Maratone – se – #02

Era outono mas o inverno resolveu bater forte na porta. O calor típico da cidade deu lugar a uma garoa fina e o vento gelado me obrigava a apressar os passos. Como estava frio resolvi beber um café na padaria da esquina, um pouco antes do meu local de trabalho.
Só depois de tomar o café é que percebi a fila que se formava no caixa. O que me atrasaria um bocado. Perto da minha vez, comecei a procurar na bolsa a carteira para pagar. Uma mão atravessou na minha frente e colocou o dinheiro no balcão.
– Hoje, sou eu quem pago – ela disse – lembra de mim? – o riso a invadir o rosto e a iluminar o lugar todo.
Entre a surpresa e o espanto meu olho buscou a boca que tanto me intrigou nesses dias todos. Amy voltou ao meus ouvidos e o perfume.
– Lembro sim! Pelo jeito quem teve a mágica da carteira sumida fui eu.
Saímos rua afora e ela abraçou-me. Reclamou do frio e de como amava o calor.
– Prefiro o sol radiante – ela disse – enquanto eu sempre repetia o também num gesto de que tô sonhando.
– Bora lá que te levo onde vai – disse enfiando o braço em volta do meu e a rua se encheu de graça.

– A terceira vez é a melhor – disse e entre meu olhar de interrogação respondeu a pergunta que só consegui fazer mentalmente:

–  o nosso próximo encontro será melhor – riu mostrando as covinhas – Espero que queira me ver mais uma vez, dessa feita sem acaso… ou seria melhor o acaso?
Eu apenas murmurei alguma coisa, enquanto ela me conduzia pela rua que me sabia de todo dia e naquele em especial a voz era o encanto para além do meu canto.

–  Não faz mal! Seja por acaso ou marcado, será melhor!

Os passos me levaram até a porta do trabalho. O riso fácil era para além das delicadezas e a promessa de me mostrar os voos dos pássaros na casa vazia ao fim da rua do meio.

O abraço entre um agradecer e suspiros meus era quase a sintonia do dia. E a promessa de encontros futuros fazia meu coração acelerar.

Ela possuía a vontade dentro do riso e embora o frio me fizesse tremer a cada vento, ela, de leve trazia em meu corpo o calor do seu e assim se foi deixando um ritmo de Amy em mim.

 

Mariana Gouveia
*imagem: Laura Makabresku
Projeto Scenarium Plural – Maratone – se : Tema livre

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Missiva à Senhora D, aos cuidados de Hilda.


“Queria tanto te falar, por favor, queria te falar, te falar desses nadas do dia a dia que vão consumindo a melhor parte de nós, queria te falar do fardo quando envelhecemos, do desaparecimento, dessa coisa que não existe mas é crua, é viva, o Tempo”.  

Hilda Hilst
In: A obscena Senhora D.

 

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Sabe, senhora D. muitas vezes também me vi à procura do sentido das coisas. Olhava o pé de ipê – que nesse mês renasce nas minhas ruas, no meu cerrado – e indagava por infinitas vezes o porquê de tamanha beleza. Buscava as dobras dos muros, pensando ali ter além da quina feita de concreto batido, um portal para o mundo das solidões.

Talvez nossas indagações se diferem muito umas das outras ou não.
Também indago sobre a morte. A vida parece aquela bolinha de tênis que sempre cai no meu quintal e o filho da vizinha sobe no muro, mesmo com os latidos dos cães, e aponta a bola atrás de um arbusto. O tempo é esse curioso menino que cresce a cada dia. A vida é a rede que treme ao toque da bola. A morte é essa bolinha amarela fugindo para além dos quintais. O meu, por exemplo.

Sabia que aqui os peixes também morreram? Não foi por falta de cuidado com o aquário não. Foi o calor que é tanto por aqui. Um dia, eles não aguentaram os mais de 40º e quando vi, já não eram mais.
Perdi – me nas cores mortas dentro do vidro, sem vida e decidi que não seria mais rio sem corredeira.
Hoje, meus peixes são as sardinhas de louça ou material similar que vieram de Portugal embrulhadas em papel de presente. No dia que chegaram – o carteiro que não suportava mais minhas perguntas sobre alguma correspondência para mim, gritou para além da caixa de correios: até que enfim! – eu abri o portão e assinei os papéis com meu nome e timbre de vários selos e segui casa adentro. Desde então, os peixes ocupam a sala numa decoração que traz o oceano nas paredes da sala e cozinha.

