Maratona de Outubro:1 – Como teve inicio a minha vida de leitora?

 

Bambina mia,

 

As perguntas chegam até a mim feitas por você e lá vou eu, em uma infinitude de palavras te responder. Sabe aquele instante que fica vivo na memória e quando alguém pergunta as imagens atravessam a barreira do tempo e te toca como se fosse hoje?

Eu era a quarta entre meus irmãos – somos sete no total – embora depois de anos, meu pai teve mais um filho. Porém, lá, onde tudo começou éramos sete e os livros nos chegavam em forma de doações. Em alguns, faltavam as páginas e era a desculpa que minha mãe usava para  que a gente criasse a continuação.

O livro era usado quando chegou em minhas mãos. Como fazia sempre, minha mãe me colocava em um banquinho em um dos cantos da cozinha e enquanto ela tratava de alguma das refeições o livro ganhava vida dentro de mim. Meu pé de laranja lima tinha a docilidade do pomar logo depois da horta. Por vezes, era ali que eu costumava ler.

Os olhos de minha mãe seguia meus passos para além da beira do rio. Eram variados os exemplares que chegava até nós.

Engraçado como a vida de antes trazia esse delicado traçado. As letras formavam palavras e com elas eu entrava em um mundo além das porteiras.
E assim teve início minha vida de leitora. O amor pelos livros foi só aumentando com o passar do tempo e até hoje, minha vida é feita de livros e palavras.

 

Grazie tanto!

Bacio,

Mariana Gouveia
Editora Scenarium Plural
|Projeto Maratona de Outubro
Participam desse projeto
Ale Helga | Cilene Mansini | Fernanda Akemi | Mari de Castro | Obdúlio Nunes OrtegaLunna Guedes

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6 on 6 – trick and treat.

A vida é esse estranho modo de brincar de viver.
Vai me dizer que você não adora uma brincadeira? Ou doces, que posso traduzir em doçuras?

Tá bom! Tá certo que eu mesma, para alguns sou pura sobriedade, mas contar e captar histórias de amor é meu tempo.
Doces ou travessuras?
Ah, quero sempre a doçura do beijo e a travessura da língua a desbravar vontades.

E sabe aquela brincadeira de que amigo junto é mais do que irmão?
Mas que também traz a travessura do riso e abraço que vale mais do que doce?

E a doçura do abraço que cura?
Sabe do poder que tem o amor de amigo? Esse cura!!
Mas, também fortalece a travessura do gesto que vira surpresa e que colabora com a doçura da alma.
Doce ou travessuras?
Dá para ser os dois?

Quem me vê na sobriedade dos dias, nem imagina que sou pura travessura ou seria doçura?

Essa coisa da ligeireza dos dias é mais do que doçura. Ou seria travessuras?
Quando a gente vê o amor nos olhos de quem o coração acolhe como filho, mesmo sendo sobrinho e a verdade sendo quase travessuras… Posso pular essa parte e dizer que prefiro a travessura no olhar do Pedro, meu amor?

E cabe no gesto as duas coisas?
Posso ser puro amor e traquinagens?
Posso ser onwttt e Ahhh?
Lolla é esse avanço de alma onde meu coração vagueia. Lolla é resiliência e superação.
Lolla é travessuras e doçuras em todos os gestos…
Entre as duas coisas eu sou as duas coisas….
E você, prefere o que?

 

Mariana Gouveia

Ana Claudia – Anália Boss – Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Luana de Sousa – Lunna Guedes – Mari de Castro – – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

Projeto Scenarium 6 Missivas – Setembro

Setembro, 30/2018

 L,

Essa carta não será enviada e fará companhia as tantas outras que escrevi – e não digo sobre as que rasguei, embolei, joguei fora – e será apenas palavras escritas no vento, como o coração que vagueia nas nuvens.

Perdi a conta dos dias de solidão sem sua voz, sem seu riso e sem o olá tão único e distinto. Aqui, continua quase tudo igual. Os cães ainda vivem ao pé de mim e essa frase dita assim me faz lembrar teu sotaque. Já te contei que busquei seu rosto em outras pessoas? Dias desses, ao atravessar a rua te vi, ou melhor, pensei ter te visto. A pessoa atravessou a faixa de segurança e cruzou a avenida rumo a praça dos correios.

