o pé de ipê – que nesse mês renasce nas minhas ruas, no meu cerrado – e indagava por infinitas vezes o porquê de tamanha beleza. Buscava as dobras dos muros, pensando ali ter além da quina feita de concreto batido, um portal para o mundo das solidões.

Talvez nossas indagações se diferem muito umas das outras ou não.
Também indago sobre a morte. A vida parece aquela bolinha de tênis que sempre cai no meu quintal e o filho da vizinha sobe no muro, mesmo com os latidos dos cães, e aponta a bola atrás de um arbusto. O tempo é esse curioso menino que cresce a cada dia. A vida é a rede que treme ao toque da bola. A morte é essa bolinha amarela fugindo para além dos quintais. O meu, por exemplo.

Sabia que aqui os peixes também morreram? Não foi por falta de cuidado com o aquário não. Foi o calor que é tanto por aqui. Um dia, eles não aguentaram os mais de 40º e quando vi, já não eram mais.
Perdi – me nas cores mortas dentro do vidro, sem vida e decidi que não seria mais rio sem corredeira.
Hoje, meus peixes são as sardinhas de louça ou material similar que vieram de Portugal embrulhadas em papel de presente. No dia que chegaram – o carteiro que não suportava mais minhas perguntas sobre alguma correspondência para mim, gritou para além da caixa de correios: até que enfim! – eu abri o portão e assinei os papéis com meu nome e timbre de vários selos e segui casa adentro. Desde então, os peixes ocupam a sala numa decoração que traz o oceano nas paredes da sala e cozinha.

Mas eu gosto das coisas vivas. O pé de romã – que ganhei da moça que é portal de humanidade – cresce dentro da caixa velha de Eternit. Ali, faz companhia para o pé de mamão – que precisa ser cortado – as raízes já invadem as paredes do canil. Meu pai disse que a vida é assim. Tudo tem o tempo certo das coisas.

Isso de sentar no vão da escada também nos une. Na verdade, eu uso o vão do telhado. É a hora que tento chegar mais perto de Deus – e do que é profano.
Já fixei desejos no corpo deitada sob o céu estrelado. A geografia sendo sempre imaginária nos relevos das mãos que nunca me tocaram.
Sempre a imaginei nua, a andar pela casa, no quintal e o vento a beijar-lhe a pele.
Hoje, ela só é um vulto dentro da lembrança.

Por isso, escrever talvez seja a forma mais lírica de viver e morrer e endoidecer deve ser essa coisa de alma fechada. Meu pai me contou tantas histórias onde as pessoas perderam a alma e ficaram fechadas por anos em lugar de louco. Meu pai tinha medo de loucura. Tirava o chapéu e erguia os olhos para o céu. Dizia que não tinha estrutura para passar na rua dos doidos.

Dava uma volta imensa para atravessar a ponte do outro lado. Meu pai tinha medo de vazios. Gostava da casa cheia de gente e eu tenho medo de casa cheia. Caibo sozinha nessa solidão onde deito no telhado e finjo saber o nome das estrelas. Já te contei que vi dali de cima do telhado, a lua dentro de um balde de água? E que às vezes eu sou esse rompante do universo e só de vez em quando cruzo a barreira do sexo e das vontades?

Desde menina, sentia essa barreira dos sexos e das vontades.  Meu pai me proibiu de contar sobre a ruas das meninas. Duas vezes, ele me pegou no quarto da Valci – que meus irmãos a chamava de Valcizona, só porque ela era grande – e mal sabe ele que muitas das vezes eu ia escondida e saí dali com tantas histórias para contar. Mas ele proibiu e dizia que as moças de famílias não podiam nem passar naquela rua, apesar da padaria ser muito mais perto passando pela rua delas do que atravessar o gramado do campinho onde meu irmão perdia toda vez que insistia em jogar.

O dia que disse para ele sobre as vontades e de como seria depois de casar ele envermelhou-se e disse que eu aprenderia quando fosse o momento certo e passou a falar do enxoval bordado que a mãe deixara.  E que o resto era tudo loucura e lá ia ele dirigir o olho para o céu e tirar o chapéu em sinal de reverência e saia falando que eu só perguntava sempre o irrespondível e que a vida para ser boa era preciso aprender a entender os mistérios e o tempo certo de cada coisa.  Mal sabia ele que as meninas da rua do pecado já haviam me contado sobre tudo que devia saber para viver o amor ou mais coisas além dele. E como o menino deixou mais uma vez cair a bola de tênis, lá vou eu a catar atrás dos ipês que crescem no meu quintal a tal bola perdida, porque meu pai também dizia que era através dos meninos que a vida fluía.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural – Clandestina Agosto 2018
Editora Scenarium Plural