Mas eu gosto das coisas vivas. O pé de romã – que ganhei da moça que é portal de humanidade – cresce dentro da caixa velha de Eternit. Ali, faz companhia para o pé de mamão – que precisa ser cortado – as raízes já invadem as paredes do canil. Meu pai disse que a vida é assim. Tudo tem o tempo certo das coisas.

Isso de sentar no vão da escada também nos une. Na verdade, eu uso o vão do telhado. É a hora que tento chegar mais perto de Deus – e do que é profano.
Já fixei desejos no corpo deitada sob o céu estrelado. A geografia sendo sempre imaginária nos relevos das mãos que nunca me tocaram.
Sempre a imaginei nua, a andar pela casa, no quintal e o vento a beijar-lhe a pele.
Hoje, ela só é um vulto dentro da lembrança.

Por isso, escrever talvez seja a forma mais lírica de viver e morrer e endoidecer deve ser essa coisa de alma fechada. Meu pai me contou tantas histórias onde as pessoas perderam a alma e ficaram fechadas por anos em lugar de louco. Meu pai tinha medo de loucura. Tirava o chapéu e erguia os olhos para o céu. Dizia que não tinha estrutura para passar na rua dos doidos.

Dava uma volta imensa para atravessar a ponte do outro lado. Meu pai tinha medo de vazios. Gostava da casa cheia de gente e eu tenho medo de casa cheia. Caibo sozinha nessa solidão onde deito no telhado e finjo saber o nome das estrelas. Já te contei que vi dali de cima do telhado, a lua dentro de um balde de água? E que às vezes eu sou esse rompante do universo e só de vez em quando cruzo a barreira do sexo e das vontades?

Desde menina, sentia essa barreira dos sexos e das vontades.  Meu pai me proibiu de contar sobre a ruas das meninas. Duas vezes, ele me pegou no quarto da Valci – que meus irmãos a chamava de Valcizona, só porque ela era grande – e mal sabe ele que muitas das vezes eu ia escondida e saí dali com tantas histórias para contar. Mas ele proibiu e dizia que as moças de famílias não podiam nem passar naquela rua, apesar da padaria ser muito mais perto passando pela rua delas do que atravessar o gramado do campinho onde meu irmão perdia toda vez que insistia em jogar.

O dia que disse para ele sobre as vontades e de como seria depois de casar ele envermelhou-se e disse que eu aprenderia quando fosse o momento certo e passou a falar do enxoval bordado que a mãe deixara.  E que o resto era tudo loucura e lá ia ele dirigir o olho para o céu e tirar o chapéu em sinal de reverência e saia falando que eu só perguntava sempre o irrespondível e que a vida para ser boa era preciso aprender a entender os mistérios e o tempo certo de cada coisa.  Mal sabia ele que as meninas da rua do pecado já haviam me contado sobre tudo que devia saber para viver o amor ou mais coisas além dele. E como o menino deixou mais uma vez cair a bola de tênis, lá vou eu a catar atrás dos ipês que crescem no meu quintal a tal bola perdida, porque meu pai também dizia que era através dos meninos que a vida fluía.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural – Clandestina Agosto 2018
Editora Scenarium Plural

Sobre a noite de sábado

“Gosto de me deitar
sem sono
para ficar
a lembrar-me
das coisas boas
deitada
dentro da cama
às escuras
de olhos fechados
abraçada a mim.”
Adília Lopes

 

Sou feita de abraços e de levezas e as palavras tem desenhado em minha memórias instantes únicos que completam meu estado de ser.

Talvez, mais do que ser feita de abraços que me envolve em energia, sou feita de momentos.
Na infância, lá em algum lugar de Goiás fui desejo de que minhas palavras ganhassem o mundo e com isso, eu levasse o amor para além de mim. Era apenas um sonho e que sob os olhos atentos de minha mãe se tornaram sementes e eu regava plantando letras em meu caderno velho. Era apenas um sonho.

E com o passar dos anos, posso dizer que nem nos melhores sonhos imaginaria a última noite de sábado.

O dia amanheceu leve e com o vento a balançar as folhas das árvores nas ruas de São Paulo.  Corredores era folhas em cima da mesa de Lunna e Marco Antônio (os realizadores do meu sonho) os idealizadores da Scenarium Plural Editora a esperar pela fita de cetim a juntar elas e contar uma história.

Entre o café da manhã e a noite se desenhavam emoções e abraços dentro do meu dia. Fui presenteada pela surpresa da presença de meu filho e nora a desenharem carinhos em mim.

O vento que antecipava a mudança da temperatura também me acolheu quando chegamos ao local do evento e depois de entrar pela porta, o que vivi foi pura emoção.