Corri logo depois do ônibus parar ao meu sinal – loucura minha, digo – para ao chamar teu nome, perceber que a solidão me faz ver coisas e a vi de novo dias atrás na missa. Cheguei a pensar que a tal pessoa poderia ser sua parente.

Minha analista acha que crio projeções de vontades que tenho aqui dentro. É verdade, tenho uma analista que fica a me ouvir e apenas repete o que um dia você disse sobre esse amor ser o mais bonito dos amores.

Como disse Silvia Plath:  Acho que te criei no interior de minha mente e te busco nos aromas das flores, na chuva morna que já te lavou a alma aqui. É engraçado como as coisas tomam formas dentro da imaginação. Parece que foi ontem tudo e hoje, não consigo nem relembrar as datas. O calendário vira do avesso e me engana na sorte das rotinas. O dia do santo do seu lugar, o aniversário que é logo ali, o endereço que não lembro mais e o telefone que busco o número nas mensagens antigas.

Aqui, tudo é bloqueio entre as frases cortadas e o engano de sua presença.

A vida é assim mesmo, L,  os finais são necessários para um novo começo, mas no fim o que fica mesmo é saudade.

Beijo meu

M

 

Projeto Scenarium 6 missivas | Setembro -18
Participam: Lunna Guedes Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

 

Maratone – se #07 último dia

Eles olhavam e não a viam. Ela fazia mais sombra do que existia.
Clarice Lispector

Querida A.

Escrevo- te como presente. Deveria te dizer que as letras são tuas e que você é apenas a personagem das minhas memórias. Te nomeio Ana e assim te faço real, quase toco – a nas palavras que avançam dentro da noite.

Era você ali, no meu lugar comum e o riso cabia no ritmo das ruas. Para amanhã, as mãos escrevem a palavra final.

Não cabe a verdade das palavras tolas. O que vejo é você para além das cartas e diários que dizem mais sobre mim do que sobre você.

Era você ali, menina mulher com cheiro das folhas caídas no quintal. Sua história cantada nos cordéis da feira da rua de cima e vi que você é inventada na fé. Do espelho que quebrou ainda restam os cacos na pazinha na porta do fundo e o casarão já tem seu nome escancarado nas cores intensas e nas flores lilases esparramando – se nos muros.

É primavera e você poderia ter nascido em qualquer dia e fixo meu olhar nos dias em que te esperei.

Hoje, te guardo dentro do meu abraço e ficamos partículas de um acaso, de encontros e reencontros nas esquinas entre a rua do meio e a rua de cima.

Atravesso a tarde como o vento que sacode as cortinas. As cartas espalhadas na cama e seu nome sendo perpetuado nas mulheres de sua vida e agora na minha.
Dou – te a estrela mais brilhante e afirmo na densidade dos dias que ele te pertence em pura espécie de benção e de vontades.  E que a liberdade te abrace na rotina dos dias.

Na sua estante, livros que desenham sua história na minha e você se transforma na personagem que cuido, trato e defino com nome de flor. O que será amanhã, quando o dia romper a aurora e você virar apenas sopro ou suspiros?
Amanhã, você será apenas a liberdade das gaiolas abertas.
Voa, menina, voa!

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr
Projeto Scenarium Plural – Maratone – se : Tema livre

Maratone – se #06 – Penúltimo dia

mui de muito cor de coração dou de dourado pé de pétala vem do ventre algo de algodão.
Tomás Cunha Ferreira

Pela ordem natural das coisas o casarão ficou pronto e no jardim o amor agarradinho brotou poucos dias antes da primavera. O riso dela ecoava pela casa e Amy era a sinfonia que mais se ouvia.

Nas árvores ao redor havia ninhos de aves e o canto delas era o que se ouvia pela manhã – soube disso depois da noite que dormi aqui, em uma dessas noites em que ela ardia em febre – e a leveza do lugar me faz sentir em casa.

Ajeito os lençóis para que ela fique bem dentro do delírio. As cartas do baú se transformaram em minha leitura preferida, enquanto a luz do abajur muda a cor dos cabelos dela.

As fotografias estão espalhadas em quadros diversos e algumas cartas também fazem parte da decoração. Ela rascunhou uma em spray na parede que fica perto da janela. A impressão que dá é de que as palavras voam a cada balanço das cortinas.

