363. dos verbos indefinidos

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Na distância cabe cartas, telefonemas,
mensagens de voz, cartões-postais,
lágrimas e sorrisos de saudade.
Na ausência, nada.
Talvez só palavras inacabadas
e um silêncio de doer ossos.
Às vezes, penso, que se eu fechar os olhos
o mundo cairá morto aos meus pés.
Tríccia Araújo

 

Bambina mia!

Fecharam a rua de cima. O relógio parou no tempo e foi outro dia a estação e seus diários. O ano lunar era outro dia e tanto e estou a desfiar o tempo para você.

Antes de ontem, antes de amanhã, antes de hoje, antes de mim… depois! E já é de novo outro fim de ano. O pássaro que beija a flor vem avisar que tudo que vivi é essa história que escrevo a cada dia. O varal estende os sonhos que vivi.

Vivi Avessos. O carnaval me desvirou em imagens e a pergunta que veio para além das palavras:
“o que se pretende com o lado de dentro?”
Sabe aquela pele que arrepia e que toca a alma?

Sabe aquele gesto que faz com que você pare, suspire e inspire?

Sabe qual é a maior pretensão do lado de dentro?
Emocionar  –  foi quando comecei a envermelhecer.
Me aventurei em missivas para além das palavras. Abri janelas e mergulhei em sete luas…
Detalhei como seria minha rotina e as vontades todas dentro dos trovões que agora gritam seu nome por aqui.
Lembranças me acompanharam em 6 por 6 e um coletivo me levou por lugares onde eu não alcançaria de outro jeito. Sou essa pluralidade toda de uma maneira tão singular e agradeci de forma doce esse Scenarium que abraça meus dias e me acompanha corredores afora.
No tempero da memória ganhei um baú onde sabores e cores adoçaram a pele e alma.

Vivi sua cidade por dias e respirei carinho em suas calçadas.

Me atrevi a escolher poeta de antes e de agora.
E como se o vinho fosse raro demais, bebi o Vermelho…  E como se a garrafa custasse tanto que se eu beber tudo de uma vez, depois morrerei de vontade de novo do vinho, fui aos poucos embriagando – me nas palavras.

Falei três vezes de solidão e desenhei as missivas de uma primavera quente.

Na bendita pressa dos ponteiros e já era outubro… os prazos em dias e a viagem que não acaba nunca: a que eu ainda não fiz… – e hoje, refaço aqui nesse tempo louco de ontem – onde o café exala seu cheiro no quintal, e o amor expresso ganhou ares de sabores aqui.
Depois, a moça dos detalhes intimistas me descreveu em asas e voei… enquanto um céu desfiava um sopro quieto nos rostos.
De repente o que faz pulsar o meu vermelho por dentro?
O cheiro do branco das folhas do caderno esperando serem preenchidas com palavras.
e o sonetos…
Já era feliz ano velho de novo.
Soube que existia um mar ali… é onde mergulho esperando os dias novos que virão.

E as promessas para um ano novo é o que se desenha agora na janela que dá para a rua de cima, que fecharam hoje, mas que deixaram a chave debaixo do tapete…

Feliz tudo, todos os dias!
Bacio

Mariana Gouveia
363. dos verbos indefinidos

 

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3 – Ninguém conhece a fundo a luz do seu abismo

“Nenhum abismo me cabe
nessa hora, eu voo”.
Mariana Gouveia

Querida T.

Enquanto você compõe pássaros dentro de seus silêncios, eu voo…
Descobri asas no seu lugar e ali, envolvo dentro de suas palavras…
Tomo a liberdade de te escrever cumprindo um ritual que faço desde sempre – que me lembro –  de rabiscar palavras em forma de cartas. Já me disseram que sou assim, meio mãe de todo mundo e quando vi o azul dos seus olhos te imaginei celeste – tal qual o céu do meu lugar – mergulhei em seus abismos, me preparei para voos dentro das emoções que você tão lindamente entrega de presente para quem te lê.
Quando abrimos os jornais, sites de notícias ou falamos com alguém, as notícias ruins imperam as conversas e isso aqui é um alívio nesse ritmo de coisas tristes que andam por aí.
Não é que eu seja alienada e não esteja nem aí para as coisas que andam acontecendo, mas é que já há tanto de desânimo que prefiro usar as palavras para falar de amor, de vida, de natureza e de mostrar nas fotografias que o mundo pode sim ser diferente, vivido em seu extremo prazer de viver.
A vida não tem sido generosa comigo e ao mesmo tempo me enche de delicadeza como retribuição. Eu vejo a vida miúda no meu quintal, vejo o gigante acontecer no céu e abraço pessoas até mesmo sem tocar, que tudo que vivi e vivo deixa de ecoar em dores no corpo.
A gente que escreve tem esse conceito de tentar derramar nas histórias o nosso sentimento e isso, você faz magistralmente… embora, isso não nos impede de percorrer a linha tênue entre o espaço e o abismo.
Esse abismo instigante que nos chamam quando estamos a poucos passos do pulo ou o espaço ali, oferecendo um voo saboroso dentro da poesia e do amor.
E como você mesma encara a palavra tua, dona dela e maravilhosamente inspiradora, finalizo essa carta com a simbologia dos seus versos:

“Que eu saiba ser
buquê de pássaros
para perfumar os sonhos
em pleno voo”

Tríccia Araújo

Que os voos sejam teus sempre, menina coração.

Beijo,
Mari

Projeto Missivas de Abril
Scenarium Plural Editora

Eu dançaria contigo descalça, debaixo da chuva mais fria.

christian Schloe

Beberia da tua boca as palavras mais tolas e as transformaria em riso, porque sei da tua essência de menino, da beleza e da leveza do teu ser. Eu seria capaz de render a minha alma à tua boca e de caminhar ao teu lado, por caminhos de pedras e espinhos. Não me importaria de pintar o céu de outra cor, só para ver nos teus olhos o espetáculo da surpresa. Gosto de te beijar assim, cheio de espanto das coisas lindas do mundo. Por ti, viveria clandestina em minha própria terra e dormiria feliz no mais profundo dos abismos. Amar-te-ia sem limites, porque limitar o amor é como tolher as asas de um beija-flor. Ah, vida minha! Por ti, eu seria verdadeiramente feliz. Ficaria grávida de sonhos, todos os dias, e daria a eles o teu nome…

(Tríccia Araújo)
*imagem: Christian Schloe

Nossa infinita viagem

nossa infinita viagem*imagem: Google

:: E se eu te dissesse que sou flor, tu me colherias neste outono de incertezas?
Regar-me-ia com teu carinho e farias do meu perfume o teu maior motivo de desejo?
E se eu te dissesse que sou poema, me lerias com os olhos da alma e, com o toque macio de tuas mãos, darias forma as minhas metáforas secretas?
Serias capaz de fazer rimas com meus defeitos e cantar ao mundo que me adoras assim mesmo?
E se eu dissesse que te amo como amo as asas que me deste, me levarias para um voo vida afora?
Brincarias comigo de para sempre, desenhando em meu corpo a nossa rota de fuga, a nossa infinita viagem?
E se eu te dissesse que posso ser para ti flor, poema, pássaro e anjo, viagem sem volta…
o que quiseres que eu seja, ainda assim, serias capaz de machucar meu coração? :::

.: Tríccia Araújo :.