Corredores virava livro à medida que Lunna usava suas mãos de fada e juntava a fita ao papel e minha história se transformava em sorriso nos abraços trocados, nas conversas entre amigos antigos e novos.

E não era só Corredores que servia de ponte para braços estendidos e acolhida de amor. Ainda havia Obdúlio e seu Rua 2; Adriana Elisa Bozzetto e seu Verbo Proibido e a Revista Plural Clandestina com inspiração de Hilda e Clarice.

Sete Luas é um caso a parte, não fosse um caso de amor explícito em sete fases, com sete mulheres convidadas a escrever sob a regência das fases da lua!

Não fosse tudo isso da noite de sábado, ouvindo  o vento que batia nas janelas enquanto me dedicava a escrever carinho aos amigos, não fosse os abraços a aquecer a alma eu juraria que ainda estava sonhando.

 

Mariana Gouveia
ps: Você pode adquirir os livros da Scenarium Plural através do email : scenariumplural@gmail.com ou no site:
https://scenariumplural.wordpress.com

 

De que cor é a noite?

Dentro da noite só avistava o vazio das horas…
a porcelana suja vigiando os instantes, a figura do elefante cor de ferrugem na estante – nunca reparara na cor – ao lado da bailarina, que parece dançar de verdade.
Nem ela mesma sabia a história daquelas peças, quase estátuas, fazendo companhia para a sua solidão. Lembra – se apenas que elas estiveram ali desde sempre. Uma coruja com olho estranho, um gato que lambia a pata, os três frades que bebiam vinho – todos enfileirados na estante.
Os objetos inanimados pareciam ter vida… por vezes, parecia ser ela, o bibelô no canto da sala, com os olhos fixos na janela a espreitar os movimentos da noite.
As toalhinhas de crochê feitas pela avó a ocupar os lugares na casa… a almofada de fuxico, como se estivesse sempre cansada.
Conhecia o barulho da rua… Os carros e seus movimentos. Vez ou outra, um mais afoito, cantava os pneus, na impaciência de virar a esquina. Um bêbado, e sua cantoria noite afora

Dali, do seu canto fixo em sua janela, conhecia as horas, pela cor do céu que surgia. Os olhos buscavam sempre as sombras… onde havia espaço para sua solidão.
Era dali que tinha a dimensão da noite, quando tudo, ou quase tudo se aquietava dentro da rua e a cidade dormia. Só os insones ficavam a espreitar janelas como ela.
Passava os olhos pelos objetos todos. O porta – retrato, que trazia pessoas conhecidas, mas de quem nem mais se lembrava. Sabia o sobrenome, que era o mesmo seu. Onde foram parar àqueles risos que lembram dezembros? Parecem meros estranhos, ao lado do elefante, cor de ferrugem, a vigiar todas as noites,
onde apenas o aroma do café, seguia seguindo um ritual antigo, que o pai ensinara.
Se sentia uma alquimista. Relembrava de cada parte da receita, até ver ali, na xícara fumegante sua própria solidão.

 

Mariana Gouveia
* Texto escrito para a Revista literária Plural La Barca. 

6 on 6: a pessoa que sou


 

Talvez, eu seja canção.

Dessas que o vento desliza e busca sinfonias
E chega um dia em que não resta quase nada para cantar ou contar.
talvez eu seja um poema ou uma velha história
quase secular ou criada no instante de agora
o mar, é essa estrela dele mesmo feito porcelana na estante;
o verbo do oceano marítimo em mim
e eu, essa pessoa que sou.
Ou posso ser o mês de outras estações
florescendo ipês no quintal

e na rua de cima sou a menina a espiar pelos muros dentro dos dias

 

 

aqui, há um pulmão que teima em respirar
células em cura e um coração habitado de fé.
de alma, sou só metade, sou parte deles…
essa válvula de escape entre o desejo e a vontade
e essa realidade doida me leva ainda por corredores
onde a estação é apenas uma só
sou segredo e brevidade
a palavra e o eco
o chão e o abismo e o vácuo…
se você perceber, sou fagulha ou sopro
talvez apenas vento que a mãe repetia na reza do espírito santo
Amém!

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Plural Editora
PARTICIPAM DESTE PROJETO: 
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega, Maria VitóriaMari de CastroCilene Mansini

— Que mundos te guardem e te apartem de mim…

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A casa, à noite, era iluminada pelas lamparinas e o céu, de tão estrelado para iluminar os campos e os vaga-lumes inspiravam poesia. Não dava para ler – ou até dava, se conseguisse driblar o olho atento da mãe. O lampião veio anos mais tarde.
Contava as horas para amanhecer e devorar os livros ou escrever.