Ela acorda. Pergunta sobre as horas e pede algo para comer.
Meu instinto de mãe antecede a vontade dela e ouço histórias de carrocel, de quando ela e Madalena atravessava a cidade para que ela brincasse na roda – gigante…

– Já te contei que adoro roda – gigante? – ela antecede meus pensamentos, enquanto devora a sopa de legumes – e que havia um parquinho ao fim da avenida e que pelo que me lembro eu e minha mãe éramos as únicas clientes. O carrocel era uma delícia! Eu chamava o cavalo azul de alazão e voava nos braços de minha mãe.

Amanhã ela faz 40. Lembra de detalhes do bolo de cinco anos, do de dez e do de quinze. Depois disso, viveu de solidão na casa dos tios e só descobriu que o casarão era dela dois anos depois que os pais morreram em um acidente.
Sempre viveu de ausência – essa era a verdade – e é verdade que nunca sentiu falta de presença. Essencialmente, as visitas dos tios e parentes próximos eram apenas para cumprir rituais e foram espaçadamente diminuindo até não se fazerem mais necessárias.
Nunca questionou o destino, nem a dor que sentia nos dias em que a presença da mãe clamava no peito.
Lembrava sempre do que a mãe dizia como ensinamento. Buscava interesses na literatura, na arte e nos gostos pelo que era vivo e aprofundava a pintura. Sabia que o dom rondava a forma crítica que encarava o mundo. Não permitia ninguém se aproximar tanto. Era mais por proteção, como a mãe ensinara.

Amanhã ela faz 40 e é tão menina dentro dos dias. Os fones no ouvido – o que desencadeou a febre que passou, enfim, foi a dor de ouvido – e ela não ouve o vento que agita as flores no jardim, enquanto dorme…

O jardim é só meu nessa noite, enquanto espreito o sono dela enquanto o vento faz melodias no jardim…

O jardim aonde ela plantou corações e que em plena primavera a vida lhe sorri.

 

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural – Maratone – se : Tema livre

 

 

Maratone -se – #05


Toda a vida tive esta sensação:
quem me dera que houvesse alguém que me pegasse pela mão
 e se ocupasse de mim.
Etty Hillesum

– Devia te prevenir que ia fazer geleia de pimentas. Os pés, no fundo do quintal foram generosos.

Meus olhos lacrimejavam e ela ria diante do meu nariz vermelho.

–  Quando eu faço isso é como se eu trouxesse minha Madalena até a cozinha e ela ficasse ali – no canto da mesa, com a xícara posta como se estivesse sendo servido o café – a espreitar minhas mãos a retirar as sementes e me encantar pelas cores rubras e achar o nome dedo de moça incrível.

–  Meu desafio habitual – disse emocionada por ela – é apontar o lápis e escrever cartas em papel em branco. Ver o cinza a descrever histórias que ainda acredito fazerem partes de minha memória. Das “dedo de moça” lembro – me da horta cercada e os pés floridos em miudezas… – funguei, enquanto o olho ardia e eu saia para o quintal.

– Tenho que recriar a horta no quintal. Há um canteiro morto para ressuscitar… – riu, enquanto tentava com que as memórias não viessem tão fortes dentro das lembranças – eu era ainda menina quando as duas me ensinaram o processo de retirar as sementes e a maneira de esterilizar o vidro. O anis estrelado dava o sabor discreto que fazia/faz toda diferença. Era quase alquimia juntar os ingredientes e parece que vejo Madalena parada perto do fogão a misturar-se densa dentro dos pensamentos. Pensar é vago. Dá essa incerteza de ter vivido. As memórias são quase uma casa difícil de habitar.
Era como se um poema por dia fosse recriado e eu era posta dentro dele.

– Entendo… – e estendo as mãos para um abraço onde ela se aninha.

Acho que ela pediu silêncio enquanto a voz de Amy enebriava toda casa. Depois, cantou a musiquinha que repetia meu nome um monte de vezes… e meu nome virava canção.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural – Maratone – se : Tema livre

Maratone – se – # 04

Tears Dry On Their Own tocava quando entrei na parte principal do casarão e ela nem me viu – o som ecoava entre as paredes levantadas em outros tempos.

Fiquei em silêncio vendo os olhos dela fechados e o ritmo da música ecoando pelos poros. De repente, ela abriu os olhos e suspirou… era a leveza da voz nas paredes e as coisas a brincar de pique esconde com ela:

– Onde deixei o aspirador? Cadê o paninho, cadê? – minha mão estendida oferecia o pedaço de pano largado em cima de uma cadeira – e a surpresa do olho se desmanchando no riso.

– Achei as fotografias – uma pausa longa e o tcharam!! – e entre a voz de Amy ecoou a dela – E – OS – DI – Á – R- I- OS!!

– Diários? Não era só um?

As mãos dela abriram a mala estilo retrô – ou vintage, ela diria – e eis que surgem livros-cadernos-brochuras – onde apenas as capas os diferenciavam em cores.

– Teodora, Isolda, Bernarda, Teresa, Leonor e enfim, minha doce e adorada Madalena! – os exemplares pareciam cadernos comuns e eu poderia passar a noite toda ali a folhear cada um deles com cheiro de passado – e a atenção dela me pedia calma e despistou oferecendo para fazer o chá.

Reclamou do cansaço do últimos dias – e olha que devia ser férias, viu? – F – É – R – I – A – s!!
– Bom, devo lembrar que foi você quem quis vasculhar o sótão e eu nem sabia que havia um sótão aqui…

– Há muitas controvérsias em tudo isso! – e riu – O tempo surge dentro dos baús e ecoa em nomes e lembranças.
É tempo de se curar das rotinas, tirar do rádio as canções de rádio novelas e jogar no fundo do baú as velhas cartas de amor. Só as cartas. Ah, e Amy!! Você viu que amo Amy, né? Amy é amor em voz – e o celular repete o refrão…
Esse amor que você guarda em algum espaço restrito da lembrança, que é pra quando sentir falta, servir com chá – e por falar em chá, olha só o apito da chaleira a nos chamar – quer biscoitos?
Nem respondi… a xícara repousou em minhas mãos e meus olhos devoravam as palavras de Leonor:

A vista me lembrava o terraço da casa de minha avó. Os bordados sempre engomados dependurados e os hibiscos derramavam suas flores em seus diversos tons. A estação muda as cores da manhã e lembro – me de que a vida cabia minúscula nos lenços bordados com monogramas e as lembranças daquelas manhãs regadas de doçura e das roupas espalhadas no chão, e sem esforço, ainda sentir o sabor doce do melhor beijo.
A casa tinha rotinas logo pela madrugada. O café era servido na casa grande e os pássaros invadiam os jardins em seus galhos e os beijos eram furtivos – ou roubados – sob as janelas pesadas entreabertas depois do terceiro toque.
O relógio do pai sempre desobedecia a temporada das flores. O cafezal seguia o ritmo primeiro do afago na terra que a mãe em sua sabedoria fazia.

A leitura me fez voltar em um tempo que não vivi. As palavras e letras desenhadas dentro da sabedoria das horas me fazia querer esse tempo que não vivi e nem chegou até a mim, excepto pelas cartas que leio e abraço com a delicadeza de quem nina uma criança que ainda pode crescer.

O tempo chegou e não ficou nem para uma xícara de chá quente. E o hoje já era ontem.

Com um sorriso feito de retalhos – daqueles que a avó bordava e fazia colchas – ela não esperava mais cerrar os olhos para sonhar de novo. Agora, já sonhava de olhos abertos, que era para se realizar logo.

Parecia ontem. Tudo ainda era caixote e as paredes redesenhadas e os baús com cheiro de memórias e um sorriso desesperado estampando a inocência de uma beleza curiosa. E ela a repetir no corpo a canção de Amy…

Prometeu ao vento ser forte e aguardar o dia de amanhã, se a rotina permitisse e ela ria.
O tempo continuou correndo, com ou sem pilhas nos ponteiros. Simples assim.

Entre uma estação e outra, enquanto o portão se fechava e ela fechava a caixa de fotografias de mulheres que fizeram de tudo para ela ser ela, apenas e só tentou deixar o bonito, ainda mais lindo, jogando fora as regras de sobrevivência. Porque a vida sem roteiros se tornou um retrato único, dessa rotina descabelada.

Mariana Gouveia
*imagem: Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural – Maratone – se : Tema livre