Criei um desvio para atravessar a ponte e ir além da colina. A escola foi feita no alto do morro. Ali, as crianças das fazendas vizinhas eram beneficiadas pelo invento que meu pai criara – construíra a casinha no alto da colina para que nada atrapalhasse os estudos – e a professora viera da cidade. O olho atento para os filhos do dono da escola. O cheiro dos cadernos criados por minha mãe e o descampado que mostrava lá embaixo o capim dourado a colorir a paisagem.

Todo objeto queria virar gente na minha mão. O livro quase virou na palavra escrita. O caderno todo em branco, esperando que as linhas fossem preenchidas com o verbo na palavra. A lembrança da mãe costurando o papel do saco do pão e ganhando estrutura de caderno.

Um dia, um lápis se perdeu em minha mão. Ganhou encanto no verso e na rima. Era laranja, o lápis… e a cor se encontrou no verbo e na gramática. Um lápis não pode ficar em silêncio. Ele quer gritar e usa a minha vontade de escrever e fazer um livro.

Fiquei adulta e aquela escola, no pé da colina foi me levando vida afora dentro de tantos mundos. Caibo em todos, assim como cabia na cadeira perto da janela e me perdia horas a fio a imaginar o capim dourado se transformando em arte e poesia.

Algumas cenas confundiram minha vida, mas ainda assim, me levaram para um passado onde reviro as coisas do baú.

Virei confusão nos personagens que encontro todos os dias – fora e dentro de mim – e confundi semente com flor. Amei mais nuvens que céu, mais voo do que pouso e mais letras do que palavras.

Era ali – ou ainda é – que a cozinha vira lugar de aconchego. Os objetos mudam de lugar. Ganham morada nova na cômoda do canto. A fotografia da avó com a colher de pau na mão, amarelada na parede que dá para o corredor. A janela no ponto certo onde a vista dá para a horta preparada para o alimento. Há mais janelas que cortinas. Mais riso que choro.
O rádio na cantoneira estilo curioso que a mãe mesmo pintara com as tintas feitas de folhas de árvores. Os bibelôs esquecidos no canto. Um sino de porcelana perto do elefante trazido da China – não se sabe por quem – e um quadro de flores bordado pela mãe. Ela tinha essas coisas de bruxa e índia. De sagrada e intocável. Sabia a cura através dos remédios feitos com ervas e benzia as crianças com dedos que imitavam os cataventos. Curava os males de quem sofria. De longe parecia uma mãe normal… de perto era uma mulher que ensinava a vida através das palavras. E eu sou essa página escrita no dia a dia.

Mariana Gouveia
Projeto Crônicas de Outubro
Editora Scenarium Plural

3 – estou sozinha de olhos abertos para a escuridão

* imagem: Félix Mas

escrevia-te poemas
na ponta dos lábios
todos os começos do dia

a carmim
cor de terra
laranja de vida

dizer-te todos os começos do dia
eu te amo
Ana Christelo

 

Querida A.

 

Agucei o delírio da febre e reconstruí mais uma vez nossa história. Poderia dizer que olhando através das ondas eu só mudaria algumas marés… O resto, te amaria igual – ou diferente – nesses séculos que te vivo.

Do meu quintal eu atravesso esse oceano de possibilidades. Enquanto você é mais aldeia, eu sou marítima nesse meu amor. Visito suas lendas dentro da escuridão. Estou sozinha. De noite… Sou puro cavalgar no teu oceano onde a vida exala beleza.

A primavera chegou… dizem que hoje, seria o fim do mundo – pensei que seria lindo se o mundo acabasse em plena primavera – e se isso acontecer eu ouvi tua voz mais uma vez ecoando dentro do vento.

Mas o mundo que me ronda é esse mar que invade onde é rio e eu líquida, deliro de amor.

Quando te escrevo tento me ater às ruínas dos castelos onde esteve. Te visito pelas estradinhas das vilas nos voos das borboletas – que cada vez mais nos une –  ou nos girassóis dos campos onde respira meu nome dentro da flor – ou nos habitantes do mar que te rodeia.

Converso com suas lendas e cada vez mais o que é do mar nos aproximam no mesmo tempo e espaço.

É como se dentro de mim estivessem juntos os dois mundos dentro dos nossos.
Os abismos e sua fala doce… a moldura da maresia que todos os dias reflete em minha pele teu toque e você.

 

Beijo meu

 

M.
Projeto  Missivas de Primavera
Editora Scenarium Plural